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Editorial do Estadão: Depois do jantar

Publicado no Estadão Na terça-feira reuniram-se para jantar, no Palácio da Alvorada, a presidente Dilma Rousseff, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o ministro Jaques Wagner, o presidente do PT, Rui Falcão, e o assessor presidencial Giles Azevedo. Apurou-se que Dilma queria também a presença do ministro da Fazenda, Nelson Barbosa, mas Lula objetou, […]

Por Augusto Nunes 8 jan 2016, 16h08 | Atualizado em 30 jul 2020, 23h45
Editorial do Estadão: Depois do jantar Priorizar nos meus resultados Google

Publicado no Estadão

Na terça-feira reuniram-se para jantar, no Palácio da Alvorada, a presidente Dilma Rousseff, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o ministro Jaques Wagner, o presidente do PT, Rui Falcão, e o assessor presidencial Giles Azevedo. Apurou-se que Dilma queria também a presença do ministro da Fazenda, Nelson Barbosa, mas Lula objetou, alegando que o encontro se destinava a debater questões estritamente políticas. Faz sentido. O Palácio do Planalto e o PT não conseguem se entender a respeito do que fazer para encarar a crise econômica. É uma divergência política, acima de tudo. Tem a ver com o futuro do país, é claro, mas também com o que podem esperar para si mesmos os dois protagonistas da reunião, Dilma e Lula. Melhor então que o ministro da Fazenda aguarde quieto em seu canto as novas instruções para tempos difíceis.

Dilma termina o primeiro ano de seu segundo mandato no fundo do poço da popularidade e não tem mais nada a perder – a não ser o que lhe resta de mandato. Pode perfeitamente adotar medidas impopulares na área econômica, na esperança de estar fazendo o certo – mesmo ao arrepio de suas convicções ideológicas –, para colher a recompensa da retomada do crescimento econômico. Já o PT não quer ouvir falar em nada que, na sua ótica populista, contrarie os “interesses dos trabalhadores”. É por isso que tem ojeriza pela austeridade implícita ao ajuste fiscal. Acredita que o governo tudo pode, basta querer, e reivindica uma “nova política econômica”, que de nova não tem nada porque significa apenas a retomada da gastança paternalista com a qual Lula, em seu segundo mandato, e Dilma, no fatídico primeiro, inebriaram os crentes num Paraíso tropical e arruinaram a economia brasileira.

Ao contrário de Dilma, Lula tem tudo a perder com a persistência da crise, pois vive do prestígio que conquistou na brilhante carreira política e não se conforma com a possibilidade de ter de dedicar seus próximos anos a criar galinhas no aprazível sítio que frequenta em Atibaia. É o prestígio proporcionado pela imagem de mandachuva perpétuo que alimenta o ego e, em proporções nada desprezíveis, o alto padrão de vida do chefão do PT. Nas devidas proporções, vivem o mesmo dilema o alto comissariado e toda a militância petista encastelada no conforto do aparelho estatal.

Os jornalistas tiveram acesso ao que foi conversado no jantar por meio de participantes do encontro e pessoas a eles ligadas. O problema com esse tipo de informação é que as fontes costumam revelar apenas o que lhes interessa, sempre nos termos que lhes são mais convenientes. E isso explica as inevitáveis contradições nas informações veiculadas por distintos veículos de comunicação. Em resumo, as informações sobre a restrita cúpula político-gastronômica no Alvorada mais confundem do que esclarecem o que têm na cabeça os donos do poder.

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Parece ponto pacífico que Lula insistiu na necessidade urgente de sua ex-pupila “assumir o protagonismo” da agenda política e econômica e também viajar pelo país para transmitir “boas notícias” que ajudem a aliviar a má sorte que persegue o PT. Lula teria exigido também que o governo lhe forneça argumentos – como a oferta de farto crédito para a compra de bens de consumo – com os quais possa deliciar as massas carentes de boas notícias.

Já no campo factual, no dia seguinte ao jantar no Alvorada, quarta-feira, Jaques Wagner voltou a conversar abertamente com os jornalistas, ecoando questões discutidas na noite anterior. Com a clara intenção de criar um anticlímax diante da expectativa de grandes planos para a recuperação da economia, Wagner garantiu, segundo o Globo: “Não estamos mais em tempos de ‘pacotes’. Acho que não tem nada bombástico. Não tem coelho na cartola”.

A presidente da República, por sua vez, num gesto certamente destinado a “assumir o protagonismo”, reuniu ontem os jornalistas para um café da manhã durante o qual fez as habituais previsões otimistas e – surpresa! – admitiu que “todas as atividades humanas são passíveis de erro”. Partindo de quem parte, é um enorme progresso, mas não ajuda a entender o que vem por aí.

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