O crescimento acelerado das favelas no Brasil
Em 40 anos, favelas quase triplicaram de tamanho, um ritmo de crescimento acima da média nacional de urbanização
Não é à toa que as favelas chegaram nestas eleições ao centro do debate político brasileiro. Hoje, segundo o Censo 2022 do IBGE, 16,4 milhões de pessoas – o equivalente a 8,1% da população – vivem em algumas das 12,3 mil favelas e comunidades urbanas do país.
Uma análise da Agência Mural de Jornalismo das Periferias sobre as propostas apresentadas pelos candidatos à presidência à Justiça Eleitoral mostrou que o termo favela – e variações como favelização e desfavelização – é mencionado 38 vezes em planos de governo. Em geral, no entanto, a conotação é negativa. Já menções à periferia quadruplicaram em comparação com 2022: 44 menções ante 11 no pleito passado.
De acordo com um levantamento do MapBiomas, uma rede formada por universidades, ONGs e empresas de tecnologia que produz mapeamentos anuais de cobertura e uso da terra no Brasil, de 1985 a 2024 a área urbana de favelas quase triplicou. Saltou de 53,7 mil hectares para 146 mil hectares, enquanto as cidades de forma geral cresceram um pouco menos – 2,5 vezes. Para ter uma ideia do tamanho, um hectare equivale a mais ou menos um campo de futebol.
Para o geógrafo Julio Pedrassoli, professor da Universidade de São Paulo (USP) e um dos coordenadores do Mapeamento de Áreas Urbanizadas do MapBiomas, essa expansão acelerada pode ser atribuída em grande parte à desigualdade na distribuição de renda. Uma favela, segundo ele, costuma surgir em uma área da cidade cujo valor imobiliário é menor, como regiões de grandes declives ou perto de rios. “Essas áreas são por natureza informais. A desregulamentação explica bastante por que a favela cresce mais rápido. Ela vai à margem. É um recurso que sobra para uma parcela relativamente grande da população conseguir acesso à moradia que não consegue via mercado formal”, diz ele, em entrevista à coluna.
Os dados, produzidos pelo MapBiomas a partir de imagens de satélite e informações oficiais do IBGE, permitem ver com exatidão não apenas esse crescimento, mas também como está ocorrendo a expansão.
“Risco tem uma associação muito grande com ocupação informal”, diz Julio Pedrassoli. Segundo o levantamento do MapBiomas, a área de favelas que se encontram em terrenos com alta declividade aumentou mais de 150%, passando de 2.266 hectares, em 1985, para 5.704 hectares em 2024. Já as áreas próximas a drenagens, mais vulneráveis a enchentes, alagamentos e inundações, aumentaram 145% em quatro décadas, saltando de 493 mil hectares, em 1985, para 1,2 milhão de hectares, em 2024.
O MAIOR COMPONENTE DO RISCO É A POBREZA
Segundo o especialista, a expansão das cidades deve ser pensada no contexto do risco e das mudanças climáticas, que já são uma realidade e incidem de forma mais dramática em áreas sensíveis e vulneráveis como as favelas. “As moradias têm menor capacidade de sustentação e estão, geralmente, em áreas mais perigosas”, diz o geógrafo. “Todas as capitais brasileiras têm ocupação em áreas de risco. No Brasil, o maior componente do risco é a pobreza.”
Os dados também mostram que as favelas são um fenômeno tipicamente metropolitano. Em 2024, as regiões metropolitanas abrigavam 82% de toda a área urbanizada em favelas no Brasil.
Brasília destaca-se por abrigar as favelas que mais cresceram nos últimos 40 anos. Das cinco favelas que mais expandiram sua área de ocupação entre 1985 e 2024, quatro delas estão na capital federal. Duas delas, Sol Nascente e 26 de Setembro, ocupam o primeiro e o segundo lugares das maiores favelas em área territorial do Brasil, com 599 e 577 hectares, respectivamente.
Engana-se, no entanto, quem pensa que crescimento das favelas ocorreu apenas em Brasília e no Sudeste. Em Manaus e Belém, na Região Norte, metade da expansão urbana no período analisado aconteceu pela favelização, segundo o MapBiomas. Hoje, das 20 favelas e comunidades urbanas mais populosas do Brasil, oito estão na Região Norte, de acordo com dados do Censo Demográfico 2022.
Chama a atenção ainda o fato de que 25% da expansão urbana brasileira ocorreu em áreas de segurança hídrica crítica. Com a água cada vez mais escassa – a superfície de água mapeada pelo MapBiomas diminuiu 17% nos últimos 40 anos – isso, sem dúvida, acende um sinal de alerta.
SITUAÇÃO DAS FAVELAS AINDA É MAIS PRECÁRIA
Nas cidades, as condições de quem vive fora e dentro das 20 maiores favelas do Brasil é marcada por disparidades. Dados do Censo de 2022 apontam que 64% dos moradores em favelas e comunidades vivem em vias sem nenhuma árvore. Fora dessas áreas, o percentual é de 31%.
As diferenças não param por aí. Seis das 20 maiores favelas do Brasil não têm rampa para cadeirante. As demais têm de 1% a 8%, no máximo. Fora das favelas, os percentuais variam de 6% a 34%.
TRAGÉDIAS ANUNCIADAS
Diz o dito popular que é melhor prevenir do que remediar. Infelizmente, no Brasil, costuma ser o contrário. A impressão que tenho é que estamos sempre correndo atrás dos prejuízos.
Atualmente, na área social, a palavra de ordem é política preditiva. Ou seja, dados e evidências são usados para antecipar necessidades sociais e direcionar recursos púbicos de forma preventiva.
“Sabemos onde estão as áreas de risco e quais delas estão em favela. Com os dados, conseguimos sair daquela coisa de remediar quando o problema acontece. Temos informação prévia suficiente para pensar nas providências que devem ser tomadas antes para evitar que o problema aconteça. Não dá mais para alegar que não se sabe onde estão os problemas para pensar as soluções”, diz Pedrassoli.
A plataforma do MapBiomas tem todos esses dados detalhados, revisados por um comitê científico externo, que podem ser acessados gratuitamente. Um dos casos de maior sucesso citado pelo geógrafo é o dos bombeiros do Acre. “Eles usam os nossos dados para priorizar o atendimento em caso de evento extremo. Com isso, eles conseguiram melhorar a eficiência deles em cerca de 70%”, calcula.
Nestas eleições, o desafio é sair dos achismos e incluir no debate a implementação dessa nova geração de políticas sociais baseadas em evidências. Também é preciso discutir um modelo de cidade que inclua a favela para que seus moradores possam viver e progredir nesses lugares com condições dignas, acesso às políticas públicas e em paz. As favelas crescem no país, mas seus cidadãos ainda são, infelizmente, tratados como de segunda categoria, sujeitos a operações letais da polícia e a tragédias naturais previsíveis.
*Jornalista e diretora da Cross Content Comunicação. Há mais de três décadas escreve sobre temas como educação, direitos da infância e da adolescência, direitos da mulher e terceiro setor. Com mais de uma dezena de prêmios nacionais e internacionais, já publicou diversos livros sobre educação, trabalho infantil, violência contra a mulher e direitos humanos. Siga a colunista no Instagram.







