O que as autópsias ensinam sobre os centros urbanos
A análise das causas das mortes podem ajudar a antever epidemias e apontar pontos críticos da cidade que agravam a violência
A palavra autópsia costuma despertar desconforto. Ela remete ao fim da vida, ao sofrimento das famílias e ao passado da medicina. Mas talvez seja hora de mudar essa percepção. Em um mundo marcado por pandemias, doenças crônicas e violência urbana, a autópsia ressurge como uma das mais poderosas ferramentas de vigilância em saúde e de planejamento das cidades.
São Paulo abriga provavelmente o maior serviço de autópsias médicas por causas naturais do planeta. Trata-se de um patrimônio científico pouco conhecido, porém de enorme valor para compreender não apenas por que uma pessoa morreu como também de que maneira vivem — e adoecem — milhões de habitantes.
Quando um novo agente infeccioso emerge, a autópsia é insubstituível. Somente ela permite acompanhar a distribuição do microrganismo pelos diferentes órgãos, identificar seus mecanismos de lesão e compreender a resposta do organismo. Foi assim na influenza, na febre amarela e, mais recentemente, na covid-19. Em uma época em que o desmatamento, as mudanças climáticas e a intensa mobilidade global favorecem o surgimento de novos patógenos, as autópsias passam a integrar a vigilância de doenças de alto impacto, produzindo conhecimento essencial para orientar diagnósticos, tratamentos e estratégias de controle.
Seu papel, entretanto, vai muito além das epidemias. Ao serem associadas ao território onde as pessoas viveram, as autópsias tornam-se um retrato da qualidade do cuidado oferecido pela cidade. A distribuição espacial de cânceres não diagnosticados em vida, a frequência de escaras de pressão — um indicador da assistência a pacientes cronicamente acamados — e a gravidade das lesões provocadas pelo diabetes revelam diferenças marcantes entre bairros. É possível construir uma verdadeira cartografia da vulnerabilidade urbana, identificando onde o sistema de saúde funciona adequadamente e onde falha em prevenir, diagnosticar ou tratar doenças.
As mortes violentas oferecem outra oportunidade de aprendizado. Tradicionalmente, examina-se apenas o corpo da vítima. Contudo, em muitos casos, também deveríamos examinar o lugar onde ela morreu. Um atropelamento fatal, por exemplo, pode revelar tanto sobre a anatomia humana como a anatomia da cidade. Iluminação deficiente, calçadas precárias, travessias inseguras, sinalização inadequada e desenho viário hostil podem ser determinantes do desfecho. Surge daí um novo conceito: o urbanismo forense. Não basta realizar a autópsia do corpo; é preciso realizar, também, a autópsia do espaço urbano. Cada morte passa, assim, a contar duas histórias: a do organismo e a da cidade.
As autópsias também mudaram. Métodos minimamente invasivos, guiados por ultrassonografia, tomografia e ressonância magnética permitem obter amostras para estudos histológicos e moleculares preservando quase toda a integridade do corpo. Essa inovação reduz barreiras culturais e religiosas e amplia a aceitação do procedimento.
Costuma-se dizer que uma sociedade é julgada pelo modo como trata seus vivos. Talvez devêssemos acrescentar outra medida: a forma como aprende com seus mortos. Cada autópsia representa uma oportunidade de antecipar epidemias, aperfeiçoar o cuidado das doenças crônicas, redesenhar espaços urbanos e salvar vidas. O verdadeiro legado dos mortos não é explicar a morte e sim tornar melhor a vida dos que permanecem. Em outras palavras, os mortos continuam ensinando. Cabe aos vivos decidir se desejam escutá-los.
* Paulo Saldiva é coordenador da Iniciativa Saúde Urbana do Centro de Estudos das Cidades – Laboratório Arq.Futuro do Insper, além de médico formado pela USP e professor titular do Departamento de Patologia da instituição desde 1996.







