O livro que mudou a carreira de Virginia
Com 'O Quarto de Jacob', que ganha nova tradução no país, a escritora inglesa subverteu a prosa para virar uma gigante da literatura
“Cada rosto, cada loja, janela de quarto, bar e praça escura é uma imagem que viramos, febris – em busca do quê? O mesmo se dá com os livros. O que buscamos em milhões de páginas? Ainda virando as páginas, cheios de esperança – ah, eis o quarto de Jacob.”
O Quarto de Jacob, publicado em 1922, é o terceiro romance de Virginia Woolf. O livro que foi o divisor de águas para sua técnica narrativa, estilo e carreira. E estamos convidados a abrir a porta e entrar nos recintos arquitetados por essa gigante da literatura com a nova tradução de Paulo Henriques Britto, recém-publicada pela Penguin Companhia.
Difícil definir o enredo desse “livro-casa”, para usar a expressão da escritora brasileira Silvana Tavano, que assina o providencial e saboroso posfácio da edição. Sabemos, desde as primeiras frases, que acompanharemos esse tal de Jacob crescer e aparecer, cultivar interesses, apaixonar-se, angustiar-se, sozinho ou entre amigos e família.
Mas, aí está uma das rupturas formais mais provocadoras de Virginia, nessa casa não mora só Jacob. Outros personagens pedem passagem, por vezes de forma abrupta, nos lembrando de que o mundo não gira em torno do ego – nem tem um ou outro protagonista.
Conhecemos Jacob criança na praia, e ele vai estudar, embrenhar-se em livros, conhecer mulheres e amores, viajar até a Grécia e o seu sonho de civilização perdida. Mas conhecemos esse menino-rapaz-homem inúmeras vezes pelas falas, gestos e impressões dos outros – e, como observa Tavano, o narrador/a narradora faz parte do mistério de uma prosa que opera ziguezagues no tempo, muda o fio da meada, troca as cenas, nos deixando, com frequência, meio perdidos, meio encafifados.
Não são só os personagens humanos que nos ajudam a entrever esse Jacob, sua mãe viúva, as damas pelas quais ele se apaixona… Os ambientes e os objetos falam à sua maneira. “A sala de estar não ficou sabendo, nem se importava (…) Mas se o envelope azul-claro que repousava ao lado da lata de biscoitos tivesse sentimentos maternos, seu coração se despedaçaria diante do pequeno rangido…”, elabora Woolf.
Até os livros falam dentro do livro, dividindo espaço com a natureza e os rituais cotidianos mais banais. “Enquanto isso, Platão dá continuidade a seu diálogo; apesar da chuva; apesar dos apitos dos carros de aluguel; apesar da mulher que, na estrebaria atrás da Great Ormond Street, chega em casa bêbada e passa a noite inteira gritando: ‘Me deixe entrar!'”
É assim, numa escrita fragmentada e forjada com inúmeros pontos de vista – como é a própria vida – que a autora inglesa cria, no mesmo ano em que saiu Ulisses, de James Joyce, uma obra singular, a partir da qual outras ruas e edifícios poderiam ser construídos, como os clássicos Mrs. Dalloway e Passeio ao Farol.
“Depois de abrir este livro como quem entra com olhos curiosos em uma casa estranha, chega-se à certeza de que nem tudo foi visto, porque havia, sim, uma ou duas portas fechadas…”, reflete Tavano. Penso que atrás dessas portas reside uma das maiores forças da literatura – aquela que cutuca nossa imaginação.
E ainda bem que podemos entrar n’O Quarto de Jacob iluminados pela engenharia literária de Paulo Henriques Britto. Com a palavra, o tradutor.
Este livro é apontado como um divisor de águas no trabalho de Virginia Woolf. Em que medida ele opera uma transformação na arte narrativa e no estilo da autora? Os dois livros anteriores eram romances convencionais. A partir de Jacob, Woolf começa a fazer experimentos formais. Neste livro em particular, o narrador em terceira pessoa jamais tem acesso à interioridade de Jacob, que seria o protagonista; tudo que sabemos dele é o que vemos através da consciência das personagens (principalmente as femininas) que o cercam.
O senhor já traduziu outros grandes nomes da literatura em língua inglesa. Quais as peculiaridades e os desafios de verter Virginia e uma obra como essa para o português? Os desafios são os mesmos de traduzir qualquer grande escritor: tentar encontrar em português uma linguagem, um tom, uma série de registros que correspondam às características do original. Um grande problema é sempre a tradução do diálogo, pois é necessário marcar a fala dos personagens como linguagem oral sem utilizar coloquialismos que seriam anacrônicos, ou traços de oralidade muito marcados como brasileiros.
Teria um exemplo? Para dar apenas um, na fala brasileira dificilmente nos referimos a uma pessoa ou a tratamos como “sr. Fulano” ou “sra. Sicrana”. Mas não posso usar “seu Fulano” e “dona Sicrana” porque essas formas de tratamento pedem o primeiro nome e não o sobrenome, e às vezes nem sabemos qual é o primeiro nome das personagens.
Qual é o aspecto que mais o encanta neste livro? Ele estaria em pé de igualdade com outras obras-primas de Virginia Woolf? A meu ver, as duas obras-primas dela são Mrs. Dalloway e Passeio ao Farol, que traduzi há alguns anos. O que é fascinante em Woolf é sempre sua linguagem personalíssima, a estrutura complexa da narrativa, a construção dos personagens — em Jacob, em particular, a já mencionada opacidade do personagem central.
P.S.: Peço desculpas se o leitor ou a leitora clicou neste link pensando que eu falaria de outra Virginia, mais famosa nas redes sociais no Brasil de hoje. Mas a ideia (isca?) tem a mais nobre intenção: uma oportunidade de conhecer e ler o trabalho da escritora. Nem é uma ideia original. Me inspirei na colega de VEJA, Raquel Carneiro, em sua brilhante matéria sobre o centenário de Mrs. Dalloway. Espero que, de Virginia em Virginia, você possa chegar às páginas desse clássico ou penetrar n’O Quarto de Jacob.







