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Letra de Médico

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O custo mental de dizer ‘sim’ quando deveríamos dizer ‘não’

Não é pouca coisa passar por cima de suas necessidades, negar conflitos internos e levar a vida como se isso não fosse um problema

Por Luiz Alberto Hetem* 22 Maio 2026, 11h05 | Atualizado em 25 Maio 2026, 11h20

“O que custa?” Já se fez essa pergunta ou ela já lhe foi feita por alguém? Muito provavelmente, sim. Pois então, o “preço” pode ser alto. E também o “peso” desse posicionamento é muito maior do que se imagina. Caso não se diga “não” às solicitações abusivas – ou mesmo ao excesso de pedidos razoáveis –, e não nos conscientizarmos do quanto é importante dizer “não” às propostas recorrentes para se fazer mais e mais coisas, ainda que sejam de nosso interesse, o risco de um esgotamento é real. 

O medo de desagradar – e, consequentemente, de ser rejeitado – talvez seja o maior motivador de se dizer “sim” quando, na verdade, deveríamos dizer “não”. Mas ele não é o único. Outros dignos de nota são: crenças de como devemos nos comportar para melhor nos adaptarmos ao mundo como o vemos; satisfação – sempre transitória – por ajudar; medo de machucar as pessoas; receio de parecer egoísta; baixa autoestima e amor-próprio deficiente; falta de assertividade e sentimento de culpa. O pior é que eles não são excludentes; mais de um pode estar por trás do ‘sim’ que sai no lugar do ‘não’ que gostaríamos de ter dito. 

O “sim” fácil de quem não coloca nem respeita seus limites ameniza o sofrimento decorrente dos motivos que citei acima, mas causa outro tipo de sofrimento, mais arrastado e pernicioso, que decorre de um custo energético alto. Não é pouca coisa passar por cima de suas necessidades, negar conflitos internos e levar a vida como se isso não fosse um problema.

Fato é que, convencida de que deixar o outro feliz é mais importante que cuidar de si, a pessoa desconsidera suas próprias necessidades e, com o passar do tempo, esgota suas reservas e entra em falência. Em contrapartida, o “não” bem colocado é fator de proteção contra o esgotamento, é um ato de autocuidado, de gestão emocional e de responsabilidade para com o próprio corpo.

Em síntese, dizer “não” não é egoísmo, é autoconhecimento e autorregulação. Não é fraqueza, é inteligência emocional e conexão consigo mesmo. E não é simples recusa, é escolha consciente do que lhe parece melhor.               

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Pronto. Acabou? Não, infelizmente não. A coisa pode se complicar – e muito. A incapacidade de dizer “não” pode contribuir para o desenvolvimento de um transtorno mental, mas, que fique claro, não é condição suficiente nem necessária para isso. Os transtornos mentais têm origem multifatorial, ou seja, decorrem de vários fatores para o seu desenvolvimento e a sua manutenção: genéticos, ambientais, interação entre a genética e o meio ambiente, abusos na infância e ainda estresses agudos, crônicos ou recorrentes. 

Não é raro escutar de pacientes com depressão e transtorno de pânico, por exemplo, que não saberem dizer nem sustentar um “não” – e o acúmulo de tarefas, de frustrações e de abusos relacionados à não demarcação clara dos seus limites – colaborou na gênese do problema. 

Também alguns casos de transtorno de estresse pós-traumático –  principalmente os secundários a episódio de violência doméstica, a acidente trágico e a estupro – ocorrem em contexto de silêncio emocional, de falha em demarcar limites e de dificuldade de se afirmar, de dizer “basta!” e sustentar um “não” a tempo, se isso fosse possível, antes da escalada de eventos que culminou no trauma maior. 

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A boa notícia é que, da mesma forma que se pode aprender um idioma estrangeiro, independentemente da idade, é perfeitamente possível desenvolver e tornar-se fluente na habilidade de dizer “não”.

*Luiz Alberto Hetem é médico especialista em psiquiatria, doutor em saúde mental e autor do livro “Diga Não! Estabeleça e defenda seus limites”

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