O tradicional papel civilizatório de uma refeição compartilhada está ameaçado pela má utilização de uma boa tecnologia. Estou falando da moda de substituir os simpáticos cardápios físicos pelos insípidos QR Codes. Em vez de trocarmos sugestões com os demais comensais e com o garçom — o que pode provocar conversas enriquecedoras sobre gastronomia —, ficamos isolados em ilhas digitais, deslizando telinhas em nossos celulares por intermináveis minutos. Convenhamos que não é uma maneira muito animada de iniciar um jantar.
Os cardápios têm longa história. No fim do século XIX, a americana Frances Buttolph, ciente da relevância para a sociedade do que se serve à mesa, começou a guardá-los. Foi reunindo exemplares de restaurantes e hotéis. Buscou outros em navios e trens. Recuperou menus especiais de banquetes. No fim da vida, havia juntado uma coleção de 25 000 peças, que pode ser visitada na Biblioteca Pública de Nova York. Hoje, no entanto, ela teria dificuldade em começar esse trabalho. No lugar das capas, ilustrações e letras caprichadas, encontraria apenas links que, uma vez vencidos, não deixam vestígios.
“Da escritora Virginia Woolf: ‘Um bom jantar é de grande importância para uma boa conversa’ ”
É sobretudo em viagens ao exterior que esbarro nesse costume. Mal pouso a bolsa na mesa e já preciso alcançar o telefone. Depois vêm a câmera, o enquadramento, o vaivém dos dedos ampliando letras miúdas. Se o sinal não ajuda então, a impaciência chega antes da entrada. O hábito ganhou força na pandemia. Prevaleceu a assepsia, o que era mais do que justificável. A emergência foi embora, mas levou consigo parte do atendimento humanizado. Um bom garçom não se limita a perguntar o que vamos pedir. Ele entrega o cardápio, espera que todos se acomodem e volta no momento certo para explicar o que o chef preparou. Nós saboreamos o prato antecipadamente.
A consulta compulsória ao celular pode pôr a perder o encontro. Basta aparecer uma mensagem para a conversa ser interrompida ou tomar um rumo indesejado. É por isso que concordo com a escritora inglesa Virginia Woolf, contemporânea de Frances, quando ela escreve: “Um bom jantar é de grande importância para uma boa conversa”. Costuma-se defender o QR Code em nome da sustentabilidade. Economizar papel é uma boa ideia, sim, mas um cardápio não precisa ser descartável. Um exemplar resistente pode usar material reciclado ou de origem certificada e receber folhas avulsas quando houver mudanças.
As sugestões do dia também cabem num quadro. Há outras formas de evitar desperdício. Além disso, quem disse que o QR Code evita consumo desnecessário de recursos escassos? Quando o cardápio virtual é ilustrado com imagens criadas por inteligência artificial, isso fica mais evidente. Gerar imagens está entre as tarefas de IA que mais consomem energia. Há outro problema. Uma fotografia de um prato podia até exagerar no brilho do molho ou na altura do sanduíche, mas partia de algo real. Agora, uma imagem pode anunciar um prato que nunca passou pela cozinha. O cliente escolhe uma criação digital e recebe a tentativa de reproduzi-la. A cozinha passa a competir com uma promessa que ela mesma não fez. Quando vou a um restaurante, não quero baixar o jantar. Quero, desde que sou recebida, viver a experiência completa de estar ali, e não em qualquer lugar virtual.
Publicado em VEJA de 18 de setembro de 2026, edição nº 3013






