Promover espaços públicos mais humanos é estratégia de saúde
Vida urbana moderna impõe barreiras ao convívio e destaca a urgência de repensar o papel das áreas verdes
Houve um momento em que as cidades deixaram de ser lugares de encontro para se tornarem territórios de travessia. Talvez isso tenha acontecido quando o tempo passou a ser medido em minutos de deslocamento. Ou quando o medo se insinuou nas esquinas. Ou, ainda, quando as distâncias passaram a exigir veículos, pressa e silêncio. Mas as cidades nasceram de outra maneira. Eram uma promessa de proximidade. Não apenas física, mas humana: o outro como presença constante, inesperada, às vezes incômoda, porém sempre reveladora. Foi nesse convívio que floresceram ideias, afetos, conflitos e formas de vida. Com a crescente urbanização, nasceu um fato paradoxal na experiência urbana: vivemos cercados por multidões e, ainda assim, cada vez mais sós.
Esse fenômeno não se distribui de maneira homogênea. Ele encontra terreno fértil sobretudo entre os idosos, aqueles que, tendo atravessado décadas de transformações, veem-se, muitas vezes, deslocados na cidade onde vivem ou ajudaram a construir. Em São Paulo, não é raro encontrar apartamentos silenciosos com apenas um morador. A cidade, que um dia ofereceu oportunidades e encontros, passou a impor barreiras: calçadas irregulares, ônibus difíceis, travessias perigosas, o receio constante da violência. Esse é um cenário que favorece o surgimento de algo que se assemelha a uma retração progressiva. As pessoas saem menos e os encontros ficam menos frequentes – vive-se menos fora de casa. E, pouco a pouco, a cidade se afasta — mesmo estando ali, à janela.
Em certos pontos da cidade, no entanto, algo resiste. Nos parques e praças, grupos de idosos caminham em ritmo constante. Alguns conversam, outros apenas compartilham o silêncio — o que, ali, já não é solidão. Em bairros periféricos, iniciativas como hortas comunitárias transformam terrenos abandonados em espaços de convivência. Em praças requalificadas, bancos voltam a ser ocupados. Esses espaços têm algo em comum: são atravessados pelo verde. Ao longo das últimas décadas, acumulou-se um corpo consistente de evidências mostrando que a presença de áreas verdes nas cidades está associada a melhores indicadores de saúde, especialmente entre os mais velhos. Estudos recentes indicam que viver próximo a parques e praças favorece a prática de atividade física, melhora a qualidade do sono, reduz sintomas de ansiedade e depressão e pode até retardar o declínio cognitivo.
Uma praça arborizada convida à permanência. Um banco à sombra permite a pausa. Um caminho agradável estimula a caminhada. E, nesses gestos simples, algo essencial acontece: as pessoas voltam a se ver. No Brasil, essa relação começa a ser melhor compreendida. Pesquisas realizadas na capital paulista mostram que bairros com maior cobertura vegetal tendem a apresentar níveis mais elevados de atividade física e melhor percepção de bem-estar. Em contrapartida, áreas marcadas pela carência de espaços públicos e vegetação exibem maior isolamento social e piores indicadores de saúde.
Talvez por tudo isso tantos brasileiros, ao se aproximarem da velhice — quando as condições econômicas permitem —, busquem refúgio em cidades menores, no litoral ou no interior. Essa solução, todavia, embora compreensível, é seletiva. A maioria permanece. É para essa maioria que a questão urbana se torna mais urgente. Em um país que envelhece rapidamente, repensar as cidades não é mera escolha estética: é uma necessidade sanitária.
Criar e manter parques, praças e espaços verdes acessíveis, seguros e bem distribuídos pode ser uma das estratégias mais eficazes — e, paradoxalmente, mais simples — de promoção da saúde. Não apenas por estimular o movimento como também porque recompõe aquilo que sustenta a vida em comum: os vínculos. Durante muito tempo, tratamos o verde como ornamento. Está na hora de mudar essa postura.
Talvez o verde não seja o complemento da cidade, mas sua condição. No fim, a pergunta que se impõe é quase antiga, apesar de tudo: que tipo de vida urbana desejamos preservar?
* Paulo Saldiva é coordenador da Iniciativa Saúde Urbana do Centro de Estudos das Cidades – Laboratório Arq.Futuro do Insper, além de médico formado pela USP e professor titular do Departamento de Patologia da instituição desde 1996.





