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Histórias de Sucesso

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Chairman & CEO | Editora Global Partners; especialista em liderança, educação e impacto ESG. Lideranças que formam o futuro

O legado de estar sempre em movimento

Leon Gottlieb, vice-presidente da Mastercard, mostra como os valores familiares, a preparação e a perseverança marcaram sua trajetória

Por Fabiana Monteiro 13 out 2026, 19h30
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A história de Leon Gottlieb começa com as experiências de seus avós. Jimmy Gottlieb fugiu da Rússia em 1917, aos dez anos, durante a Revolução Russa, e encontrou refúgio na China. Em 1930, chegou ao Rio de Janeiro, onde fundou a gráfica Record. Seu outro avô, Josef Freihof, sobreviveu a cinco campos de concentração durante a Segunda Guerra Mundial e estava entre os sobreviventes da Lista de Schindler. Libertado em 1945, viveu cinco anos em Paris antes de se mudar para o Rio de Janeiro, em 1950, onde construiu a Freinex, uma confecção de roupas masculinas.

Leon cresceu ouvindo essas histórias e aprendendo com os exemplos dos avós, que, apesar das adversidades, reconstruíram suas vidas, formaram famílias e desenvolveram seus próprios negócios. As trajetórias de ambos lhe ensinaram o valor da coragem, da perseverança e do empreendedorismo, princípios que influenciaram suas escolhas e sua maneira de compreender o sucesso.

Nascido no Rio de Janeiro em 1975, Leon começou a trabalhar aos 16 anos, durante as férias de verão, como vendedor na Mr. Blue, loja de roupas masculinas de seu tio Charles. Passou vários meses de dezembro trabalhando doze horas por dia, atendendo clientes. Foi seu primeiro contato com o comércio, quando aprendeu a ouvir e compreender as necessidades das pessoas. Em 1994, ingressou no curso de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro e, interessado pelo mercado financeiro, complementou a formação com um curso para operador da Bolsa de Valores em 1995.

Em 1997, Leon ingressou no Banco Pactual, atual BTG Pactual, que, na época, contava com pouco mais de 200 funcionários. Após superar um processo seletivo rigoroso e concorrido, lembrou-se de uma frase do avô Josef, que o acompanha até hoje: “Se não for o melhor, seja o mais preparado”. Atuou na área de gestão de recursos até 2000, quando um dos diretores do banco se transferiu para o Unibanco Asset Management, no Rio de Janeiro, e o indicou para um novo processo seletivo. Aprovado, Leon deu continuidade à carreira na área de investimentos.

Leon alimentava o sonho de cursar um MBA no exterior, mas não tinha recursos para financiar os estudos. O Unibanco concedia, no máximo, quatro bolsas por ano, entre aproximadamente 30 mil colaboradores. Mesmo diante da concorrência, decidiu tentar e conquistou o patrocínio integral. Em 2003, foi aprovado no MBA da London Business School, realizando um objetivo para o qual vinha se preparando havia anos.

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O poder de construir legados

Em 2003, durante o processo de admissão da London Business School, Leon foi convidado a visitar a universidade. Comprou uma passagem para Londres, disposto a conhecer o ambiente acadêmico e conversar com o maior número possível de pessoas. Na visita, conheceu Nick Temperley, capitão do time de rúgbi, que o convidou para acompanhar o MBA Tournament (MBAT), torneio esportivo internacional que reúne estudantes de MBA de diferentes escolas de negócios, realizado na HEC Paris, uma renomada escola de negócios francesa. Com a ajuda de Joana Gostkorzewicz, participou do evento como juiz de vôlei de praia, aproximando-se dos estudantes antes mesmo de ingressar na London Business School.

Durante o torneio, um estudante lhe passou o contato de Greg Ambrose, responsável pela admissão de candidatos latino-americanos ao MBA. Leon conseguiu conversar com ele por 30 minutos, compartilhando sua trajetória e explicando por que desejava estudar na London Business School. Ao final, Greg revelou que havia recebido nove cartas de recomendação de pessoas que não conheciam Leon antes daquela visita, mas acreditavam que ele tinha o espírito da universidade. Três dias depois, Leon recebeu a confirmação de sua aprovação.

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Leon iniciou o MBA em 2003 e, no último ano, durante uma aula de Gestão de Projetos, propôs um desafio: ajudar a London Business School a voltar a vencer o MBAT, conquista que não acontecia havia uma década. A iniciativa reuniu outros cinco colegas, entre eles o brasileiro Marcio Campanelli Moreira, e mobilizou estudantes de 56 nacionalidades. Leon concluiu o MBA em 2005, mas acompanhou os resultados do trabalho nos anos seguintes. A universidade conquistou três vitórias consecutivas, em 2006, 2007 e 2008. Para ele, foi gratificante perceber que uma iniciativa da qual participou continuou produzindo resultados mesmo após sua saída.

Os caminhos que escolheu

O retorno ao Brasil em 2005, após a conclusão do MBA em Londres, trouxe a Leon um desafio que exigiria mais do que conhecimento financeiro. À frente do planejamento estratégico, financeiro e comercial da Unibanco Veículos, encontrou uma operação que acumulava prejuízos. Ao analisar a rentabilidade do negócio e o potencial de aproximadamente 15 mil revendas pelo país, identificou oportunidades de mudança, que incluíram a redefinição do público-alvo, a saída do segmento de motocicletas e a reorganização comercial. Em dois anos, a operação foi recuperada e conquistou o Prêmio Walter Moreira Salles, principal reconhecimento do banco na categoria Negócios. A experiência abriu caminho para um desafio de outra dimensão: liderar cerca de 50 agências e 600 colaboradores do Unibanco no Paraná, aprofundando seu aprendizado sobre gestão de pessoas e desenvolvimento de talentos. Outro marco de sua trajetória foi ter se tornado sócio do banco aos 30 anos.

