Os fósseis vivos dentro de nós
Em 'Celacanto', obra que remete a um peixe ancestral que ainda nada pelos mares deste mundo, poeta reflete sobre a memória incrustada na carne e na língua
“Viver/ aos poucos/ recolher os membros/ entre escombros/ escondê-los dentro/ do casco/ como um animal/ romper a casca/ que nos embala/ prestes à vida/ ter com a terra tato/ e manter o trato/ do que nos é legado/ ao nascer.”
Costumo dizer que, por (de)formação e circunstância, sou mais da prosa do que da poesia. Mas Celacanto, o novo livro de poemas de Thiago Ponce de Moraes, publicado pelo Círculo de Poemas, me fisgou – com iscas como as dos versos logo acima.
Nessas inversões de papéis que só a literatura enseja, o peixe que dá título à obra – um autêntico fóssil vivo – pesca o leitor. E o faz descer a profundezas abissais, em um mergulho que evoca nossas origens como frutos animalescos da árvore da vida, como pais e filhos que perpetuam histórias e famílias, como criaturas que parem memórias, línguas, poesias…
Não sou crítico literário tampouco estudioso de poesia, mas não é preciso ter essas credenciais para ser tocado por Celacanto. Seus versos nos convidam a uma viagem espacial, temporal e geracional (com direito a versos dedicados aos filhos e aos avôs) e explora a(s) matéria(s) de que somos constituídos – entre as origens que cavamos e os destinos que aspiramos, com saudades no meio do caminho.
É fóssil vivo no corpo, incrustado nas células (há resquícios de vírus e bactérias em nosso material genético, lembremos) e evocado pelas raízes remotas que nos conectam a criaturas como o peixe que “não cansa de nascer/ tampouco descansa”. É fóssil vivo da linguagem, que revive e recria formas de arte e comunicação. É fóssil vivo na memória e na família, em nome do pai, do filho, dos antepassados e desse espírito que transcende a carne.
Fui fisgado pelo Celacanto – e por seu pescador, poeta, tradutor e psicanalista. Com a palavra, Thiago Ponce de Moraes.
A obra remete a esse fóssil vivo que se perpetua, biológica e simbolicamente, em nossa espécie. Em que medida a poesia nos ajuda a compreender esse lado ancestral e animal do ser humano? A poesia, como forma de arte que é, porta o arcaico. Isso quer dizer: passado e promessa convivem no presente do poema. Em cada página de um livro de poesia, ancestral e atual coexistem – e desse modo irrompem, simultaneamente, diante de quem lê. Não há contradição nisso. Eis a própria natureza do contemporâneo. Nesse sentido, a poesia é capaz de apresentar aquilo de que nos esquecemos, seja lá o que essa coisa seja: um animal, um modo de vida, um ritmo, um destino.
Daí o “celacanto” do seu livro? Em Celacanto, trago esse peixe remoto como metáfora (e, portanto, como imagem), um “fóssil vivo” que atravessou eras – centenas de milhões de anos (anterior até aos dinossauros) – e ainda sobrevive nos dias atuais. O celacanto, biológica e simbolicamente, ratifica, reitera a natureza da poesia, sua insistência através dos tempos. Outro detalhe impressionante sobre esse animal, que coaduna, pois, com a própria poesia, é a estranheza que ele anuncia: trata-se de um ser limítrofe, cuja existência é precaríssima e radicalmente marginal, à beira da extinção; um peixe que guarda mais familiaridade com animais de quatro patas que com a maioria dos seres do mar. Assim, a imagem se espalha: o poema, embora feito de linguagem, de palavras, desloca os sentidos daquilo que anuncia. Ou seja: há, em grande medida, uma ruptura do pacto comunicativo (acreditar que as palavras significam aquilo que convencionamos que significam); uma ruptura, então, da ficção da linguagem – deliberadamente, é claro. O seu dizer, portanto, aquilo que resta no poema como materialidade escrita, escorrega e passa a enunciar (e a convocar) sensações, formulações, significados distintos daqueles que a comunicação em geral engendra.
É uma espécie de convite, então? O poema nos pede para ver com clareza; para ver outra vez; para ver (e ler, nesse caso) mesmo dentro da escuridão abissal. O poema nos pede essa atenção plena, um tempo específico, mais lento, mas também nos pede que possamos abrir mão de nossas certezas, de nossas convicções; nos impele para fora de nós mesmos; para, assim, aprendermos a ler segundo aquilo que o poema carrega; e para, quem sabe, podermos elaborar um outro modo de estar no mundo: inaudito, raro, novo – mesmo diante do sem sentido de haver (e perdurar, e persistir) ainda uma forma de vida como esta: um poema, um celacanto.
