Às vésperas do início da Copa do Mundo, por acaso cruzei com uma palavra japonesa muito popular, que me pareceu perfeita para este momento, em que a seleção brasileira volta a se reunir em torno da bola, como se dela dependesse uma porção da nossa alegria coletiva. A palavra é ganbatte e significa algo como “dê o seu melhor”.
Gosto muito de futebol, aprecio uma boa partida; ver Messi dar show na última Copa foi uma experiência incrível que pretendo reviver em algum jogo, e quem sabe assistir à final deste ano com o Brasil na disputa. As emoções do espectador não são as únicas em campo. Mais fortes ainda devem ser as que tomam conta dos jogadores, carregando nas costas a responsabilidade de defender as cores da nossa bandeira.
Na terra dos samurais azuis, como são conhecidos os integrantes do time nipônico, quando se quer incentivar alguém diante de um desafio, não se fala “boa sorte”, como se faz aqui. Para os japoneses, a sorte não tem o sentido que carrega para nós, povos latinos. O que interessa é o esforço individual. É o empenho de cada um em cumprir seu papel que faz um grupo forte.
O verbo original, ganbaru ou gambaru (a escolha por “n” ou “m” é variável, pois, na verdade, estamos trazendo os ideogramas para nosso alfabeto), é formado por três caracteres. Os dois primeiros significam “teimoso, obstinado” e “expandir, tensionar”. O terceiro é o que designa a forma infinitiva dos verbos (para nós, a terminação em “r”). Ou seja, a ideia é levar a obstinação ao máximo: perseverar.
É um espírito, portanto, que vale para equipes de futebol, ou de qualquer outro esporte, mas também anima qualquer grupo em que se trabalhe por um objetivo comum e, por extensão, para a sociedade toda. É comum, nos lares japoneses, dizer “ganbatte” ao se despedir da família pela manhã, antes de sair para os afazeres. Mais do que o desejo de um bom dia, é um estímulo para a pessoa dar tudo de si.
“A exclamação não representa apenas votos de vitória, mas sim de que a pessoa ou o grupo não desista”
Não é segredo para ninguém o espírito de união e ordem que marca a Terra do Sol Nascente. Volta e meia nos espantamos com a visão de estádios completamente limpos, pois cada um leva o seu próprio lixo ao deixar a arquibancada, assim como os estudantes arrumam as salas da escola ao fim de um dia de aula. Essa ideia de que o indivíduo age pelo todo é muito notável em diversos aspectos da cultura japonesa.
No caso do ganbatte, existe um traço a mais que chama atenção. Na exclamação, não estamos necessariamente fazendo votos de vitória, mas, sim, que a pessoa ou o grupo não desista. Persistir é mais importante do que vencer e, eventualmente, pode levar ao resultado sonhado. A meta é fazer o melhor diante das circunstâncias. Esse modo de pensar encoraja uma atitude positiva e a busca por uma resposta engenhosa na crise.
Assim, se agirmos de acordo com esse conceito, não vamos colocar nossas esperanças em um só indivíduo. Não dependeremos apenas do talento de um jogador, nem da capacidade de liderança de um só membro da equipe.
Claro que nem todo esforço é recompensado, mas não é disso que se trata. Trata-se, isto sim, de assumir responsabilidade diante da vida, seja em uma entrega crucial no trabalho, em uma relação afetiva que pede cuidado ou em uma decisão por pênaltis. Talvez o melhor desejo, então, não seja “boa sorte”, mas “faça sua parte”. Ganbatte, Brasil!
Publicado em VEJA de 12 de junho de 2026, edição nº 2999
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