‘Sentimos as dores dos nossos clientes’, diz presidente da Belagrícola
Eron Martins testemunha a crise do agro, enquanto reestrutura a Belagrícola, revendedora de insumos que preside
Por que o agronegócio acumula tantas recuperações judiciais? Os produtores rurais precisam de crédito para financiar a safra e enfrentam juros muito mais altos do que antes. Além disso, as atuais margens de lucro estão entre as mais baixas da história. Em 2022, quando a saca de soja chegou a ser negociada por 200 reais, a margem era de 60%. Hoje, com a queda dos preços e o aumento dos custos, os produtores com muita sorte conseguem 15%. É uma queda muito grande.
Como isso afeta a Belagrícola? Nós sentimos as dores dos nossos clientes. Com as margens mais baixas, o produtor compra o mínimo necessário para a lavoura. Historicamente, o mês de janeiro sempre foi muito forte para a Belagrícola. Neste ano, o plantio da próxima safra está prestes a começar e muitos clientes ainda não compraram sequer o fertilizante. Eles não sabem se terão condições de pagar.
Como o crédito caro prejudica a empresa? Somos parte do agronegócio e também dependemos de crédito. Então, quando vendo menos, automaticamente preciso cortar meus gastos. Desde que assumi, em fevereiro, cortei as despesas em 50%. Também renegociamos as dívidas, mas as garantias exigidas para alongar os prazos estão muitíssimo maiores. Nenhum banco está muito disposto a isso. Só quem recorreu à recuperação judicial ou extrajudicial conseguiu prazos maiores.
Os senhores também concedem crédito aos clientes. Como estão lidando com isso? Temos cerca de 6 000 clientes. Assim como os bancos, estamos muito mais restritivos na concessão de crédito. Com isso, a inadimplência da nossa carteira, que chegou a mais de 20%, baixou para um dígito. Fechei a torneira do crédito, mas isso representa um ciclo negativo para a economia, porque impede muitos clientes de investir.
Publicado em VEJA, setembro de 2026, edição VEJA Negócios nº 30






