Golfe amplia espaço na estratégia de empreendimentos de luxo
De viagens luxuosas de trem na África a resorts exclusivos, descubra como o golfe se tornou um símbolo de status e negócios.
O dia começa na cidade de Pretória, capital administrativa da África do Sul. Pela janela de uma das suítes do trem da Rovos Rail, companhia especializada em viagens ferroviárias de luxo, a paisagem muda lentamente enquanto os passageiros seguem para uma nova rodada de golfe em alguns dos campos mais espetaculares do continente. O roteiro passa pelo Gary Player Country Club e pelo Lost City Golf Course, em Sun City; pelo Champagne Sports Resort, na região de Drakensberg; pelo Durban Country Club, em Durban; e pelo Royal Swazi Golf Club, num vale de Essuatíni (antiga Suazilândia). Também inclui uma parada no Leopard Creek, próximo ao Parque Nacional Kruger, uma das reservas naturais do país que hospedam os big five (os cinco grandes: leão, leopardo, elefante, rinoceronte e búfalo). Antes da partida, os viajantes são recebidos pessoalmente pelo fundador da companhia, o empresário sul-africano Rohan Vos. Durante dez dias, a viagem combina gastronomia, serviço exclusivo e tacadas em alguns dos principais campos do continente, a partir de 80 000 reais por pessoa.
Presente em destinos de luxo ao redor do mundo, o golfe deixou de ser restrito a clubes particulares e passou a integrar projetos imobiliários, hotéis e roteiros turísticos. Sua história remonta à Escócia, onde começou a ser praticado nos campos costeiros conhecidos como links ainda no século XV. A palavra golfe provavelmente deriva do holandês medieval kolf, que significa “taco” ou “bastão”, e depois foi incorporada por outros idiomas. Foi na pequena cidade escocesa de St. Andrews que a modalidade se consolidou como tradição e deu origem às regras que serviram de base para a expansão internacional. Ao longo dos séculos, preservou o contato com a natureza e o tempo de convivência entre os jogadores, características que ajudam a explicar a forte presença no universo corporativo e na hotelaria.
Para o empresário brasileiro de origem chinesa Richard Tsung, proprietário da concessionária T-Line e vice-presidente da Federação Paulista de Golfe, essa relação entre esporte e universo empresarial sempre existiu. Tsung via o avô dar tacadas em Taiwan e trouxe a herança para o seu cotidiano. “Durante o trabalho, você fica falando de golfe. E durante o jogo, fala de negócios”, resume o empresário, que mantém no escritório uma reprodução de um minicampo verdinho, onde pode treinar algumas tacadas durante a semana, com direito a bar e espaço para fumar charuto.
O tempo de convivência, a observação da natureza e a ausência do celular incentivam conexões de forma natural. Uma partida pode durar cerca de seis horas, considerando o aquecimento, as quatro horas de percurso e o encontro posterior no chamado “buraco 19”, expressão usada para definir o momento de convivência no clube, quando os jogadores comentam a rodada, celebram o resultado e fortalecem relações. No São Paulo Golf Club, um dos clubes mais tradicionais do país (existe desde 1903), fazer networking custa caro. Um título da instituição pode valer 800 000 reais numa troca. Além do investimento, a entrada de novos associados está sujeita à aprovação da diretoria, em um modelo que preserva o perfil histórico de clube fechado.
Ainda no Brasil, o Terravista Golf Course, em Trancoso, na Bahia, ajudou a consolidar uma nova visão sobre o golfe: a de que o campo pode ser parte de um estilo de vida. Um dos projetos mais conhecidos do litoral brasileiro, o complexo ganhou impulso com a chegada do empresário austríaco Reinold Geiger, controlador do grupo francês de cosméticos L’Occitane, que passou a investir na região. Mais do que uma estrutura esportiva, o Terravista transformou a modalidade em um vetor de atração imobiliária e turística. Inaugurado em 2004 e desenhado pelo arquiteto americano Dan Blankenship, o percurso acompanha as falésias e o litoral da Costa do Descobrimento, criando uma das paisagens mais impressionantes do mundo. Integrado a um ecossistema que reúne residências de luxo, aeroporto, gastronomia, eventos culturais e teatro, o projeto ampliou sua proposta para além dos dezoito buracos. Para Roger Braun Barends, presidente do complexo Terravista, o diferencial está na criação de uma sensação de pertencimento aliada a um atendimento próximo. “O nosso conceito é o de um country club, como se você estivesse na sua casa, com pessoas que cuidam de você”, afirma Barends, que dá como exemplo a possibilidade de contratação até de uma equipe de cozinheiras baianas para serviço nas residências. Quem não tem uma casa no complexo pode desfrutar da estrutura esportiva pagando diária de até 820 reais, valor que pode ter descontos para moradores locais, parceiros e amigos.
