Em 1994, a Editora Paz e Terra publicou A Revolução nas Prioridades: da Modernidade Técnica à Modernidade Ética. Além de formular o conceito das duas modernidades e apresentar um capítulo sobre os dez erros da modernização brasileira, o livro propunha 100 medidas para orientar o futuro do Brasil. A primeira era o pagamento de uma renda mensal às mães para que seus filhos não faltassem às aulas; a segunda, o depósito anual de um valor em poupança ao final de cada ano se o aluno fosse aprovado, a ser liberado quando ele concluísse o ensino médio. Em 1995, o governo do Distrito Federal adotou essas duas medidas, com os nomes de Bolsa-Escola e Poupança-Escola. Cinco anos depois, a primeira foi levada para todo o Brasil pelo governo Fernando Henrique Cardoso; em 2004, o presidente Lula a transformou no Bolsa Família, retirou sua gestão do MEC e ampliou seus beneficiários a todos que precisavam de ajuda; em 2003, seu então ministro da Educação apresentou um projeto de lei para estender a Poupança-Escola a todo o Brasil, mas somente 21 anos depois, graças à deputada Tabata Amaral, a proposta foi finalmente adotada, com o nome Pé-de-Meia.
“As instituições devem oferecer o que os jovens precisam: matérias que eles gostem”
Em estudo divulgado na semana passada, esses programas foram considerados as bases da redução na evasão escolar observada. Mas, além de não citar as perdas pelo adiamento de duas décadas na adoção da ideia de poupança escolar, o estudo não observa que a permanência não é sinônimo de aprendizado. Matrícula, frequência, assistência, assiduidade e permanência são requisitos indispensáveis, mas insuficientes. O aluno precisa adquirir os conhecimentos que lhe permitam buscar sua felicidade pessoal e participar da construção de um país melhor. A positiva redução da evasão escolar deixa de considerar que não apenas os alunos abandonam a escola; a própria escola vira as costas aos alunos: por não seduzir no presente nem inspirar para o futuro. Busca-se manter o aluno em uma escola que ele não deseja frequentar porque não motiva no presente e não oferece perspectivas para os anos seguintes.
Além da evasão dos alunos, é preciso evitar a evasão da escola para fora dos interesses e desejos dos alunos, devido ao descompromisso com o prazer de aprender e a incapacidade de se preparar para o futuro. Para evitar a evasão, a escola precisa ser prazerosa e útil ao aluno. Contar com professores preparados e motivados, prédios bonitos e confortáveis, equipamentos digitais compatíveis com a cultura da geração atual, e organizar o tempo diário de forma adequada às preferências e ao modo de vida dos estudantes (ensino integral não necessariamente todo presencial). Para mostrar-se útil e prazerosa, deve fazer o aluno gostar de aprender e sentir que adquire conhecimentos úteis para melhorar sua própria vida. Deve oferecer o que os jovens precisam: matérias que eles gostem, atividades artísticas e esportivas, o ensino de ao menos um ofício, técnicas de empreendedorismo, de educação financeira, orientação para a busca de financiamento de seus projetos, conhecimento sobre o funcionamento do mercado. Além de incentivos financeiros, tipo poupança, a permanência do aluno exige que a escola deixe de ser a causa da evasão. Além de enfrentar o sumiço de alunos, a escola deve buscar a permanência deles com prazer e aprendizado.
Publicado em VEJA de 17 de julho de 2026, edição nº 3004






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