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Uma liquefação política

Prisão de Lula é marco da dissolução de toda sua geração política

Por José Casado 10 abr 2018, 07h16 | Atualizado em 30 jul 2020, 20h30
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José Casado, publicado no Globo

Termina em liquefação um longo ciclo político, e com o personagem central vivo.

O prelúdio foi no 7 de abril de 1978. Naquela sexta-feira, Claudio Hummes, bispo de Santo André (SP), peregrinou por sua diocese coletando doações — comida e dinheiro — para os operários metalúrgicos do cinturão industrial do ABC paulista.

Completavam a primeira semana de uma greve inédita, em desafio ao confisco salarial sustentado pelo regime militar. Na liderança emergia um ex-torneiro mecânico que migrara para a burocracia sindical, Luiz Inácio da Silva.

Na sexta-feira à noite, quatro décadas depois, Lula insistia em reescrever o epílogo policialesco da sua biografia política. Refugiou-se no berço sindical que o embalou à Presidência da República, dramatizando a resistência à mudança de endereço imposta pela Justiça — do quarteirão edificado do Sindicato dos Metalúrgicos, em São Bernardo, para uma cela de 15 metros quadrados na Superintendência da Polícia Federal, em Curitiba.

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No decreto de prisão de Lula tem-se o marco da dissolução não apenas do projeto que ele encarnou, mas de toda a geração política que o acompanhou, no mesmo palanque ou na oposição.

Sinaliza uma inflexão à impunidade, com reflexos diretos no modo de fazer política, nas relações das empresas com o governo e o Congresso, e também do Judiciário com a sociedade. O centro da resistência às mudanças continua instalado na Praça dos Três Poderes, em Brasília.

Ex-presidente e sem foro especial, Lula viu o desfecho do caso em velocidade recorde, se comparado aos processos de políticos privilegiados com o remanso do foro no Supremo.

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Ainda não houve julgamento de nenhum dos 78 senadores, deputados ou ministros denunciados no STF desde março de 2015 por envolvimento nas roubalheiras reveladas pela Lava-Jato. Porém, há seis meses os juízes desse tribunal discutem em público e no plenário formas de lustrar seu poder sobre o desfecho desses processos — desde a validação das delações premiadas até o significado conceitual de “trânsito em julgado” e a instância de sua resolução.

O drama construído na prisão de Lula contém outro aspecto relevante: a fragilidade das forças autodenominadas de esquerda, que se mantêm reféns do velho líder e não conseguem vislumbrar o futuro além do horizonte da Rua Professora Sandália Monzon, Bairro Santa Cândida, Curitiba — endereço da cela reservada para Lula.

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