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Um olhar diferente para as desigualdades do Brasil

Os impactos do racismo na educação infantil

16% dos cuidadores relatam que suas crianças de 0 a 6 anos já foram vítimas de racismo. Maioria dos casos ocorreu em creches e pré-escolas

Por Andréia Peres 15 set 2026, 07h30 | Atualizado em 15 set 2026, 10h17
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Assisti recentemente a “Nosso Segredo”, o longa dirigido e roteirizado por Grace Passô, que estreou em setembro nos cinemas e usa o realismo fantástico para falar de temas espinhosos, como o racismo. Uma das cenas mais tocantes do filme é um diálogo de Sidney (Juan Queiroz) com Tutu (Efraim Santos), um menino de 7 anos. Na conversa, Sidney, que namora a irmã do menino, fala sobre o bullying que sofria na escola e como isso afetou sua autoestima, ao perceber que a criança poderia estar passando por uma situação semelhante. Sem didatismos desnecessários, o bate-papo entre eles expõe de forma sensível e delicada os efeitos dolorosos que o racismo pode ter na construção da identidade de crianças negras.

O longa é um dos pré-selecionados para representar o Brasil na categoria de Melhor Filme Internacional no Oscar 2027. Independentemente do resultado, ele acerta ao abordar na ficção um assunto que precisa ser discutido com urgência na vida real.

Segundo a pesquisa Panorama da Primeira Infância – O Impacto do Racismo, realizada pelo Datafolha e pela Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal no final de 2025, 16% dos cuidadores relatam que suas crianças de 0 a 6 anos já sofreram racismo. Os casos são mais comuns entre as de 4 a 6 anos (21%) do que entre as de 0 a 3 anos (10%), possivelmente porque as menores ainda não reconhecem ou verbalizam a discriminação. A prevalência também é maior em famílias de baixa renda. Creches e pré-escolas são os ambientes mais citados em que a criança já sofreu racismo, mencionados por mais da metade (54%) dos cuidadores.

Assim como sugere a ficção, na infância o racismo impacta a saúde física e socioemocional, a autopercepção, a socialização e o acesso a direitos e a oportunidades de aprendizagem, comprometendo o desenvolvimento integral das crianças.

RACISMO É REPRODUZIDO NAS BRINCADEIRAS DAS CRIANÇAS

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“Marcadores raciais, como cabelo e cor de pele, atravessam as infâncias negras”, diz a pedagoga Lavínia Brasilino de Moraes, em entrevista à coluna. Mestra em Educação, Lavínia estuda o racismo na infância e sua pesquisa foi uma das vencedoras da última edição do Prêmio Ciência pela Primeira Infância, promovido pelo Núcleo Ciência Pela Infância (NCPI).

A análise de campo, realizada a partir de diálogos com crianças pretas, pardas e brancas numa escola de Educação Infantil do Campo, no sul da Bahia, em Ilhéus, mostrou, entre outras coisas, que o racismo se manifesta de forma sutil e cotidiana no ambiente escolar.

“As crianças acabam reproduzindo o racismo no brincar, principalmente segregando bonecas negras que estavam na sala”, diz a pedagoga. “Muitas vezes, elas se recusavam até a tocar na boneca. Quando tocavam, era para arremessá-la. Ao criar personagens, a boneca negra também era sempre a má”, conta.

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Segundo Lavínia Moraes, o racismo interfere de formas diferentes em meninos e meninas negras. Em relação às meninas, o que aparece como mais evidente é a negação do cabelo crespo e cacheado. “As meninas ficavam com o cabelo muito preso. Uma das crianças se referia ao próprio cabelo como um cabelo duro quando solto. Isso é muito impactante porque estamos falando de crianças de 5 anos”, lamenta.

Nas interações livres, havia brinquedos como prancha e secador de cabelo e as meninas acabavam reproduzindo no brincar o desejo de ter um cabelo alisado. Em relação aos meninos, o cabelo também aparece como forte marcador racial. “Eles usavam o cabelo muito curto, quase raspado, numa tentativa de contê-lo”, observa, acrescentando que eles não sabiam sequer dizer se o cabelo era crespo, cacheado ou ondulado.

