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Informação e análise

Sinal vermelho

Crime organizado avança na administração pública. Rio é a melhor tradução da liquefação política

Por José Casado Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 17 abr 2026, 06h00 | Atualizado em 17 abr 2026, 10h00
  • Cabedelo é uma cidade singular da periferia de João Pessoa: 70 000 pessoas habitam aquele areal estreito, com apenas 3 quilômetros de largura, que se estende por 18 quilômetros até ser engolido pelo Atlântico. Foi porto importante para o capitão Frutuoso Barbosa garantir a conquista da Paraíba em expedições armadas (de 1583 a 1587) para a Coroa portuguesa. Agora é relevante para a franquia nordestina do Comando Vermelho exportar cocaína às máfias da distribuição na África e na Europa.

    No domingo ensolarado do último dia 12, a cidade elegeu seu novo prefeito. Edvaldo Neto, presidente da Câmara Municipal, recebeu seis de cada dez votos válidos. Ele governava Cabedelo desde a época do Natal, quando a Justiça cassou os mandatos do então prefeito André Coutinho e da vice Camila Holanda. Foram acusados de entregar cargos e contratos públicos à Tropa do Amigão, grupo mafioso local que integra a rede nacional do Comando Vermelho.

    Neto ainda celebrava a vitória dois dias depois da eleição, na terça-­feira, quando uma força-tarefa policial apresentou ordem judicial para afastá-lo do cargo com outros treze servidores. Como o antecessor, o prefeito recém-eleito foi acusado de fraudar licitações públicas (270 milhões de reais) para contratar empresas de aluguel de mão de obra vinculadas à franquia local do Comando Vermelho. Todos negam tudo.

    Cabedelo é o novo exemplo do avanço do crime organizado na administração pública. Situação similar já foi documentada pela Polícia Federal em 28 dos 184 municípios do Ceará. Alguns dos mais votados parlamentares do estado estão sob suspeita de fraude de quase 500 milhões de reais. Usaram emendas ao Orçamento federal para contratar empresas das franquias cearenses do Comando Vermelho.

    Não é uma peculiaridade nordestina. Basta olhar para o Sudeste, às margens da Baía de Guanabara. A Assembleia Legislativa e o governo do estado do Rio estão interditados há cinco meses, desde a prisão de um chefe político regional ligado ao Comando Vermelho.

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    “Crime organizado avança na administração pública. Rio é a melhor tradução da liquefação política”

    Rodrigo Bacellar estava na presidência da Assembleia em dezembro quando foi preso. Na sequência, 42 dos 70 deputados votaram para soltá-lo, em desafio à decisão judicial. Teve o mandato cassado e foi preso novamente no mês passado. Bacellar decidiu não renunciar à presidência da Alerj, aonde chegou eleito por unanimidade.

    Criou uma crise e embaralhou a política estadual, em evidente manobra para manter influência em áreas-chave do governo e na sucessão do governador Cláudio Castro, de quem havia sido principal assessor e aliado. Castro foi condenado por ter modificado leis estaduais para legitimar obscuras transações sob supervisão direta de Bacellar, seu antigo secretário. Renunciou ao mandato para escapar da cassação, mas pode ficar inelegível.

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    Uma delas foi a contratação de 27 600 cabos eleitorais, disfarçados de prestadores de serviços autônomos. Aconteceu durante a campanha eleitoral de 2022, quando Castro disputava a reeleição ao governo estadual. O repórter Ruben Berta revelou a fraude na época. Recentemente, a relatora do caso na Justiça Eleitoral, Isabel Gallotti, chamou atenção para a “extraordinária quantia” de saques de dinheiro em espécie em Campos (RJ). “Foram mais de 200 milhões de reais sacados na boca do caixa por uma mesma pessoa em uma única agência daquela cidade, reduto eleitoral de Rodrigo Bacelar, à época dirigente da Secretaria de Governo” — comentou a juíza. “Esse volume atípico de saques na boca do caixa levou o Bradesco a monitorar ordens bancárias de pagamento e alertar o governo do Estado do Rio, manifestando apreensão.”

    A galeria da confusão estadual mostra cinco governadores presos, o sexto derrubado por impeachment, o último condenado e agora pode ser cassado. A confusão inclui um deputado federal e seu irmão, ex-conselheiro do Tribunal de Contas. Eles comandavam a milícia de Rio das Pedras e foram condenados a 76 anos de cadeia por mandar assassinar a vereadora Marielle Franco e o motorista Anderson Gomes. Em torno deles aparecem quinze deputados estaduais afastados ou presos nos últimos oito anos — entre eles, três presidentes da Assembleia. Em breve, haverá mais gente no grupo: 32 dos 70 deputados estaduais estão sob investigação por receberem “mesadas” dos donos de bancas de jogos, disse o juiz Gilmar Mendes na semana passada numa sessão do Supremo Tribunal Federal.

    O Rio, hoje, é a melhor tradução da liquefação política brasileira.

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    Os textos dos colunistas não refletem, necessariamente, a opinião de VEJA

    Publicado em VEJA de 17 de abril de 2026, edição nº 2991

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