Receba 4 Revistas em casa por 32,90/mês
Imagem Blog

Cidade Cidadã

Materia seguir SEGUIR Seguindo Materia SEGUINDO
Os desafios urbanos contemporâneos, e seus impactos para a população, na análise do Centro de Estudos das Cidades — Laboratório Arq.Futuro do Insper

Por que a transformação do espaço público sempre gera resistências?

São muitos os preconceitos diante da mudança das áreas de convívio, mesmo que seja em nome da sustentabilidade mais democrática da cidade

Por Luciane Virgilio* 15 Maio 2026, 11h57 | Atualizado em 15 Maio 2026, 11h58

Propostas de transformação urbana raramente nascem consensuais. Ao contrário: quase sempre despertam resistência, contestação e desconfiança. Entendo haver algo de estrutural nisso. O ser humano, em geral, reage mal a tudo que altera a sua rotina, o seu entorno imediato ou a percepção de estabilidade no dia a dia. Esse comportamento não é novo. Nos anos 1950, a demolição do bairro San Juan Hill, em Nova York, para a construção do Lincoln Center, provocou forte reação pública. O episódio se tornou um marco das tensões entre visões desenvolvimentistas e preservacionistas um embate que, décadas depois, segue atual.

O Brasil oferece um exemplo quase didático desse fenômeno. Uma área localizada na zona sul carioca, denominada de Jardim de Alah, degradada por décadas, marcada pela ausência do poder público, passou a ser alvo em 2023 de uma proposta de requalificação por meio de parceria público-privada. O projeto previa contrapartidas expressivas: investimentos sociais voltados à população mais vulnerável do entorno, além de ganhos ambientais relevantes. Ainda assim, e apesar do cumprimento rigoroso de todos os ritos legais, a iniciativa enfrentou forte resistência.

O episódio expõe uma tensão recorrente no debate urbano: mesmo quando há aderência normativa, benefícios coletivos evidentes e participação institucional consolidada, a desconfiança em relação à transformação persiste. Reconhecer as razões que levaram a sociedade a desacreditar o poder público é essencial. Há um histórico consistente de promessas não cumpridas, mudanças de direção e baixa previsibilidade regulatória. Ainda assim, é preciso lembrar que o próprio Estatuto da Cidade (2001) incorporou, em sua lógica, a necessidade de adaptação contínua. Ao estabelecer a revisão obrigatória dos planos diretores a cada dez anos, a lei parte do princípio de que usos, dinâmicas econômicas e comportamentos sociais se modificam ao longo do tempo. A cidade é um organismo vivo e precisa de instrumentos capazes de acompanhar essas mudanças.

Nas propostas de transformação urbana, a realização de audiências públicas com participação da sociedade é exigida. E é justamente nesses espaços que, muitas vezes, o debate perde qualidade. O que se observa, com frequência, é a predominância de pleitos individuais ou de grupos específicos, muitas vezes desconectados de uma visão mais ampla de cidade. São demandas legítimas, mas que nem sempre dialogam com o interesse coletivo ou que ignoram tendências urbanas que devem moldar o desenvolvimento das cidades no futuro próximo.

Perde-se densidade no debate. Falta um mergulho mais profundo nos conceitos que estruturam o planejamento urbano e nos compromissos de longo prazo que essas decisões exigem.Mesmo diante de um cenário de desconfiança, alguns exemplos mostram que a resistência nem sempre está certa. O fechamento, aos domingos, da Avenida Paulista, em São Paulo, e a demolição do Elevado da Perimetral, no Rio de Janeiro, ilustram como medidas inicialmente criticadas podem se consolidar como avanços urbanos.

Continua após a publicidade

Cidades como Nova York e Paris também vêm adotando medidas impopulares que as tornaram mais humanas, caminháveis e seguras. Na megalópole norte-americana o programa “Open Streets” surgiu em 2020 como um piloto, fechando ruas para carros e abrindo espaço para pedestres; pouco depois se tornou política permanente. Na capital francesa, no mesmo período, o Rues aux écoles adotou lógica semelhante ao restringir veículos no entorno de escolas para priorizar pedestres e crianças. Ambos ilustram como intervenções experimentais podem ganhar escala, sem eliminar o conflito urbano.

É necessário reconhecer que viver em cidades mais sustentáveis e menos desiguais exige escolhas concretas e nem sempre resultantes de unanimidade. A redução da dependência do automóvel, o fortalecimento do transporte público, o incentivo ao uso misto do solo, o adensamento em áreas bem servidas de infraestrutura e a reocupação de regiões centrais são algumas delas.

*Luciane Virgilio, docente-líder do curso de educação executiva Planejamento Urbano e Regulações das Cidades, do Laboratório Arq.Futuro do Insper, é arquiteta e urbanista, mestre em Engenharia Urbana pela Poli-USP

Publicidade

Matéria exclusiva para assinantes. Faça seu login

Este usuário não possui direito de acesso neste conteúdo. Para mudar de conta, faça seu login

Domine o fato. Confie na fonte.

15 marcas que você confia. Uma assinatura que vale por todas.

OFERTA RELÂMPAGO

Digital Completo

A notícia em tempo real na palma da sua mão!
Chega de esperar! Informação quente, direto da fonte, onde você estiver.
De: R$ 16,90/mês Apenas R$ 1,99/mês
ECONOMIZE ATÉ 29% OFF

Revista em Casa + Digital Completo

Receba 4 revistas de Veja no mês, além de todos os benefícios do plano Digital Completo (cada revista sai por menos de R$ 10,00)
De: R$ 55,90/mês
A partir de R$ 39,99/mês

*Acesso ilimitado ao site e edições digitais de todos os títulos Abril, ao acervo completo de Veja e Quatro Rodas e todas as edições dos últimos 7 anos de Claudia, Superinteressante, VC S/A, Você RH e Veja Saúde, incluindo edições especiais e históricas no app.
*Pagamento único anual de R$23,88, equivalente a R$1,99/mês. Após esse período a renovação será de 118,80/ano (proporcional a R$ 9,90/mês).