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Coluna da Lucilia

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Entendendo a natureza

A crença cega no que é natural

Por Lucilia Diniz Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 7 mar 2025, 06h00 | Atualizado em 7 mar 2025, 16h13
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Olhe ao redor. Quantas coisas ao alcance da sua vista são 100% naturais? Mesmo sem saber o cenário exato de onde cada um me lê, acho bem provável que quase tudo à sua volta tenha algum traço da mão do homem. Para sobreviver, o homem precisou entender a natureza — e se entender com ela.

Vivemos uma aparente contradição. Apreciamos a tecnologia e dependemos de seus avanços. Ao mesmo tempo — e talvez por isso mesmo —, poucos resistem ao apelo de que “natural” seja bom, enquanto o produzido pelo homem é visto como perigoso. Mas será que existe mesmo um contraste entre o que é supostamente primitivo e puro e o que é elaborado e sintético?

Hoje parece inquietante que tenhamos carne cultivada em laboratório, frangos e bovinos geneticamente modificados, milho híbrido para resistir a pragas e outras intervenções feitas para aumentar a produtividade e satisfazer as demandas de um mundo em constante crescimento. Mas vale lembrar que essas inovações não brotaram do nada. Elas são decorrentes da evolução de nossa relação com a natureza.

Há milênios agimos sobre os produtos de origem natural. Antes de todas essas novidades, domesticamos vegetais com cruzamentos e enxertos sucessivos, para melhorar seu sabor e sua resistência: a abobrinha, o tomate e diversas outras plantas em seu estado selvagem eram bem diferentes.

A ciência, aliás, não só modifica a natureza, mas se vale dela. Vêm do mundo natural muitos ativos que utilizamos em medicamentos comerciais. O Ozempic, por exemplo, foi desenvolvido a partir do estudo do veneno do lagarto chamado monstro-de-gila. Os cientistas descobriram nele um hormônio capaz de tornar a digestão mais lenta, permitindo ao réptil ficar longos períodos sem comer.

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“Será que existe mesmo um contraste entre o que é primitivo e puro e o que é elaborado e sintético?”

Por outro lado, fontes bem menos exóticas podem fornecer substâncias potencialmente letais, a depender da dose. É o caso do cianeto, presente em sementes de algumas frutas. É claro que ninguém vai se intoxicar por mordiscar o caroço de um pêssego. Mas menciono esse fato como um lembrete de que nem tudo o que é natural é intrinsecamente bom.

Essa crença é muito arraigada e, com base nela, muitos defendem uma volta a práticas ancestrais de saúde e bem-estar. Embora várias delas de fato reflitam sabedorias valiosas, nem sempre “antigo” equivale a “melhor”. Vale lembrar que surgiram em contextos de vida e medicina muito precários, nos quais a explicação do mundo passava em grande medida pelo sobrenatural. É quase impensável (embora aconteça) defender hábitos vindos de tempos nos quais a expectativa de vida não se aproximava nem remotamente da nossa.

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Muitos querem acreditar numa natureza intocada que nos dá tudo quanto precisamos. Quando lemos em um rótulo termos como “livre de química”, pensamos estar seguros e conectados outra vez a esse suposto estado essencial. Mas, pondo os fatos em perspectiva, fica bastante claro que os benefícios para a saúde não estão esperando para ser colhidos na floresta ou no pomar.

Talvez a ideia de uma natureza sempre boa venha do fato de ela não agir com segundas intenções — ela simplesmente é. Comparada às maquinações humanas, parece inocente. Esse é um falso contraste. Entendê-la, estudá-la, modificá-la e respeitá-la equivale a evolução. A natureza também se adapta e se defende, inclusive de nós.

Publicado em VEJA de 7 de março de 2025, edição nº 2934

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