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O Orbe Dourado do Alasca: o mistério que veio do fundo do mar

Para encontrar respostas, o espécime foi enviado aos laboratórios do Museu Nacional de História Natural do Smithsonian, em Washington

Por Alessandro Giannini Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 28 abr 2026, 11h30

Em agosto de 2023, um robô submarino vasculhava as profundezas do Golfo do Alasca quando algo inesperado surgiu a mais de três mil metros abaixo da superfície: uma cúpula dourada, lisa, fixada a uma rocha e com uma pequena abertura em sua superfície. O objeto, logo apelidado de “Golden Orb” — ou Orbe Dourado —, foi captado pelas câmeras do navio de pesquisa Okeanos Explorer, da agência americana NOAA, e coletado com o auxílio de um veículo controlado à distância. As imagens rapidamente circularam pelo mundo científico e pela internet, dando origem a um festival de hipóteses: seria uma cápsula de ovos de alguma criatura desconhecida? Uma nova espécie de esponja? Um biofilme formado por microrganismos? Por ora, ninguém sabia ao certo.

Para encontrar respostas, o espécime foi enviado aos laboratórios do Museu Nacional de História Natural do Smithsonian, em Washington, onde uma equipe de pesquisadores se debruçou sobre ele com ferramentas de morfologia — o estudo da forma e da estrutura — e de genética. A investigação começou pela aparência. Já de imediato, o Orbe Dourado revelou uma característica desconcertante: ele não tinha órgãos. Nada de boca, intestino ou tecido muscular. Era composto, essencialmente, por um aglomerado de fibras envolto em uma superfície lisa e em camadas — mais parecido com uma embalagem do que com um ser vivo completo.

A primeira grande pista surgiu quando os pesquisadores levaram o objeto ao microscópio. Espalhadas por toda a superfície da estrutura, havia inúmeras células minúsculas chamadas espirocistos — estruturas urticantes com função adesiva encontradas exclusivamente em um grupo específico de animais marinhos: os cnidários da classe Hexacorallia, que inclui corais e anêmonas. Mais do que isso, as medidas dessas células coincidiam de forma surpreendente com as dos espirocistos de uma espécie em particular: a Relicanthus daphneae, uma anêmona gigante e pouco estudada que habita as grandes profundezas dos oceanos.

A suspeita ganhou peso, mas a confirmação definitiva viria do DNA. A leitura inicial do código genético do material falhou — o que forçou os cientistas a recorrerem a técnicas de sequenciamento mais sofisticadas, aplicadas tanto à superfície quanto ao interior do objeto. O esforço valeu a pena. Os dados obtidos revelaram a presença abundante de material genético pertencente ao gênero Relicanthus e, mais impressionante ainda, permitiram reconstruir o genoma mitocondrial completo do espécime — o conjunto de genes presentes nas mitocôndrias, as estruturas responsáveis pela produção de energia dentro das células. Esse genoma apresentou uma identidade de 99,9% com o genoma de referência da Relicanthus daphneae. Em ciência, isso é praticamente uma impressão digital.

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Com as evidências morfológicas e genéticas alinhadas, os pesquisadores chegaram a uma conclusão ao mesmo tempo precisa e poética: o Orbe Dourado não é um ovo, nem uma esponja, nem uma nova espécie. É a cutícula residual de uma anêmona gigante — uma espécie de casca orgânica que o animal deixa para trás fixada à rocha quando decide se mover. Pense nela como a marca deixada por um ser que passou por ali e seguiu em frente.

Essa conclusão ganhou ainda mais solidez quando a equipe analisou exemplares inteiros da mesma espécie coletados no Oceano Antártico: esses animais ainda carregavam fragmentos de uma cutícula idêntica presos ao seu disco basal, a parte do corpo que adere ao substrato. Imagens de vídeo obtidas por outros robôs submarinos reforçaram o cenário: as anêmonas Relicanthus secretam essas camadas douradas e são capazes de se desprender delas para se locomover pelo fundo do mar — em busca de correntes mais favoráveis para se alimentar ou para escapar de predadores —, deixando um rastro de material abandonado pelo caminho.

O capítulo final dessa história reserva ainda uma surpresa. As cutículas deixadas para trás não são apenas resíduos inertes: elas abrigam comunidades de bactérias e arqueas altamente especializadas e funcionam como pequenos reatores biogeoquímicos no fundo escuro do oceano, participando ativamente da ciclagem de nutrientes em ambientes onde a luz solar jamais chega. O que parecia lixo biológico se revela, afinal, uma peça viva no grande quebra-cabeça da vida abissal.

O caso do Orbe Dourado é, assim, um lembrete de que o oceano profundo ainda guarda mais perguntas do que respostas — e de que, às vezes, o objeto mais estranho encontrado no fundo do mar é simplesmente a pegada silenciosa de uma criatura que já foi embora.

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