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Cidade Cidadã

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Os desafios urbanos contemporâneos, e seus impactos para a população, na análise do Centro de Estudos das Cidades — Laboratório Arq.Futuro do Insper

As empresas e o legado urbano ao redor

Grandes empreendimentos podem estimular centralidades econômicas, alterar padrões de deslocamento e redefinir dinâmicas imobiliárias

Por Gabriela Vasconcelos* 10 abr 2026, 12h44

Toda empresa deixa marcas no território onde se instala. Algumas são visíveis: prédios, fábricas, galpões logísticos, shoppings. Outras são mais profundas e duradouras como as mudanças no preço da terra, novos fluxos de mobilidade, transformação do comércio local, pressão sobre serviços públicos, alteração da paisagem urbana. Ainda assim, no Brasil, raramente o setor privado se enxerga como agente ativo na construção da cidade. Não se está falando ainda se as marcas são boas ou ruins; o fato é que elas não passam pelos KPI’s ( (Key Performance Indicators) da alta gestão.

A lógica dominante continua estreita. A empresa escolhe um local estratégico, constrói sua infraestrutura, gera empregos e arrecadação e considera que cumpriu seu papel. O sucesso é medido pelo retorno financeiro e pela expansão do negócio. O território ao redor torna-se quase um detalhe — quando, na verdade, é parte central do impacto produzido. Mais do que um negócio, a empresa passa a ser vetor de transformação na região. Ao assumir essa corresponsabilidade pela dinâmica ao redor ela descobre que o sentido de ‘’legado’’ vai muito além do discurso.

Não é difícil compreender o porquê. Cidades não são apenas cenários onde empresas operam. Elas são sistemas complexos que influenciam diretamente produtividade, inovação, qualidade de vida e competitividade econômica. Ignorar essa dimensão urbana é uma visão de curto prazo. Empresas participam, conscientemente ou não, do desenho urbano. Um grande empreendimento pode estimular centralidades econômicas, alterar padrões de deslocamento, redefinir dinâmicas imobiliárias e influenciar profundamente a maneira como as pessoas vivem, trabalham e circulam pela cidade. Quando esse processo ocorre sem reflexão, os efeitos costumam aparecer em forma de congestionamentos, expansão urbana desordenada, desigualdades socioespaciais ou sobrecarga da infraestrutura pública.

Essa interferência pode ser usado de modo estratégico. Empresas que incorporam a cidade como parte de sua agenda de investimento começam a pensar seus projetos para além dos limites do terreno que ocupam. Contribuem para qualificar o espaço público no entorno de seus empreendimentos, ampliam áreas verdes, apoiam soluções de mobilidade ativa, ajudam a estruturar transporte coletivo, integram seus projetos ao tecido urbano existente e estimulam usos mistos que mantêm bairros vivos e seguros.

Há um impacto menos óbvio que precisa ser escancarado: o papel social da empresa no território. Isso vai desde o apoio ao comércio local e à capacitação profissional nos bairros próximos até o incentivo à inovação em parceria com centros de ensino da região. Quando a empresa ajuda a qualificar os equipamentos urbanos, ela não está apenas cumprindo uma meta, mas  transformando a realidade de moradores e trabalhadores de modo prático. Em muitas cidades mundo afora esse tipo de abordagem já deixou de ser apenas responsabilidade social corporativa. Tornou-se estratégia de posicionamento.

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Quando uma empresa ajuda a construir uma cidade melhor, passa a falar a mesma língua dos talentos de hoje, que valorizam o entorno tanto quanto a carreira. A reputação institucional cresce diante de investidores atentos ao impacto social. Entretanto o ganho vai além: ao estruturar o território, a empresa reduz seus próprios riscos operacionais e constrói uma legitimidade sólida com o público, algo indispensável em tempos de vigilância social constante. Em outras palavras: deixar legado urbano também gera vantagem competitiva.

O Brasil ainda discute pouco essa dimensão do papel do setor privado. Ele investe bilhões em infraestrutura produtiva, todavia raramente enxerga o território como parte do ativo estratégico do negócio. O resultado são projetos eficientes do ponto de vista corporativo, contudo frequentemente desconectados da cidade real.
Talvez seja hora de atualizar a métrica. Não se concentrar somente no faturamento ou na expansão, mas também na cidade que a empresa ajuda a construir enquanto opera e cresce.

*Gabriela Vasconcelos é economista, urbanista social, coordenadora de Projetos do Centro de Estudos das Cidades – Laboratório Arq.Futuro do Insper e mestranda em Saúde Pública na FSP-USP

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