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Estudo liderado por finlandeses identifica geoglifos no sudoeste da Amazônia

A descoberta foi possível graças à combinação de datação por radiocarbono com tecnologia LiDAR, capaz de enxergar através da copa das árvores

Por Alessandro Giannini Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 29 jul 2026, 12h01 | Atualizado em 29 jul 2026, 14h36
Estudo liderado por finlandeses identifica geoglifos no sudoeste da Amazônia Priorizar nos meus resultados Google

Debaixo da mata fechada do sudoeste amazônico, pesquisadores identificaram os vestígios de uma sociedade multicultural batizada de Aquiry, responsável por centenas de geoglifos geométricos erguidos entre 600 a.C. e 850 d.C. Utilizando tecnologias avançadas de detecção e datação, o grupo de cientistas mapeou centenas de recintos cerimoniais e redes de estradas que revelam o epicentro da civilização ancestral. Reunindo um amplo conjunto de evidências, o novo estudo, publicado nesta quarta-feira, 29, na revista Nature, consolida a região como um polo de inovação arquitetônica e alta densidade populacional muito antes da chegada dos europeus.

O estudo liderado pelo pesquisador finlandês Martti Pärssinen, à frente de uma equipe internacional, utilizou a tecnologia LiDAR (varredura a laser aerotransportada) para perfurar a folhagem da selva ao longo de mais de 4.430 quilômetros. Ao remover digitalmente a copa das árvores, a técnica revelou cinco vezes mais estruturas em áreas de floresta do que o mapeamento anterior, feito apenas por imagens de satélite. Como resultado, os cientistas constataram que o território ocupado pelos Aquiry se estendia por cerca de 183.000 quilômetros quadrados, uma escala que reposiciona a região como um dos grandes polos de organização social pré-colombiana.

As ruínas deixadas por essa sociedade são um feito de planejamento e execução inegáveis. Os geoglifos geométricos mapeados incluem praças quadradas, circulares e octogonais, com áreas que variam de 0,35 a quase 50 hectares. Para criar esses espaços monumentais, os construtores escavaram trincheiras exatas de até 13 metros de largura e 5 metros de profundidade, formando muretas ao redor — um feito que indica organização de trabalho sofisticada e profundo conhecimento matemático.

Homem calvo de óculos, com camisa marrom e logo Geoglifos, sorri sentado em cadeira de couro. Ao fundo, janela com vista para cidade e um arco-íris no céu
Alceu Ranzi: Amazônia de hoje é produto de civilização antiga (Arquivo Pessoal/Reprodução)
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Essa precisão geométrica impressiona justamente por sua escala e antiguidade, como resume o geógrafo brasileiro e coautor do estudo Alceu Ranzi, que passou 25 anos estudando as estruturas: “Enquanto o Pitágoras estava lá na Grécia, fazendo seu teorema […] os acrianos antes do Acre estavam fazendo geometria monumental”. Segundo ele, “a geometria perfeita e o tamanho… você chega no campo e são 200, 300 metros de lado. Precisou muita gente para fazer isso e também sobreviver pelo menos 1000 anos”.

Diferentemente das clássicas vilas muradas europeias, as datações por radiocarbono revelaram que esses recintos não eram assentamentos defensivos permanentes. Em vez disso, funcionavam como grandes centros públicos cerimoniais, recebendo multidões por curtos períodos por meio de estradas conectadas — uma rede que aponta para uma cosmologia unificada entre os diferentes grupos que compunham a civilização Aquiry.

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Esses números levantam ainda a questão de quantas pessoas essa rede de estradas e centros cerimoniais poderia ter sustentado. Vale ressaltar que a estimativa a seguir fundamenta-se em modelos e premissas estatísticas dos autores do estudo, não em contagens absolutas de indivíduos. Extrapolando o total de obras já descobertas e ajustando para a invisibilidade de estruturas sob a copa das árvores, a equipe estima que toda a região possa abrigar mais de 20.000 geoglifos. Ao cruzar esse número com modelos bayesianos de datação — que apontam que até 60% das praças estavam ativas simultaneamente por volta do ano 200 d.C. — os autores projetam que, em seu apogeu, a civilização Aquiry sustentou entre 1,25 e 3 milhões de pessoas.

Essas descobertas ajudam a derrubar o mito secular de que as terras amazônicas eram pobres demais para sustentar o desenvolvimento humano complexo. Longe de passivos na paisagem, os Aquiry cultivavam milho, abóbora, mandioca e feijão e atuavam como manejadores ativos da floresta tropical. As evidências mostram que a atual distribuição de palmeiras ricas em proteínas e das majestosas castanheiras-do-brasil coincide fortemente com as fronteiras de seus antigos recintos geométricos, um indício de que a vegetação encontrada hoje carrega as marcas desse manejo milenar.”A floresta Amazônia que nós conhecemos hoje é um produto do trabalho desse povo que ali viveu”, conclui o professor Ranzi.

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