🔥 Mês do Cliente: Receba 4 Revistas Impressas por apenas R$ 35,90/mês. Aproveite!
Imagem Blog

Giro pelo Oriente

Por Ana Cláudia Guimarães Materia seguir SEGUIR Seguindo Materia SEGUINDO
O que está rolando na Ásia

Trump se aproxima de Kim e muda relação de EUA com a Coreia do Sul

Americano reduz exercícios militares com Seul e diz ter recebido resposta de Kim Jong-un, enquanto a Coreia do Sul também busca reabrir o diálogo com Pyongyang

Por Ana Cláudia Guimarães Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 18 ago 2026, 09h11 | Atualizado em 18 ago 2026, 12h04
Trump se aproxima de Kim e muda relação de EUA com a Coreia do Sul Priorizar nos meus resultados Google

Donald Trump voltou a apostar na relação pessoal com Kim Jong-un para tentar abrir uma porta com a Coreia do Norte. Mas, desta vez, a iniciativa veio acompanhada de uma decisão capaz de afetar diretamente um dos principais aliados dos Estados Unidos na Ásia. O presidente americano mandou reduzir de forma “substancial” os exercícios militares conjuntos com a Coreia do Sul e, no dia seguinte, afirmou que o líder norte-coreano havia respondido às suas tentativas de contato.

A tentativa de reabrir o diálogo com Pyongyang não parte apenas de Washington. O presidente sul-coreano, Lee Jae Myung, também fez da redução das tensões com o Norte uma das prioridades de seu governo. No sábado passado, dia 15, em discurso pelo Dia da Libertação da Coreia, Lee voltou a propor conversas com Pyongyang, defendeu a “coexistência pacífica” entre os dois países e pediu a substituição do armistício que encerrou os combates da Guerra da Coreia, em 1953, por um regime de paz.

Com as declarações, Lee procura reduzir a tensão sem abrir mão da capacidade de defesa do país nem transformar a aliança com Washington em um compromisso automático de participação em operações americanas fora da Península Coreana. É justamente aí que a nova ofensiva de Trump começa a produzir atritos.

Trump, por sua vez, não contou quando a resposta de Kim Jong-un chegou, por qual meio eles se comunicaram nem o que o presidente da Coreia do Norte teria dito. Pyongyang também não confirmou publicamente o contato. Questionado na segunda-feira, dia 17, sobre a falta de retorno do líder norte-coreano, Trump rebateu o repórter: “Como você sabe que ele não respondeu? ”. Em seguida, confirmou que havia recebido uma resposta e classificou a situação das conversas como “muito positiva”.

A declaração ocorreu um dia depois de Trump anunciar na Truth Social que havia orientado o secretário de Defesa, Pete Hegseth, a diminuir os exercícios militares com a Coreia do Sul. O presidente reclamou dos custos das manobras e escreveu que elas enviavam um recado “inadequado e hostil” à Coreia do Norte. Também voltou a mencionar a “muito boa relação” que mantém com Kim.

Continua após a publicidade

As polêmicas medidas de Donald Trump

A ordem já começou a produzir efeitos na relação militar entre Washington e Seul. Nesta terça-feira, 18, o comandante das Forças dos Estados Unidos na Coreia, general Xavier Brunson, esteve no Ministério da Defesa sul-coreano para discutir os planos de redução do Ulchi Freedom Shield, segundo relatos da imprensa local citados pela Reuters. O treinamento começou na segunda-feira e está previsto para terminar em 27 de agosto.

A iniciativa traz de volta uma fórmula usada por Trump durante seu primeiro mandato. Depois da cúpula de Singapura, em junho de 2018, ele suspendeu grandes exercícios militares com a Coreia do Sul na tentativa de favorecer as negociações com Kim.

Continua após a publicidade

Os dois líderes tiveram duas cúpulas formais (em Singapura, em 2018, e em Hanói, em fevereiro de 2019) e voltaram a se encontrar em junho daquele ano, em Panmunjom, na fronteira entre as duas Coreias. A diplomacia pessoal produziu imagens históricas, mas não resultou em um acordo capaz de interromper o programa nuclear e de mísseis norte-coreano. As negociações praticamente pararam depois do fracasso da reunião de Hanói.

Donald Trump agora tenta repetir parte daquela fórmula, mas Kim Jong-un chega a uma eventual negociação em uma posição bastante diferente.