Essa lógica de incorporar o golfe a empreendimentos também faz parte da estratégia da JHSF, o maior conglomerado brasileiro voltado ao mercado de luxo. Atualmente, a companhia reúne seis campos, em operação e em construção, no Brasil e no Uruguai, concebidos por alguns dos nomes mais reconhecidos do mundo. Na Fazenda Boa Vista, em Porto Feliz, no interior de São Paulo, há dois percursos de dezoito buracos, um deles assinado por Arnold Palmer e outro por Randall Thompson. O complexo também abriga o Boa Vista Village, com campo desenvolvido por Rees Jones. Entre os novos projetos estão a Fazenda Santa Helena, com desenho de Jack Nicklaus (leia o quadro sobre o arquiteto e ex-campeão de golfe), e o Boa Vista Estates, assinado por Greg Norman. No Uruguai, o Fasano Las Piedras completa o portfólio com um campo projetado por Arnold Palmer, outro projetista consagrado.
Já o Nekajui, projeto da marca Ritz-Carlton Reserve na Península Papagayo, na Costa Rica, representa uma nova geração de destinos em que o diferencial está no próprio território onde a experiência ocorre. Instalado em uma das regiões de maior biodiversidade da América Central, o complexo combina floresta tropical, oceano e baixa densidade de ocupação, uma característica cada vez mais valorizada por viajantes de patrimônio elevado. O esporte deixa de ser apenas uma atividade de lazer e passa a integrar a proposta do destino, ao lado de atributos como bem-estar, sustentabilidade e boa culinária, com diárias a partir de 10 000 reais.
No sul da Itália, na Sicília, o Verdura Resort representa outra dimensão desse mercado. Criado pelo empresário Rocco Forte, fundador da rede de hotéis de luxo que leva seu nome, o projeto nasceu também de uma relação pessoal com o esporte. Golfista apaixonado desde criança, Forte transformou a modalidade em um dos pilares do resort. Diante do Mediterrâneo, o Verdura reúne dois percursos assinados por Kyle Phillips, gastronomia italiana, bem-estar e hospitalidade. Em 2025, foi inaugurado um novo espaço entre os dois campos, pensado para estimular a convivência e o relacionamento entre hóspedes, dentro de um programa de investimentos que também modernizou a academia e os sistemas de irrigação. No mesmo ano, o local foi eleito o Melhor Hotel de Golfe da Europa pelo programa de premiação anual World Golf Awards, consolidando sua posição entre os principais destinos do segmento. Para o italiano, há lógica entre os dois temas. “Os negócios são parecidos: muitas vezes o progresso leva tempo, e o segredo é manter a determinação e o entusiasmo sem perder a paciência”, diz Forte.
Para Caroline Sagioro, do TTWGroup, empresa especializada em turismo de luxo, esses movimentos refletem uma transformação mais ampla no perfil do consumidor de alto padrão. “O viajante atual busca menos ostentação e mais significado. Ele quer experiências autênticas, acesso a lugares especiais e uma relação mais profunda com o destino.” O golfe se encaixa nessa mudança porque reúne elementos cada vez mais valorizados pelo mercado premium: tempo, relacionamento, natureza, exclusividade e sensação de pertencimento. As opções para fazer os percursos de dezoito buracos e desfrutar de um status que é para poucos vão ficando cada vez mais sofisticadas, seja indo a recantos no Brasil, na Europa e na Costa Rica, seja atravessando a África de trem.
O arquiteto mais influente do golfe
Maior vencedor da história dos quatro principais torneios do golfe mundial, com dezoito títulos, o americano Jack Nicklaus construiu uma segunda carreira como um dos designers de percursos mais reconhecidos nesse meio. Desde a fundação da Nicklaus Design, em 1969, participou do desenvolvimento de mais de 400 projetos em 45 países, com muitos campos integrados a resorts e propriedades imobiliárias de luxo.
Cinco campos que são referências
Publicado em VEJA, julho de 2026, edição VEJA Negócios nº 28






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