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Tarifaço deixa de ser disputa entre governos e vira preocupação com o bolso, aponta estudo

Instituto Democracia em Xeque identifica uma inflexão na narrativa eleitoral: a disputa com Trump deixa de ser tema geopolítico e passa ao cotidiano brasileiro

Por Laila Nery 23 jul 2026, 12h54
Tarifaço deixa de ser disputa entre governos e vira preocupação com o bolso, aponta estudo Priorizar nos meus resultados Google

O tarifaço anunciado pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, deixou de ser percebido pelos eleitores apenas como um embate diplomático e passou a despertar uma preocupação mais concreta: os seus desdobramentos sobre o custo de vida. A conclusão é do mais recente Painel Narrativo do Instituto Democracia em Xeque (DX), divulgado nesta quarta-feira, 22, que identificou uma mudança importante na forma como a crise vem sendo assimilada pelo eleitorado. Se antes a discussão girava em torno da relação entre Brasília e Washington, agora ela é filtrada pela pergunta que costuma mover o voto: quanto isso vai pesar no bolso?

Segundo o levantamento, a possibilidade de aumento no custo de vida passou a organizar a percepção dos participantes sobre o episódio. A ideia geral é de que “preços já estão altos e podem ficar ainda mais caros”, o que pode aquecer os embates sobre economia entre Flávio Bolsonaro e Luiz Inácio Lula da Silva, já que os papéis de ambos tendem a ser questionados pelos ouvidos do Instituto Democracia em Xeque.

Enquanto Lula é cobrado por negociações diplomáticas com o governo americano, Flávio é visto como alguém próximo de Trump que poderia usar essa influencia para ajudar o Brasil, mas que está apenas tentando obter vantagens eleitorais. Em ambas as leituras, a preocupação do eleitor se concentra na capacidade de evitar perdas econômicas, um dos principais critérios para avaliar os presidenciáveis.

Reciprocidade apenas em último caso

Essa mudança também altera as expectativas em relação às lideranças políticas. Em vez de demonstrações de confronto, os eleitores defendem uma estratégia baseada na negociação. O relatório aponta que a palavra “negociação” aparece como um consenso entre os participantes, que esperam que o governo brasileiro esgote todas as alternativas diplomáticas antes de recorrer a medidas de retaliação contra os Estados Unidos.

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Nesse contexto, a defesa da soberania nacional continua sendo valorizada, mas não a qualquer custo. Para os entrevistados, a reciprocidade deve ser o último recurso, acionado apenas se as tentativas de acordo fracassarem. A percepção sintetizada pelo estudo é que o Brasil precisa demonstrar firmeza, mas evitar uma escalada capaz de aprofundar os prejuízos econômicos.

O programa Brasil Soberano, anunciado pelo governo federal para mitigar os efeitos do tarifaço, é recebido de forma positiva, mas insuficiente. De acordo com o painel, os participantes enxergam a iniciativa como uma resposta emergencial, incapaz de substituir um acordo que impeça o impacto das tarifas sobre a economia brasileira.

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Lula é visto como um “presidente estável”

Embora Donald Trump continue sendo apontado como o principal responsável pela crise, o estudo mostra que as cobranças se distribuem entre diferentes atores políticos. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva é pressionado menos pela condução das negociações em si e mais pela forma como comunica o tema. Os participantes criticam, por exemplo, um vídeo publicado pelo petista antes do anúncio oficial das tarifas, no qual evitou tratar diretamente do assunto. Na avaliação do instituto, a postura transmitiu leveza excessiva diante de uma questão considerada grave e gerou a percepção de comunicação incompleta.

Ainda assim, Lula termina a rodada em posição relativamente favorecida. Os participantes do levantamento responderam ao DX que o presidente é visto como a alternativa mais segura na comparação com seus adversários, sobretudo por estar associado a entregas sociais e a uma postura institucional considerada mais estável. O avanço, porém, vem mais por contraste do que por entusiasmo: o levantamento ressalta que ele continua sendo cobrado por maior transparência e por demonstrar empenho permanente nas negociações com os Estados Unidos.

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Flávio Bolsonaro perdendo ativo “segurança pública”

Na oposição, o principal foco das críticas recai sobre o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). O relatório conclui que o parlamentar preserva parte do eleitorado que deseja mudança de governo, mas encontra dificuldades para transmitir confiança. Sua participação recente no Flow Podcast, em que relativizou a crise envolvendo Michelle Bolsonaro e afirmou cumprir uma “missão de Deus”, é apontada como um episódio que reforçou entre os participantes a percepção de esquiva, cálculo político e falta de objetividade.

O relatório também aponta que a disputa pública entre Flávio e Michelle Bolsonaro contribui para consolidar a imagem de uma família movida por disputas internas e cálculos eleitorais, sem que fique claro para parte dos eleitores qual projeto político cada um pretende representar.

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O instituto identificou ainda um desgaste adicional provocado após ser divulgada a fotografia de Flávio ao lado do aliado de Daniel Vorcaro, Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, o “Sicário”. Segundo a análise, a repercussão desloca a percepção do senador de temas como corrupção para questionamentos mais amplos sobre sua relação com personagens associados ao crime, abrindo uma vulnerabilidade justamente em uma das bandeiras que sua pré-candidatura busca explorar: a segurança pública.

O décimo Painel Narrativo do Democracia em Xeque foi levantado entre os dias 18 e 20 de julho. A prioridade foram quatro episódios recentes da política: o novo tarifaço e a distribuição de responsabilidades entre Trump, Lula e a Família Bolsonaro; a disputa familiar e política entre Michelle e Flávio; a recepção da foto de Flávio com o “Sicário” do Vorcaro; e os porquês da inclinação de voto entre eleitores pendulares nesta semana.

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