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Cannabis & Cia

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A ciência e a legislação que fizeram da planta um ótimo negócio e terapia de bem-estar

Cannabis medicinal cresce mais rápido que antidepressivos

Radiografia do mercado foi um dos temas da abertura do Congresso Brasileiro da Cannabis Medicinal, em São Paulo

Por Valéria França Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 22 Maio 2026, 00h47

Um dos temas da abertura do 5º Congresso Brasileiro da Cannabis Medicinal, realizada nesta quinta-feira, 21, em São Paulo, foi o avanço do mercado no país. O evento, que segue até sábado, reúne especialistas, médicos, pesquisadores e representantes da indústria para discutir os avanços científicos, regulatórios e econômicos ligados ao uso medicinal da cannabis no Brasil. Há uma década, o setor praticamente não existia, mas começava a dar seus primeiros passos, quando a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) autorizou a importação de óleos medicinais à base de CBD (canabidiol, uma das substâncias da planta). À época, eram usados principalmente por crianças com síndromes raras e refratárias a anticonvulsivantes tradicionais. Atualmente, 68% desses medicamentos são vendidos em grandes redes farmacêuticas, segundo dados da Close-Up, empresa global de análise de mercado.

Embora ainda represente uma fatia pequena diante de mercados consolidados, como antidepressivos e anticonvulsivantes, a cannabis medicinal registra crescimento mais acelerado entre terapias usadas em condições que incluem dor crônica, ansiedade, epilepsias e outros transtornos neurológicos ou psiquiátricos. No último ano, foram vendidos R$ 272,6 milhões em medicamentos à base de Cannabis sativa, um crescimento de 14,5%. Em comparação, os medicamentos para dor cresceram 7,7%, apesar do volume maior de vendas, de R$ 698,9 milhões. “Os antidepressivos cresceram 10,8% e os anticonvulsivantes, 7,8%”, disse Filipe Campos, líder de marketing da Close-Up.

Os dados indicam que, embora ainda distante do tamanho dos mercados tradicionais, a cannabis medicinal avança em ritmo superior ao de categorias consolidadas ligadas à saúde mental, neurologia e controle da dor. O mercado de antidepressivos, por exemplo, movimentou R$ 5,9 bilhões no período analisado, enquanto o de anticonvulsivantes alcançou R$ 1,8 bilhão.

Neurocientista de destaque no Brasil, Sidarta Ribeiro, do Instituto do Cérebro da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, costuma afirmar que “a maconha está para a medicina do século XXI, assim como os antibióticos estiveram para o século passado”. Para ele, a planta não atua como um medicamento de alvo único, mas como uma espécie de farmacopéia, com moléculas capazes de interagir com diferentes sistemas do organismo.

O potencial terapêutico associado aos avanços regulatórios abriu novas perspectivas para o setor. Recentemente, mudanças na regulamentação ampliaram o debate sobre o cultivo para fins medicinais no país, tema visto como estratégico para aumentar a competitividade nacional. “Os produtos brasileiros podem ganhar mais competitividade quando comparados aos importados”, afirma Maria Eugênia Riscala, CEO e cofundadora da Kaya Mind, primeira empresa especializada em análise do mercado de cannabis no país.

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Hoje, a importação ainda representa uma porta de entrada relevante para consumidores, sobretudo pela maior variedade de produtos e preços mais baixos. Segundo a Kaya Mind, medicamentos importados podem custar, em média, cerca de 100 reais menos do que os nacionais. A diferença, porém, tende a diminuir apenas com o amadurecimento da cadeia produtiva brasileira.

Isso não depende apenas da regulamentação, mas também de investimentos em pesquisa, incentivos ao setor e da consolidação do cultivo nacional em escala comercial — um cenário que ainda está em construção. O desafio, agora, é fazer com que o ritmo acelerado de crescimento do mercado seja acompanhado pela expansão da pesquisa científica e pela capacidade do país de desenvolver tecnologia própria em um setor que movimenta bilhões globalmente.

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