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Alexandre Schwartsman

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Economista, ex-diretor do Banco Central

Aqui se faz, aqui se paga

O juro elevado é o preço do descontrole dos gastos

Por Alexandre Schwartsman 24 jul 2026, 06h00 | Atualizado em 24 jul 2026, 16h28
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Hoje, se o Tesouro Nacional quiser tomar dinheiro emprestado por dez anos, precisa pagar uma taxa real de juros na casa de 8% ao ano. Nesse ritmo, o montante devido dobra em menos de uma década. Para fins de comparação, o Tesouro americano pode tomar recursos para o mesmo prazo por 2,25% ao ano, isto é, pagamos algo como 5,5% ao ano a mais do que pagaríamos nos Estados Unidos para convencer o distinto público a financiar o governo brasileiro.

Ao contrário do que alguns imaginam, isso guarda pouca relação com as decisões do Banco Central, normalmente o bode expiatório dos juros altos no Brasil. Por meio do Copom, o BC determina o comportamento das taxas de juros de curto prazo. Ao fixar a Selic em determinado nível, garante que, para operações de um dia, a taxa de juros não pode se desviar muito desse patamar.

Em prazos mais longos, porém, como é o caso do horizonte de dez anos, a influência da política monetária, ou seja, da escolha da taxa Selic pelo BC, é bem menos relevante. O principal fator é o risco de que a dívida siga trajetória insustentável.

“Como a dívida se torna mais cara, o risco de emprestar ao governo se eleva e realimenta o processo”

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Para entender o fenômeno, considere o caso de alguém que se vê diante de uma escolha entre devedores: Ana, que não apenas recebe um bom salário como tem um histórico de crédito impecável; ou Bruno, cuja renda é menor e mais volátil, além de ter um passado duvidoso no que se refere a pagar de volta o que tomou emprestado. É claro que não estaríamos dispostos a cobrar a mesma taxa de juros de Ana e de Bruno; muito provavelmente Bruno teria de pagar bem mais caro para nos convencer a correr o risco de lhe emprestar dinheiro.

Guardadas as devidas proporções, não é diferente do apresentado há pouco: o Brasil paga um prêmio de risco relativamente aos Estados Unidos (os 5,5% ao ano antes mencionados), mesmo que correntemente a qualidade de crédito destes últimos tenha se deteriorado. Tal prêmio de risco tem aumentado. Ao mesmo tempo, o juro real americano subiu cerca de meio ponto percentual do final do ano passado para cá. Tal combinação explica os níveis recordes do juro real pago pelo Tesouro Nacional.

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As consequências são sabidas. É difícil achar projetos cujo retorno, ajustado ao risco do negócio, supere aquele associado aos papéis do governo, o que reduz o investimento privado. Adicionalmente, como a dívida se torna mais cara, o próprio risco de emprestar ao governo também se eleva, realimentando o processo.

A origem do problema se acha na dificuldade de convencer os credores de que o governo fará sua parte no que diz respeito a controlar os gastos. Pelo contrário, do final de 2022 a maio de 2026, o gasto público subiu de 18% para 19,6% do PIB, algo como 464 bilhões de reais a preços de hoje, expansão superada apenas na pandemia.

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Ao contrário do ocorrido naquele momento, contudo, marcado pelo aumento temporário da despesa, associado ao auxílio emergencial, a expansão atual se baseia em gastos obrigatórios, cuja reversão é extremamente complicada. Assim, se queremos conviver com juros mais baixos, não há alternativa que não passe pela redução do gasto público.

Todavia, a atual administração não faz, nem sinaliza, qualquer movimento nesse sentido. Sem isso, não há motivo para imaginar que o juro vai se reduzir a níveis sustentáveis.

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Publicado em VEJA de 24 de julho de 2026, edição nº 3005

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