Desde o último encontro entre os dois, a Coreia do Norte ampliou seus programas nuclear e balístico e estreitou fortemente a relação militar com a Rússia. Tropas norte-coreanas participaram da guerra ao lado das forças russas na Ucrânia, enquanto Pyongyang mantém uma relação estreita com a China. Em junho deste ano, o presidente chinês, Xi Jinping, esteve na Coreia do Norte e se reuniu com Kim, numa visita marcada pela promessa de ampliação da cooperação entre os dois países.

Continua após a publicidade

Essa mudança reduz parte da pressão que existia sobre Pyongyang quando Trump e Kim se sentaram frente a frente pela primeira vez.

Segundo informações do jornal Korea Herald, Lim Eul-chul, professor do Instituto de Estudos do Extremo Oriente da Universidade Kyungnam, avalia que Kim tem hoje menos razões para apostar todas as fichas numa negociação com Washington.

“Do ponto de vista de Kim Jong-un, não há razão para se agarrar a Trump na esperança de um resultado incerto”, afirmou o professor. Para Lim, a aproximação com Rússia e China ampliou as opções econômicas, diplomáticas e militares da Coreia do Norte.

Continua após a publicidade

Há outro obstáculo de difícil solução: o arsenal nuclear.

Em junho, a própria Coreia do Norte declarou que a desnuclearização do país era uma questão encerrada “irreversivelmente”. A posição deixa pouco espaço para uma repetição das negociações de 2018 e 2019 nos mesmos termos.

O fracasso de Hanói também pesa. Kim deixou o Vietnã sem o alívio de sanções que buscava e sem acordo com Washington. Para Lim, uma nova reunião só será atraente para o líder norte-coreano se houver perspectiva de obter algo concreto.

Continua após a publicidade

A personalidade do próprio Trump entra nessa conta. Lim afirma que sua imprevisibilidade pode levar Pyongyang a agir com cautela. Para Kim, disse o professor, a impaciência do americano pode transformá-lo menos em um adversário fácil de negociar e mais em uma “bomba-relógio” difícil de prever.

Ainda assim, não se descarta um novo encontro.

Victor Cha, responsável pelo programa sobre a Coreia no Center for Strategic and International Studies, também segundo o Korea Herald, acredita que Pyongyang pode preferir esperar antes de responder publicamente aos gestos de Washington. Andrew Yeo, da Brookings Institution, vê uma razão para Kim aceitar um eventual encontro: o fato de já manter relações próximas com China e Rússia reduz o risco político de voltar a conversar com o presidente americano e ainda lhe oferece a oportunidade de aparecer novamente ao lado de um presidente dos Estados Unidos.

Pesquisador do Korea Institute for Defense Analyses, Yu Ji-hoon vê na decisão de reduzir os exercícios uma tentativa de abrir rapidamente espaço para novas conversas. Para ele, Trump considera os encontros com Kim uma parte importante do legado de política externa de seu primeiro mandato e pode querer recuperar esse canal.

Yu, porém, alerta para o preço militar de reduções sucessivas nos treinamentos. Exercícios conjuntos servem para testar a capacidade de atuação das forças americanas e sul-coreanas em caso de conflito. Diminuí-los repetidamente pode prejudicar a coordenação entre os dois países e comprometer a mensagem de dissuasão enviada a Pyongyang.

Mas Kim não é o único destinatário das declarações de Trump.

Na mesma publicação em que anunciou a redução dos exercícios, o presidente americano trouxe para a discussão um assunto geograficamente distante da Península Coreana: o Irã.

Trump contou ter perguntado ao presidente sul-coreano, Lee Jae Myung, se o país participaria da ação americana contra o Irã e afirmou ter recebido como resposta um “não, obrigado”. Ao voltar ao tema, questionou a posição de Seul levando em conta o compromisso dos Estados Unidos com a defesa sul-coreana.

A associação das duas questões chamou atenção porque expõe uma discussão maior sobre o futuro da aliança.

Trump cobra há anos uma contribuição maior da Coreia do Sul para os custos de defesa. Agora, a cobrança pode ultrapassar o dinheiro destinado à presença militar americana e alcançar outro terreno: o quanto Washington espera que Seul esteja disposto a acompanhar os Estados Unidos em crises fora da Península Coreana.

Para Yu Ji-hoon, as falas de Trump mostram sua maneira de enxergar alianças a partir da reciprocidade e da divisão de responsabilidades. Isso pode abrir espaço para que Washington cobre da Coreia do Sul maior participação em assuntos de segurança no Indo-Pacífico e até em regiões mais distantes.

