O prejuízo da promoção da mobilidade sem a convivência
O poder do design urbano em criar conexões ou isolar as pessoas na multidão
Há quase dois séculos, o poeta, ensaísta e crítico de arte francês Charles Baudelaire (1821-1867) descreveu, no poema A uma passante, uma cena urbana que continua surpreendentemente atual: duas pessoas se cruzam na multidão, trocam um breve olhar e desaparecem sem que se falem. Nascido em meio ao turbilhão das reformas que redesenharam Paris no século XIX — conduzidas por Georges-Eugène Haussmann, o Barão Haussmann (1809–1891) —, a efemeridade daquele encontro imaginário atravessou a cidade moderna e se aprofundou na metrópole contemporânea.
Nela, em diferentes países — e o Brasil não é exceção —, para além do ritmo frenético e da multiplicidade de estímulos, o que se vê é uma desconcertante desigualdade e um planejamento que até facilita a circulação, mas não o contato real entre seus habitantes. Não fosse por outro motivo, esse seria um enorme contrassenso: a essência da cidade é propiciar o encontro, a convivência entre pessoas — entre cidadãos.
Nunca estivemos tão conectados por meio de redes digitais e, paradoxalmente, tão distantes no espaço físico. A sensação de atravessar a cidade sem, de fato, habitá-la tornou-se uma das marcas da experiência urbana contemporânea.
Foi observando a urbe moderna que o filósofo e crítico alemão Walter Benjamin (1892-1940) recuperou, da obra de Baudelaire, a figura do flâneur (aquele que percorre a cidade sem destino rígido). Seu compatriota Georg Simmel (1858-1918), sociólogo e filósofo, seguindo por outro caminho, identificou o blasé (o indiferente) pela necessidade de adaptação ao excesso de estimulações da vida metropolitana. Mais do que personagens históricos, ambos representam formas distintas de experimentar a cidade.
Talvez seja aí que o debate urbano contemporâneo avance um pouco. Durante décadas, o planejamento das cidades foi chamado a responder a desafios urgentes de crescimento, infraestrutura, mobilidade e acesso a serviços. Essa agenda permanece indispensável, é claro. No entanto, ao organizar deslocamentos também organizamos possibilidades de permanência; ao desenhar fluxos, desenhamos oportunidades de encontro; ao distribuir espaços públicos, distribuímos condições para diferentes modos de vida em comum.
Se determinadas maneiras de viver a cidade são respostas ao ambiente construído, então o ambiente importa muito mais do que costumamos admitir. Essa mudança de perspectiva desloca a própria questão que envolve o planejamento urbano. Em vez de discutir apenas como tornar as cidades mais eficientes, é necessário perguntar que experiências elas podem proporcionar com maior probabilidade.
Uma avenida marcada por longos muros cegos, poucas fachadas ativas e nenhum convite à permanência tende a reduzir os encontros fortuitos. Já uma rua onde calçadas confortáveis, árvores, comércio e espaços públicos se sucedem amplia as oportunidades de observação, convivência e descoberta. O desenho urbano não determina comportamentos, porém torna algumas formas de experimentar a cidade mais prováveis do que outros.
Assim, o planejamento urbano predominante nos dias de hoje não produz flâneurs nem blasés. Produz condições para que determinados modos de relação com a cidade se tornem mais prováveis do que outros. Essa afirmação não significa que o espaço determine quem somos. Pessoas continuam atribuindo novos significados aos lugares e reinventando seus usos. Contudo, é preciso reconhecer que, influenciadas pelo desenho urbanístico, nossas escolhas espaciais acabam não sendo nunca neutras: elas ampliam ou restringem as possibilidades de encontro, de reconhecimento e de permanência. E sem permitir encontros, reconhecimento, permanência — vale dizer, interação e pertencimento — as cidades deixam de ser “a melhor invenção da humanidade”, conforme as definiu o economista americano Edward Glaeser.
* Rebecca Dantas, arquiteta e urbanista, é coordenadora-adjunta do Núcleo de Habitação, Real Estate e Regulação do Centro de Estudos das Cidades – Laboratório Arq.Futuro do Insper






![[RELAMPAGO] PAYWALL (728 x 90 px) Banner laranja com texto OFERTA RELÂMPAGO em amarelo e branco, ao lado de Você pediu, a gente ouviu! em branco. À direita, capas de revistas e um celular com tela ligada, e um ícone de árvore à esquerda.](https://beta-develop.veja.abril.com.br/wp-content/uploads/2026/07/RELAMPAGO-PAYWALL-728-x-90-px.gif?fit=728%2C90&quality=70&strip=info)
![[RELAMPAGO] PAYWALL - 328x79 Banner laranja com texto OFERTA RELÂMPAGO em amarelo neon, acompanhado de um raio. Abaixo, Você pediu, a gente ouviu!. À direita, capas de revistas: SUPER com um copo de milk-shake, VEJA com paisagem e MUNDO ESTRANHO com carros. Um ícone de árvore estilizada no canto superior direito](https://beta-develop.veja.abril.com.br/wp-content/uploads/2026/07/RELAMPAGO-PAYWALL-328x79-1.gif?fit=328%2C79&quality=70&strip=info)