Em nome do pai, dos filhos e dos avós, o que a poesia pode fazer pela memória e pelo futuro do vínculo em família? De modo prático, em um mundo em que a leitura ocupe os espaços de uma casa, os versos podem ser um convite ao encontro. Ler poesia em voz alta, por exemplo, e conversar sobre de que maneira esses versos reverberam em cada um, pode ser um modo de estreitar os laços entre pais, filhos, avós. Inclusive, pode ser um momento em que outras memórias sejam mobilizadas e trazidas à partilha; memórias que, de outro modo, ficariam esquecidas no “fundo do mar” (para me manter próximo à imagem do celacanto). Um encontro geracional em torno das palavras, uma profissão de afeto e de apreço às relações e à linguagem que as consubstancia.
O poema, assim, incita uma viagem no tempo? Diante do poema, estamos sempre diante do tempo – desloco as palavras do historiador da arte Didi-Huberman, que, na passagem original, fala da imagem; o poema, de todo modo, uma mancha no papel, logo imagem antes mesmo de qualquer sentido. Esse tempo diante do qual o poema nos coloca não é um tempo cronológico. É o tempo do eterno instante, do incessante sempre (como nos versos da poeta portuguesa Adília Lopes: “vivo/ no instante/ casa/ da eternidade”). Nesse sentido, de maneira bem breve, posso admitir que o poema seja o espaço em que podem conviver de maneira mais livre a criança que vive no avô e a criança que vive na criança (seu neto, nesse caso), indistintamente. Seja no ato da leitura conjunta, seja na recuperação de algum evento que passe a existir de agora em diante no poema – para sempre e como nunca. De maneira mais fundamental ainda, acredito que o poema, como objeto verbal instalado na superfície da página, guarda a memória dessas pessoas, faz valer o vínculo entre elas. O poema aparece, então, como uma espécie de decantação muito particular, que, ao final, não é nem, objetivamente, a pessoa que escreve, nem aquela cuja memória é descrita ou recuperada ou reelaborada; é algo fruto dessa relação e ainda outra coisa: um vínculo, uma vez mais, mas também um vinco que marca a sua passagem na vida.
O poema é seu e, ao mesmo tempo, de todos os leitores… Sim, ele guarda a memória ora de um si-mesmo, ora de um outro; ora de ninguém, ora de todos. Lembro da poeta estadunidense Louise Glück: “Olhamos para o mundo uma vez, na infância./ O resto é memória.” Assim, me parece, opera o poema: faz coexistir outrora e agora, memória e futuro – e atravessa, ultrapassa, resiste ao tempo: e recupera o tempo, e relança o tempo para além.
O que a poesia pode aprender com a psicanálise – e vice-versa? Penso que os dois campos convergem em muitos momentos. Endereço a pergunta dizendo que poesia e psicanálise podem, mais que aprender uma com a outra (o que suporia uma hierarquia de saberes), compartilhar um modo de estar no mundo (à escuta e à escrita), um ethos, um modo de acolhimento da diferença; uma perspectiva em relação ao uso da linguagem, através da qual ambas se realizam. Não quero, com isso, soar categórico; coisa que tanto a poesia quanto a psicanálise veementemente refutam em sua própria constituição. O poema, como garrafa lançada ao mar – para usar uma imagem do poeta romeno Paul Celan – carrega uma mensagem que, no entanto, não está necessariamente acessível, nem se sabe se algum dia estará. Não há destinatário a priori, nem aquele que lançou a garrafa tem qualquer controle sobre onde vai dar aquilo que ele mesmo começou. Essa imagem fala, entre outras coisas, do não-saber que o poema porta; e esse é um dos saberes da poesia justamente. A psicanálise, por sua vez, para além de ser uma prática que se estabelece por via da palavra, também faz aquele que por ela passa aprender, de certa forma, como lidar com aquilo que não se pode finalmente delimitar, descrever, domesticar; faz aquele que por ela passa aprender, além disso, a sustentar esse impasse ou a superar esse impasse – e para isso não há passo a passo, senão um compromisso.
Tampouco há uma linha de chegada ou uma luz no fim do abismo? Em ambos os casos, é preciso arriscar não saber, arriscar não chegar a dizer nada, não chegar a entender nada, não chegar a lugar algum; arriscar não estar de acordo com as leis, transgredi-las, reposicioná-las, descartá-las. Não estar mais sob o jugo daquilo que parecia absolutamente inelutável, propor outro jogo. Inventar outras maneiras, afinal, criativamente. Deixar-se ir em um espaço de abertura e de acolhida ao que pode vir a ser, mesmo que insondável, mesmo que inabordável pelas próprias palavras. Assim, vejo que, ao lidar com a palavra, ambas, poesia e psicanálise, lidam com o que escapa, com o que desliza; fundam, cada uma a sua maneira, um lugar em que os contratos prévios caem, em que a autoridade vacila e, em que, finalmente, se permite sair de posições muito recrudescidas: uma saída de si por via de um movimento em direção ao outro; uma chegada, talvez, renovada pelo próprio deslocar-se. Uma partida.





