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Balanço Social

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Um olhar diferente para as desigualdades do Brasil

Quadro de saúde mental nas escolas é alarmante e precisa de atenção

Três em cada dez estudantes já tiveram vontade de se machucar de propósito e 42,9% deles se sentem irritados, nervosos ou mal-humorados, diz pesquisa

Por Andréia Peres 21 abr 2026, 07h30

Recentemente, fui assistir ao filme O Drama, ainda em cartaz no cinema. Não vou dar spoiler, mas uma das coisas que mais me chamou a atenção foi como ele aborda a questão da saúde mental do adolescente. A história, que começa como um romance açucarado entre Emma (Zendaya) e Charlie (Robert Pattinson), acaba se transformando num debate rico e original sobre esse tema.

Qual é o papel da escola no enfrentamento aos problemas de saúde mental? O filme não responde à questão, mas acerta em cheio quando discute o tema, mesmo que lateralmente, por meio de uma quase tragédia. Uma adolescente deslocada, depressiva e vítima de bullying planeja um ato de extrema violência na escola, mas, aos poucos, muda de ideia quando a instituição passa a trabalhar com alunos e professores dinâmicas e interações que envolvem o enfrentamento às violências e sentimentos de tristeza e de não pertencimento. Ponto para o filme e para a escola fictícia.

PARA QUASE 20% DOS ESTUDANTES A VIDA NÃO VALE A PENA SER VIVIDA

No Brasil, os últimos dados da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNse), recém-publicada, tornam a conversa sobre saúde mental cada vez mais urgente e necessária – nas escolas e fora delas. Realizada pelo IBGE, em parceria com os ministérios da Educação e da Saúde, a pesquisa investigou comportamentos, condições de saúde e contexto de vida de 118.099 estudantes de 13 a 17 anos que frequentavam 4.167 escolas públicas e privadas de todo o Brasil, em 2024. A amostra é considerada representativa do universo de estudantes do país.

Três em cada dez estudantes dessa faixa etária afirmaram que se sentem tristes sempre ou na maioria das vezes. Uma proporção semelhante (32%) também revelou que já teve vontade de se machucar de propósito nos 12 meses anteriores à pesquisa. Quase metade (42,9%) dos alunos disseram que se sentem “irritados, nervosos ou mal-humorados por qualquer coisa” e 18,5% afirmaram que pensam sempre, ou na maioria das vezes, que a “vida não vale a pena ser vivida”.

As violências recorrentes também compõem esse quadro preocupante: 18,5% dos estudantes relataram já ter sofrido assédio sexual alguma vez na vida e mais de um quarto deles (27,2%) sofreu bullying duas ou mais vezes. E em todos os indicadores, os resultados entre as meninas são mais alarmantes do que entre os meninos.

SAÚDE MENTAL É O PRINCIPAL DESAFIO DAS REDES

“A pesquisa volta a reverberar resultados que a gente vem acompanhando nos últimos anos e que apontam para a questão da saúde mental como algo muito central para ser tratado nas políticas educacionais e nas estratégias de apoio às equipes escolares”, diz Patricia Mota Guedes, superintendente do Itaú Social, em entrevista à coluna.

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Segundo pesquisa feita pelo Itaú Social e pela União Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação (Undime) com 3.329 redes municipais de ensino (o equivalente a 60% de todas as redes do país), 75,2% dos secretários municipais de Educação apontam a saúde mental de alunos e professores como o principal desafio da gestão nos anos finais do ensino fundamental.

E põe desafio nisso. Em 2024, o Ministério da Educação (MEC), com apoio técnico do Itaú Social, reuniu as percepções de quase 2,3 milhões de adolescentes dos anos finais do ensino fundamental. Quase a metade (46%) dos estudantes de 8º e 9º anos não vê a escola como espaço de acolhimento e pertencimento, aponta o relatório. Já, segundo a PeNse, um em cada quatro jovens (26,1%) disse sentir, na maior parte do tempo ou sempre, que ninguém se preocupa com eles.

