A promessa dos clones: o sonho que nasce do legado de Dolly
O plano de criar cópias humanas ainda é ficção, mas há outro mais tangível: rejuvenescer e curar nossas células
Ela foi chamada de milagre, de ameaça e de presságio. Para alguns, Dolly inaugurava uma era em que seres vivos poderiam ser copiados como documentos. Outros acreditavam que a ovelha que veio ao mundo em 1996 na Escócia abria consigo uma caixa de Pandora ética. Três décadas depois do nascimento do primeiro mamífero clonado a partir de uma célula adulta, nenhuma dessas previsões se concretizou exatamente. A clonagem não deu origem a exércitos humanos ou rebanhos feitos em laboratório. Mas propiciou aprendizados e aplicações ainda mais fascinantes, hoje representados pelos avanços da medicina regenerativa.
Entre a promessa e o sonho, poucos termos científicos suscitam tanto fascínio como “clone”, a ponto de voltar às manchetes neste mês, quando o empresário americano Bryan Johnson, de 48 anos, o mesmo que nutre a utopia de nunca morrer, anunciou ter criado uma cópia de si mesmo. O problema é que o “Baby-Bryan” não é um clone. No processo que deu origem a Dolly, desenvolvido pelo britânico Ian Wilmut, o núcleo com o DNA de uma célula de ovelha foi inserido em um óvulo, desencadeando a cascata da qual brotaria um novo animal. “O que o empresário fez foi reprogramar uma célula do seu sangue para que ela voltasse a um estado semelhante ao embrionário, algo realizado desde 2006”, explica o biólogo Luiz Almeida, do Instituto Questão de Ciência.
A ironia é que essa técnica, frequentemente confundida com a clonagem em si, representa um dos maiores legados de Dolly. O experimento realizado na Escócia não ensinou apenas a “copiar” uma ovelha. Mostrou que a identidade de uma célula era muito menos rígida do que se acreditava, o que motivou a busca por formas de reprogramar células já adultas, inclusive para tratar doenças hoje incuráveis.
A lógica remete ao início da vida: todo ser humano vem de uma única célula. A partir dela surgem as unidades do sangue, da pele, dos músculos, do cérebro… Durante décadas, os cientistas acreditaram que, uma vez especializada, uma célula jamais poderia mudar de identidade. A primeira rachadura na tese ocorreu nos anos 1950, quando o britânico John Gurdon demonstrou, em experimentos com sapos, que o núcleo de uma célula adulta conservava as instruções necessárias para “voltar atrás” e gerar um organismo inteiro. Só faltava saber se o mesmo princípio valia para mamíferos. A resposta veio em 1996, quando Dolly nasceu a partir da receita de uma célula mamária de uma ovelha adulta. Dez anos depois, o japonês Shinya Yamanaka descobriu que, em vez de clonar um animal, bastava ativar quatro genes para fazer uma célula adulta recuperar as características embrionárias. Nasciam as células-tronco pluripotentes induzidas, condecoradas com o Prêmio Nobel em 2012.
As células que podem voltar a ser “jovens” estão no centro de uma das áreas mais promissoras da medicina. No momento, 115 estudos clínicos testam o expediente, envolvendo mais de 1 200 pacientes com doenças oculares, cardíacas, neurológicas… . Embora a maioria dessas experiências ainda exija pesquisas mais robustas, resultados já apontam benefícios que vão da redução de crises de epilepsia à independência da insulina em casos de diabetes. O desafio é transformar esses avanços em terapias aprovadas, escaláveis e acessíveis. “E a ideia mais recente, que começa a ser avaliada agora, é fazer essa reprogramação dentro do próprio corpo humano, não em células do indivíduo em laboratório”, diz a geneticista Lygia da Veiga Pereira, professora da USP.
Essa é a proposta da empresa Life Biosciences, cofundada pelo geneticista de Harvard David Sinclair, que iniciou um tratamento de regeneração celular em um paciente com glaucoma e lesões no nervo óptico que podem causar cegueira. Os cientistas estão buscando “rejuvenescer” as células do olho, e há quem diga que, no futuro, isso poderá ser feito com neurônios. Soa fantástico, mas há riscos em jogo. “Quando as células voltam para um estágio tão embrionário, são capazes de desenvolver qualquer coisa, inclusive tumores”, diz o geneticista Salmo Raskin, diretor científico da Sociedade Brasileira de Genética Médica. “Transformar essa tecnologia em um tratamento seguro pode levar anos.”
Fora do ambiente médico, a clonagem tem um capítulo à parte na pecuária. Os estudos giram em torno da criação de linhagens mais resistentes a doenças. Não é um plano simples: a maioria dos clones acaba desenvolvendo um problema que o original não tinha. Ainda assim, as aplicações se diversificam e hoje se estendem para o aumento na produção de proteína animal e a obtenção de órgãos para transplantes em humanos. Entre o campo e o laboratório, contudo, dilemas éticos persistem. Especialmente quando figuras como Bryan Johnson postam declarações que turvam o debate científico e a compreensão pública. Até porque o maior fruto de Dolly é invisível a olho nu: poderá estar em alguns anos em uma célula reprogramada dentro do nosso corpo. A réplica exata ainda é uma quimera, fio para meadas de ficção científica, um dos enigmas da humanidade, daí o permanente fascínio.
Publicado em VEJA de 7 de agosto de 2026, edição nº 3007








