O desafio de descarbonizar e melhorar o transporte público
É fundamental atrair usuários para o transporte coletivo com qualidade, conforto e eficiência
A poluição oriunda do setor de transportes representa um dos principais fatores de degradação da saúde pública e da qualidade de vida nas metrópoles. Somada a isso, a recorrência de eventos climáticos extremos, como enchentes devastadoras, deslizamentos e ondas de calor intenso sinaliza de forma inequívoca a necessidade de mudanças estruturais no planejamento urbano. O fortalecimento de sistemas estruturais como trens, metrôs, Veículos Leves sobre Trilhos (VLTs) e redes de ônibus constitui a maneira de tornar mais eficiente a circulação urbana: otimizam o uso do espaço viário, reduzem a emissão de poluentes e democratizam o deslocamento de diferentes perfis socioeconômicos em todo o território.
A disparidade na ocupação do espaço público fica evidente ao analisar o caso da capital paulista: a rede de ônibus de São Paulo utiliza cerca de 4.600 km de vias para transportar 7 milhões de passageiros diariamente. Em contrapartida, os veículos individuais transportam cerca de 5 milhões de pessoas por dia, mas demandam uma extensão de 20.000 km de vias.
Sob a ótica ambiental, o contraste é ainda mais alarmante. Os automóveis particulares emitem 63 vezes mais gases de efeito estufa (GEE) por passageiro-quilômetro do que o metrô, e quase 8 vezes mais do que os ônibus convencionais. Diante desses dados, descarbonizar o transporte público coletivo emerge como a principal estratégia de adaptação climática nas cidades, desde que integrada à modernização dos sistemas e a investimentos que estimulem a migração modal.
A eletrificação das frotas de ônibus desponta como uma das rotas tecnológicas mais viáveis e com impacto direto na redução imediata de GEE. Contudo, o cenário futuro aponta para novas tecnologias adequadas aos diferentes contextos das cidades brasileiras, impulsionadas por pesquisas nacionais e consolidadas por experiências internacionais.
Os ônibus elétricos a bateria já demonstram maturidade e viabilidade operacional em diversas metrópoles globais e começam a expandir sua presença no país. A adoção dessa matriz mitiga a emissão de poluentes locais, reduz a poluição sonora e eleva o padrão de conforto dos usuários.
Naturalmente, a transição para essa nova matriz energética impõe desafios complexos aos municípios, exigindo a readequação da infraestrutura de recarga e o treinamento especializado das equipes operacionais. Por outro lado, o panorama internacional revela cobenefícios substanciais: a operação desses veículos oferece maior segurança e ergonomia para os condutores, além de se desenhar como uma excelente oportunidade para ampliar a representatividade e a inclusão de mulheres no setor operacional.
A troca da matriz energética dos ônibus deve vir acompanhada da priorização ao transporte público no espaço das vias e da melhoria da qualidade do serviço. É fundamental atrair usuários para o transporte coletivo: de nada adianta substituir ônibus vazios a diesel por ônibus vazios elétricos.
A descarbonização do ecossistema de transportes exige visão estratégica, planejamento integrado e um sólido compromisso político de longo prazo. Para viabilizar essa transição é fundamental ampliar investimentos no setor, desenvolver mecanismos inovadores de financiamento climático e subsídios para frotas limpas, estabelecer metas progressivas e mandatórias para redução de poluentes para gestões municipais e priorizar a qualidade do transporte público.
A agenda energética, mais do que uma agenda ambiental, é uma política de competitividade econômica, inclusão social, saúde pública e garantia de qualidade de vida para as futuras gerações de cidadãos brasileiros.
* Sergio Avelleda e Suzana Nogueira: coordenam o Núcleo de Mobilidade Urbana do Insper Cidades, do qual faz parte o Observatório Nacional de Mobilidade Sustentável.