RESPOSTAS COM AÇÕES EM DIFERENTES FRENTES

Como enfrentar esse cenário? O que podemos fazer? A resposta demanda ações em diferentes frentes. Segundo a superintendente do Itaú Social, na escola, por exemplo, são necessárias estratégias de acolhimento e de pertencimento que estimulem a interação e a qualidade das relações entre os estudantes e entre estudantes, professores e outros profissionais.

Para isso, é preciso tempo – o que boa parte dos professores não têm. Quase 20% dos docentes das redes estaduais de educação trabalham com mais de 400 estudantes durante o ano letivo.

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A média de alunos por professor pode variar entre 11 e 525 estudantes – isso mesmo que você leu: 525 estudantes por professor durante o ano letivo, trabalhando de 20 a até 60 horas semanais, de acordo com relatório recente. Uma rotina que impacta, claro, o emocional dos professores e dos alunos.

Para Patricia Guedes, a ampliação da oferta de educação em tempo integral na rede pública, prevista no novo Plano Nacional de Educação (PNE), junto com a dedicação integral do professor, pode contribuir para reverter esse quadro, assim como a preocupação com a equidade, especialmente a racial e a de gênero, central no novo PNE.

“Vamos criando melhores condições para realmente desenvolver e apoiar as escolas nas estratégias de acolhimento, de pertencimento, de clima escolar”, diz ela. “É importante ter políticas, diretrizes, sim, mas as escolas também precisam de condições para que elas possam fazer com que essas políticas virem uma realidade no cotidiano delas”.

Dentro e fora do Brasil não faltam evidências mostrando que o bem-estar, inclusive físico, e o desenvolvimento cognitivo estão muito conectados. Na escuta sobre as percepções dos adolescentes, eles próprios pediram mais oportunidades de interação e menos aulas expositivas. Também sugeriram mais atividades de arte, cultura e esportes. Um cardápio de atividades que pode – e deve – ser desenvolvido na educação integral. “O currículo precisa trazer essas oportunidades de aprendizado”, afirma a superintendente do Itaú Social.

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Além disso, a parceria entre escola e família tem um lugar central na discussão sobre saúde mental. A especialista defende a importância da aproximação família-escola e de maior apoio para a parentalidade nessa fase dos 13 aos 17 anos, o que significa mais informação sobre essa etapa do desenvolvimento e de como lidar com ela.

Para a superintendente do Itaú Social, saber identificar sinais de que o aluno precisa de encaminhamento para um profissional de saúde mental também é um tipo de letramento, de preparo, necessário para todas as escolas. A instituição disponibiliza, inclusive, um curso gratuito nesse sentido.

Sobrecarregada, a escola não precisa dar conta do problema sozinha. A educação é parte de uma rede maior de proteção integral à criança e ao adolescente, que inclui a assistência social, a saúde, a cultura, o esporte, entre outras.

“Todas essas pastas precisam olhar para esses dados e pensar em como os serviços estão acolhendo esses adolescentes e o que precisa ser revisto. Essa tarefa não pode ficar só com a educação”, diz Patricia Guedes. A especialista defende, inclusive, a definição de protocolos locais de encaminhamento dos adolescentes da educação para a saúde ou para a assistência social, por exemplo.

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Outra contribuição importante para a saúde mental dos adolescentes é a chegada do ECA Digital. Ao impor regras para o uso de telas e plataformas, ele pode estimular a reconexão dos alunos no ambiente escolar, favorecendo a reconstituição de vínculos. Isso também vale para a restrição do uso do celular nas escolas.

Segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), um em cada sete jovens de 10 a 19 anos convive com algum transtorno do gênero no mundo. Dada a urgência e a gravidade da situação no Brasil, esse é um tema que não pode ser ignorado nas próximas eleições.

* Jornalista e diretora da Cross Content Comunicação. Há mais de três décadas escreve sobre temas como educação, direitos da infância e da adolescência, direitos da mulher e terceiro setor. Com mais de uma dezena de prêmios nacionais e internacionais, já publicou diversos livros sobre educação, trabalho infantil, violência contra a mulher e direitos humanos. Siga a colunista no Instagram.

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