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Coluna da Lucilia

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Além das letras miúdas

Quando rótulos limitam o senso crítico

Por Lucilia Diniz Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 17 abr 2026, 06h00 | Atualizado em 17 abr 2026, 09h58
  • A novidade, confesso, me chamou a atenção: água com proteína. Imagine poder, em poucos goles, não só se hidratar mas melhorar a performance e a recuperação muscular. Olhando as informações nutricionais, me pus a questionar — não o produto em si (ou não só), mas os rótulos.

    Apelos coloridos nos bombardeiam: “proteico”, “natural”, “integral”, “orgânico”. Na prateleira, os produtos parecem responder a nossa preocupação com autocuidado, saúde e bem-estar, eliminando a necessidade de pesquisar e investigar. É aí que mora o perigo.

    Mais do que descrever o mundo, os rótulos o simplificam. E, assim, sempre deixam algo de fora. Quando seus dizeres substituem nosso senso crítico, podem levar a distorções.

    Um olhar mais atento sobre a tal água revela o que o destaque não mostra. A quantidade do ingrediente da vez é verdadeira, mas vem na forma de colágeno, proteína bem diferente daquela presente nos ovos, na carne, no leite ou mesmo em fontes vegetais.

    Essa dinâmica não é nova. Mesmo no início da popularização dos produtos diet e light, eu sempre soube que substituir um ingrediente calórico da receita não a melhorava automaticamente em termos nutricionais. Por exemplo, ao tirar o açúcar, muitas vezes se compensava o sabor e a textura aumentando a gordura. No caso dos light, reduzir 25% das calorias de algo ruim na essência pouco alterava sua qualidade.

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    “Entre o que está escrito e o que de fato existe, há sempre uma zona de transição”

    Anos atrás, encontrei em um supermercado nos Estados Unidos uma pizza de pepperoni vendida como “orgânica”. Nas letras miúdas, a explicação: apenas o tomate do molho tinha essa procedência. Em outra ocasião, observei pães anunciados como integrais, mas cuja aparência escura era mais um artifício visual do que indicativo de fibras em boa quantidade. Para mim, um pão só faz jus a esse nome se contém ao menos 4 gramas de fibras por porção de 50 gramas.

    As etiquetas estão ali para cumprir um papel: comunicar rapidamente uma ideia de benefício. Não digo que sejam feitas para enganar, mas para ressaltar atrativos. As informações completas estão disponíveis, mas só para quem se dispuser a ver.

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    As histórias que os rótulos contam respondem ao desejo legítimo de orientar nossas escolhas em um mundo saturado de opções. No entanto, precisamos nos lembrar de que a superfície brilhante e as palavras nela inscritas não equivalem à coisa em si, em todo seu conteúdo.

    A reflexão não vale apenas para os alimentos. Aliás, ela vai muito além das embalagens. Em meio aos excessos — de informação, de compromissos, de demandas —, classificamos pessoas, situações e ideias. Vamos filtrando o mundo com o auxílio de etiquetas imaginárias, tentando tornar mais controlável o que é complexo.

    A realidade é bem mais difícil de domar. Lembro-me de quando, em uma visita à Califórnia, reparei numa simples cerca dividindo uma plantação orgânica de sua vizinha, convencional. Como se fosse possível fazer o vento respeitar os limites e não soprar os químicos de uma para a outra, eliminando a distinção.

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    Entre o que está escrito e o que de fato existe, há sempre uma zona de transição. O mundo concreto não se deixa catalogar com tanta nitidez. É preciso saber ler as mensagens mais escondidas, reais e figuradas, para que nossas escolhas sejam mais sensatas.

    Publicado em VEJA de 17 de abril de 2026, edição nº 2991

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