A lista de interesses comuns pode crescer. Segurança marítima, indústria de defesa, construção naval, fortalecimento das capacidades militares sul-coreanas e atuação fora da península podem ocupar cada vez mais espaço nas conversas entre os dois governos. A resposta de Seul foi cautelosa.

O governo sul-coreano afirmou que vem participando das discussões internacionais para conseguir um cessar-fogo no Irã e restabelecer a livre navegação pelo Estreito de Ormuz. O porta-voz do Ministério das Relações Exteriores, Park Doo-soon, disse também que o país mantém conversas com Washington sobre possíveis contribuições militares, levando em consideração a prontidão das forças na Península Coreana e os procedimentos legais internos. Segundo Park, essas conversas começaram antes das declarações recentes de Trump.

O presidente Lee Jae Myung, por sua vez, defendeu nesta terça-feira o fortalecimento da capacidade própria de defesa da Coreia do Sul e reafirmou a intenção de avançar na transferência do controle operacional das forças em tempo de guerra, hoje sob comando americano. Também ressaltou que os exercícios realizados com os Estados Unidos têm caráter defensivo e não têm como objetivo ameaçar a Coreia do Norte.

Seul tenta, assim, administrar duas necessidades que nem sempre caminham facilmente juntas: preservar a aliança militar com Washington e aproveitar qualquer oportunidade de reduzir a tensão com Pyongyang.

A Coreia do Norte, por enquanto, mantém o silêncio sobre a suposta resposta de Kim. A KCNA não confirmou a comunicação relatada por Trump. Na terça-feira, a agência estatal publicou uma mensagem do chanceler russo, Sergey Lavrov, sobre a relação entre Moscou e Pyongyang, mas não mencionou a declaração do presidente americano.

A tentativa de reaproximação coincide com uma data carregada de memória na Península Coreana. Nesta terça-feira, militares americanos e sul-coreanos e parentes das vítimas participaram de uma cerimônia pelos 50 anos do chamado incidente do machado de Panmunjom.

Em 18 de agosto de 1976, os oficiais americanos Arthur Bonifas e Mark Barrett foram mortos por soldados norte-coreanos na Área de Segurança Conjunta durante uma operação para podar uma árvore. O episódio levou Estados Unidos e Coreia do Sul a responderem três dias depois com uma demonstração maciça de força conhecida como Operação Paul Bunyan.

Quarenta e três anos depois das mortes, foi naquele mesmo trecho da fronteira que Trump encontrou Kim em 2019 e se tornou o primeiro presidente americano em exercício a pisar em território norte-coreano.

Agora, sete anos depois daquela fotografia histórica, Trump tenta descobrir se a relação pessoal que cultivou com Kim ainda pode produzir uma negociação. A resposta interessa a Pyongyang e a Washington, mas também pode mudar a maneira como os Estados Unidos cobram de Seul o preço e as responsabilidades de uma aliança construída há mais de sete décadas.

Publicidade

Matéria exclusiva para assinantes. Faça seu login

Este usuário não possui direito de acesso neste conteúdo. Para mudar de conta, faça seu login

Banner promocional com fundo verde-escuro. À esquerda, texto em verde-limão O MÊS É DO CLIENTE. e em branco A vantagem de ler as maiores marcas do país é sua.. À direita, uma mão segura um smartphone exibindo um portal de notícias com banner e produtos, e ao lado, uma árvore estilizada em verde-limãoMão segurando um smartphone com aplicativo de notícias exibindo manchetes e produtos, ao lado do texto O MÊS É DO CLIENTE. A vantagem de ler as maiores marcas do país é sua em fundo verde-escuro, com um ícone de árvore no canto superior direito
ECONOMIZE ATÉ 76% OFF

Digital Básico

A notícia em tempo real na palma da sua mão!
Chega de esperar! Informação quente, direto da fonte, onde você estiver.
De: R$ 16,90/mês Apenas R$ 5,99/mês
OFERTA MÊS DO CLIENTE

Revista em Casa + Digital Premium

Receba 4 revistas de Veja no mês, além de todos os benefícios do plano Digital Completo (cada revista sai por menos de R$ 10,00)
De: R$ 59,99/mês
A partir de R$ 32,90/mês

*Acesso ilimitado ao site e edições digitais de todos os títulos Abril, ao acervo completo de Veja e Quatro Rodas e todas as edições dos últimos 7 anos de Claudia, Superinteressante, VC S/A, Você RH e Veja Saúde, incluindo edições especiais e históricas no app.
*Pagamento único anual de R$23,88, equivalente a R$1,99/mês. Após esse período a renovação será de 118,80/ano (proporcional a R$ 9,90/mês).