Outro fator que apareceu na pesquisa é a negação em relação ao próprio tom da pele. “O racismo na infância faz com que as crianças neguem a própria tonalidade da pele”, diz Lavínia. Ela observou que havia crianças negras se autodeclarando como brancas ou usando outras nomenclaturas como “marrom”, “moreno claro” ou “um pouco branca”.

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A própria pesquisadora, que é negra, foi retratada num desenho por uma das crianças com a pele clara, pintada com lápis salmão. Ao ser questionada pelo erro, a menina retrucou: “Você vai querer mesmo que eu pinte dessa cor? Marrom? Vai ficar feio! ”.

“O mais gritante para mim é a forma como o racismo afeta a identidade dessas crianças em relação às suas próprias características físicas, aos seus fenótipos, como traços do nariz mais largo, da boca, do tom de pele, do cabelo”, afirma a pedagoga.

OS IMPACTOS NO DESENVOLVIMENTO INFANTIL

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Dados do Estudo Internacional das Aprendizagens e do Bem-Estar na Primeira Infância (IELS, sigla em inglês), da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), divulgados neste ano, mostram que as desigualdades educacionais aparecem antes mesmo do ingresso no ensino fundamental e são fortemente influenciadas por cor/raça e nível socioeconômico.

Os resultados indicam que crianças brancas apresentam, em média, níveis mais elevados em aprendizagem de linguagem e matemática do que crianças pretas e pardas. As desigualdades mais pronunciadas aparecem na comparação entre crianças brancas e pretas: cerca de 17 pontos a menos em linguagem e 40 pontos a menos em matemática. O estudo foi conduzido com crianças de 5 anos matriculadas na pré-escola em três estados: Ceará, Pará e São Paulo.

Em relação às interações das crianças entre elas e com a equipe escolar, um ponto considerado fundamental na educação infantil, a pedagoga observa que as de pele mais escura (preta retinta) tinham comportamento de maior isolamento. “Na hora de participar, elas eram mais tímidas e caladas, menos expressivas nas brincadeiras”, diz, reforçando que isso acaba afetando o desenvolvimento das habilidades nessa etapa da educação básica.

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Educar, cuidar e brincar são pilares fundamentais da educação infantil. “Interações e brincadeiras devem orientar a prática pedagógica e os professores precisam estar atentos a elas”, diz Lavínia Moraes.

Também é necessário ter acervos e materiais didáticos comprometidos com a diversidade. Isso inclui, segundo a pedagoga, desde livros infantis com representações positivas de crianças negras e brinquedos que contemplem a pluralidade dos corpos, até materiais de colorir com variedade de tons de pele, bonecas e bonecos com traços diversos. “Quando há um trabalho realmente intencional para as questões étnico-raciais, as crianças se transformam”, diz.

Embora a lei nº 10.639/03 não cite explicitamente a obrigatoriedade dessa temática na educação infantil, as Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação das Relações Étnico-Raciais, que orientam as práticas para o seu cumprimento, incluem todas as etapas educacionais. Segundo a pedagoga, é urgente a adequação das políticas educacionais.

Isso implica estratégias de efetivação contínua, recursos financeiros para aquisição de materiais que tragam a diversidade para dentro da sala de aula e formação continuada dos professores.

“Existe a lei, mas é preciso que os professores recebam a formação que os qualifique para trabalhar com essa questão e que também haja uma adequação dos currículos. Não adianta ter a lei se o currículo ainda está distante do que ela preconiza”, critica a pedagoga.

Em janeiro de 2027, a lei completa 24 anos. Apesar do avanço que representa, infelizmente, não há muito o que comemorar. Depois de tanto tempo, ainda falta o principal: implementá-la na sala de aula, desde a educação infantil.

*Jornalista e diretora da Cross Content Comunicação. Há mais de três décadas escreve sobre temas como educação, direitos da infância e da adolescência, direitos da mulher e terceiro setor. Com mais de uma dezena de prêmios nacionais e internacionais, já publicou diversos livros sobre educação, trabalho infantil, violência contra a mulher e direitos humanos. Siga a colunista no Instagram.

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