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O livro que mudou a carreira de Virginia

Com 'O Quarto de Jacob', que ganha nova tradução no país, a escritora inglesa subverteu a prosa para virar uma gigante da literatura

Por Diogo Sponchiato Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 7 Maio 2026, 12h50 | Atualizado em 7 Maio 2026, 18h33

“Cada rosto, cada loja, janela de quarto, bar e praça escura é uma imagem que viramos, febris – em busca do quê? O mesmo se dá com os livros. O que buscamos em milhões de páginas? Ainda virando as páginas, cheios de esperança – ah, eis o quarto de Jacob.”

O Quarto de Jacob, publicado em 1922, é o terceiro romance de Virginia Woolf. O livro que foi o divisor de águas para sua técnica narrativa, estilo e carreira. E estamos convidados a abrir a porta e entrar nos recintos arquitetados por essa gigante da literatura com a nova tradução de Paulo Henriques Britto, recém-publicada pela Penguin Companhia. 

Difícil definir o enredo desse “livro-casa”, para usar a expressão da escritora brasileira Silvana Tavano, que assina o providencial e saboroso posfácio da edição. Sabemos, desde as primeiras frases, que acompanharemos esse tal de Jacob crescer e aparecer, cultivar interesses, apaixonar-se, angustiar-se, sozinho ou entre amigos e família.

Mas, aí está uma das rupturas formais mais provocadoras de Virginia, nessa casa não mora só Jacob. Outros personagens pedem passagem, por vezes de forma abrupta, nos lembrando de que o mundo não gira em torno do ego – nem tem um ou outro protagonista.

Conhecemos Jacob criança na praia, e ele vai estudar, embrenhar-se em livros, conhecer mulheres e amores, viajar até a Grécia e o seu sonho de civilização perdida. Mas conhecemos esse menino-rapaz-homem inúmeras vezes pelas falas, gestos e impressões dos outros – e, como observa Tavano, o narrador/a narradora faz parte do mistério de uma prosa que opera ziguezagues no tempo, muda o fio da meada, troca as cenas, nos deixando, com frequência, meio perdidos, meio encafifados.

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Não são só os personagens humanos que nos ajudam a entrever esse Jacob, sua mãe viúva, as damas pelas quais ele se apaixona… Os ambientes e os objetos falam à sua maneira. “A sala de estar não ficou sabendo, nem se importava (…) Mas se o envelope azul-claro que repousava ao lado da lata de biscoitos tivesse sentimentos maternos, seu coração se despedaçaria diante do pequeno rangido…”, elabora Woolf.

O quarto de Jacob

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Até os livros falam dentro do livro, dividindo espaço com a natureza e os rituais cotidianos mais banais. “Enquanto isso, Platão dá continuidade a seu diálogo; apesar da chuva; apesar dos apitos dos carros de aluguel; apesar da mulher que, na estrebaria atrás da Great Ormond Street, chega em casa bêbada e passa a noite inteira gritando: ‘Me deixe entrar!'”

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É assim, numa escrita fragmentada e forjada com inúmeros pontos de vista – como é a própria vida – que a autora inglesa cria, no mesmo ano em que saiu Ulisses, de James Joyce, uma obra singular, a partir da qual outras ruas e edifícios poderiam ser construídos, como os clássicos Mrs. Dalloway e Passeio ao Farol. 

“Depois de abrir este livro como quem entra com olhos curiosos em uma casa estranha, chega-se à certeza de que nem tudo foi visto, porque havia, sim, uma ou duas portas fechadas…”, reflete Tavano. Penso que atrás dessas portas reside uma das maiores forças da literatura – aquela que cutuca nossa imaginação.

E ainda bem que podemos entrar n’O Quarto de Jacob iluminados pela engenharia literária de Paulo Henriques Britto. Com a palavra, o tradutor.

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paulo henriques britto - virginia woolf
O poeta e tradutor Paulo Henriques Britto, que já verteu para o português autores como Virginia Woolf, Willian Faulkner e Thomas Pynchon (Foto: Alexandre SantAnna/Reprodução)

Este livro é apontado como um divisor de águas no trabalho de Virginia Woolf. Em que medida ele opera uma transformação na arte narrativa e no estilo da autora? Os dois livros anteriores eram romances convencionais. A partir de Jacob, Woolf começa a fazer experimentos formais. Neste livro em particular, o narrador em terceira pessoa jamais tem acesso à interioridade de Jacob, que seria o protagonista; tudo que sabemos dele é o que vemos através da consciência das personagens (principalmente as femininas) que o cercam.

O senhor já traduziu outros grandes nomes da literatura em língua inglesa. Quais as peculiaridades e os desafios de verter Virginia e uma obra como essa para o português? Os desafios são os mesmos de traduzir qualquer grande escritor: tentar encontrar em português uma linguagem, um tom, uma série de registros que correspondam às características do original. Um grande problema é sempre a tradução do diálogo, pois é necessário marcar a fala dos personagens como linguagem oral sem utilizar coloquialismos que seriam anacrônicos, ou traços de oralidade muito marcados como brasileiros.

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Teria um exemplo? Para dar apenas um, na fala brasileira dificilmente nos referimos a uma pessoa ou a tratamos como “sr. Fulano” ou “sra. Sicrana”. Mas não posso usar “seu Fulano” e “dona Sicrana” porque essas formas de tratamento pedem o primeiro nome e não o sobrenome, e às vezes nem sabemos qual é o primeiro nome das personagens.

Qual é o aspecto que mais o encanta neste livro? Ele estaria em pé de igualdade com outras obras-primas de Virginia Woolf? A meu ver, as duas obras-primas dela são Mrs. Dalloway e Passeio ao Farol, que traduzi há alguns anos. O que é fascinante em Woolf é sempre sua linguagem personalíssima, a estrutura complexa da narrativa, a construção dos personagens — em Jacob, em particular, a já mencionada opacidade do personagem central.

P.S.: Peço desculpas se o leitor ou a leitora clicou neste link pensando que eu falaria de outra Virginia, mais famosa nas redes sociais no Brasil de hoje. Mas a ideia (isca?) tem a mais nobre intenção: uma oportunidade de conhecer e ler o trabalho da escritora. Nem é uma ideia original. Me inspirei na colega de VEJA, Raquel Carneiro, em sua brilhante matéria sobre o centenário de Mrs. Dalloway. Espero que, de Virginia em Virginia, você possa chegar às páginas desse clássico ou penetrar n’O Quarto de Jacob.

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