China responde ao Ocidente e publica Livro Branco para defender indústria
Pequim classifica acusações de ‘capacidade excessiva’ como pretexto protecionista e cobra maior abertura no comércio internacional
Com o acirramento das disputas comerciais contra os Estados Unidos e a União Europeia, o governo chinês decidiu formalizar sua defesa. O Ministério do Comércio do país publicou um Livro Branco de 40 páginas para rebater as críticas de que suas fábricas produzem além da capacidade de absorção do mercado global, argumento usado por governos ocidentais para impor tarifas e restrições a produtos como veículos elétricos, baterias e painéis solares.
O Livro Branco, intitulado “A posição da China sobre a chamada questão da capacidade excessiva”, sustenta que o tema virou munição política. De acordo com o texto, a reestruturação da indústria global reflete o curso natural da globalização e da divisão internacional do trabalho, e não uma aberração provocada pelo modelo econômico chinês.
Pequim destaca no documento que não há consenso internacional sobre o que constitui “capacidade excessiva”. A própria Organização Mundial do Comércio (OMC) não possui métricas oficiais para o conceito, e a variação no uso da capacidade industrial entre diferentes países é um fenômeno comum que não aponta, isoladamente, para um desequilíbrio econômico.
O Livro Branco também responde às queixas sobre o apoio estatal às indústrias locais. O governo chinês pontua que incentivos públicos são prática corrente em várias partes do mundo, citando os subsídios americanos para a transição energética e os programas de fomento da própria União Europeia. Para Pequim, eventuais divergências sobre esse tema devem ser tratadas estritamente nos fóruns da OMC.
Outro ponto rebatido é a associação entre o superávit comercial chinês e o suposto excesso de produção. O texto lembra que potências exportadoras como Alemanha, Japão e os próprios EUA mantiveram saldos positivos por décadas sem sofrer o mesmo tipo de questionamento. O desempenho das exportações chinesas, argumenta o Ministério, decorre de ganhos de competitividade, avanços tecnológicos e da demanda mundial por tecnologias limpas.
A defesa chinesa credita a expansão de setores de ponta (como baterias de lítio, energia solar e inteligência artificial) ao aporte contínuo em pesquisa e desenvolvimento (P&D). O Livro Branco destaca que o país se tornou o segundo maior investidor global na área, além de reunir 109 lighthouse factories (instalações reconhecidas internacionalmente pela automação avançada).
No campo político, o texto rejeita o termo “China Shock 2. 0”, usado no Ocidente para alertar sobre o impacto dos produtos chineses nos mercados locais. Em contraposição, Pequim prefere a expressão “China Opportunity 2. 0”, afirmando que sua produção ajuda a baratear a transição energética e a acelerar o acesso a novas tecnologias em países em desenvolvimento.
A publicação encerra com críticas veladas ao avanço de barreiras protecionistas, alertando que tarifas punitivas e controle de investimentos fragmentam a economia global e desestabilizam as cadeias de suprimento. Mais do que uma resposta técnica, o Livro Branco funciona como uma peça de posicionamento estratégico em meio à disputa por quem ditará as regras da economia global nos próximos anos.