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A fusão entre Itaú e Unibanco, anunciada em 2008, marcou uma nova etapa. De volta ao Rio de Janeiro, Leon passou a desenvolver iniciativas para diferentes perfis de clientes na superintendência de Novos Negócios, função assumida em 2009. Sua atuação se ampliou para as operações de varejo do Itaú, incluindo o Itaú Seguros, o Itaú Empreenda e a rede comercial do interior de São Paulo e de Minas Gerais. Em 2014, por indicação do Itaú, voltou à London Business School, onde havia concluído seu MBA nove anos antes, para participar como entrevistador da seleção de candidatos ao programa na Europa. Dessa vez, estava do outro lado do processo seletivo, contribuindo para a escolha de novos alunos da instituição que havia desempenhado um papel decisivo em sua formação.

Mas nem todos os desafios de liderança podem ser medidos por resultados financeiros. Novembro de 2016 colocou Leon diante de uma situação especialmente delicada: o acidente aéreo na Colômbia que deixou 71 mortos, entre eles integrantes da Chapecoense, clube catarinense que disputaria a final da Copa Sul-Americana. Como executivo do Itaú Seguros, liderou a gestão da crise relacionada ao seguro de vida dos integrantes da delegação. Coordenou equipes e parceiros de assistência e serviços funerários, simplificou procedimentos para a liberação dos sinistros e participou da logística de retorno dos corpos ao Brasil e da organização dos funerais nas cidades de origem. Em meio à comoção nacional, cada decisão envolvia famílias que enfrentavam perdas irreparáveis. A experiência reforçou uma dimensão essencial de sua liderança: a capacidade de agir com responsabilidade, equilíbrio e empatia quando as pessoas mais precisam de apoio.

Empreender também é aprender a recomeçar

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Após aproximadamente 25 anos em grandes instituições financeiras, Leon decidiu construir seu próprio negócio. Em junho de 2023, fundou a Masada Partners, com a Spectra Investimentos como sócia. Acostumado a acompanhar os desafios dos empreendedores como executivo de banco, passou a vivenciá-los do outro lado da mesa. Sem a estrutura de uma grande organização, assumiu responsabilidades que iam do recrutamento e marketing ao desenvolvimento comercial e relacionamento com mais de 50 boutiques especializadas em fusões e aquisições (M&A). Também aprofundou seus conhecimentos em avaliação de empresas, projeções financeiras e negociações complexas.

Passou a analisar planos de negócios, conversar com CEOs e CFOs e defender teses de investimento diante de um comitê experiente. A equipe analisou mais de 200 empresas, das quais seis tiveram seus investimentos aprovados. Entretanto, o maior aprendizado de Leon veio da rotina de construir um negócio praticamente do zero, administrar recursos limitados, estabelecer prioridades e tomar decisões em meio às incertezas. Compreendeu, na prática, o desafio de conciliar estratégia e execução, assumindo responsabilidades que, nas grandes organizações, costumam ser distribuídas entre diferentes equipes.

Em dezembro de 2025, Leon retornou ao ambiente corporativo como vice-presidente da Mastercard, motivado pelo desafio de ampliar a atuação da companhia junto às pequenas e médias empresas e desenvolver novas soluções de pagamentos entre empresas. Com o Brasil entre os mercados estratégicos da companhia até 2030, encontrou a oportunidade de empreender novamente, agora dentro de uma multinacional. Segundo dados de agosto de 2026 informados por Leon, a Mastercard contabiliza mais de sete milhões de cartões de pequenas e médias empresas. Os negócios com esse segmento vêm registrando crescimento de dois dígitos. Embora essa etapa ainda esteja no início, ele segue motivado pela possibilidade de transformar oportunidades em crescimento sustentável, combinando visão estratégica, capacidade de execução e espírito empreendedor.

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Estar sempre em movimento

Ao longo da carreira, Leon Gottlieb aprendeu com profissionais que se tornaram referências, mas considera seu maior mentor o avô Josef Freihof. Em 2001, aos 26 anos, quando trabalhava como gerente de investimentos no Unibanco, disse ao avô que já era um homem realizado. Esperava uma palavra de reconhecimento, mas ouviu uma resposta que nunca esqueceu: “Um homem realizado é um homem fracassado”. Josef completou: “Você não pode parar nunca. Tem que estar em constante movimento. Nunca ache que chegou lá”.

Com o tempo, Leon compreendeu que aquela lição não diminuía suas conquistas, mas o incentivava a continuar aprendendo. Também herdou do avô a convicção de que as pessoas podem esquecer detalhes de uma experiência, mas dificilmente esquecem como foram tratadas. Essa visão influenciou sua maneira de liderar: mais do que alcançar resultados, acredita que um líder deve ajudar as pessoas a reconhecer seu potencial e confiar na própria capacidade.

Para Leon, o legado se assemelha a uma prova de revezamento: cada geração recebe um bastão, acrescenta sua contribuição e o entrega à seguinte. Hoje, deseja transmitir às duas filhas os valores que recebeu da família: dedicação, respeito, coragem e disposição para aprender continuamente. Mais do que as conquistas profissionais, espera deixar nas pessoas a confiança para enfrentar desafios e construir seus próprios caminhos.

Livro recomendado: Em busca de sentido, de Viktor E. Frankl (Editora Vozes).

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