Fóssil de hipopótamo é localizado no País de Gales
Descoberta faz arqueólogos recontar a história climática de uma região que há 120 anos já foi mais quente do que agora
Sob um dos castelos normandos mais impressionantes do sul do País de Gales, uma descoberta recente está obrigando arqueólogos a recontar a história climática — e faunística — da Grã-Bretanha. Escavações na Caverna Wogan, que está em baixo da região do Castelo de Pembroke, revelaram um sítio arqueológico incomum: os restos de um hipopótamo que viveu ali há cerca de 120 mil anos.
Além do achado surpreendente, os pesquisadores identificaram também fósseis de mamute-lanoso e evidências da presença de humanos primitivos, possivelmente incluindo Neandertais. O conjunto transforma o local em um registro raro da alternância de climas e espécies ao longo do tempo. “Não existe outro sítio arqueológico como este, é uma descoberta que acontece uma vez na vida”, afirmou o arqueólogo Rob Dinnis, da Universidade de Aberdeen, responsável pelas escavações na Caverna Wogan, no País de Gales, que achou o fóssil. “É um sítio sem paralelo na Grã-Bretanha”, disse ele à imprensa local esta semana.
O cenário atual — um castelo medieval erguido a partir de 1093, em pleno centro da cidade de Pembroke e hoje preservado como atração turística — contrasta fortemente com o ambiente que existia ali no passado remoto. E é justamente essa discrepância que torna o achado tão revelador.
À primeira vista, a presença de um hipopótamo no Reino Unido parece absurda. Mas ela faz sentido quando se considera o contexto climático da época. Há cerca de 120 mil anos, durante o período interglacial conhecido como Eemiano, a Europa experimentava temperaturas significativamente mais altas do que as atuais. Em alguns momentos, o clima era comparável — ou até mais quente — que o de hoje.
Nessas condições, rios e lagos da região ofereciam o habitat ideal para espécies hoje restritas a regiões tropicais e subtropicais. O hipopótamo, dependente de grandes corpos de água doce, conseguiu expandir sua distribuição muito além da África. Evidências fósseis mostram que esses animais chegaram a ocupar diversas áreas da Grã-Bretanha, incluindo o sul do País de Gales.
O registro encontrado na Caverna Wogan ilustra bem a dinâmica desse passado instável. Em períodos mais quentes, espécies como hipopótamos avançavam para o norte. Já nas fases glaciais que se seguiram, o frio intenso eliminava essas populações ou as forçava a recuar. A presença simultânea, no sítio, de espécies associadas a climas distintos — como o mamute-lanoso — reforça a ideia de ciclos ambientais extremos.
Mais do que uma curiosidade, o achado lança luz sobre a capacidade dos ecossistemas de se transformarem radicalmente ao longo do tempo — e sobre o quanto a paisagem atual é apenas um recorte momentâneo de uma história muito mais complexa.





