Oferta Dia dos Pais: Receba 4 Revistas em casa por 32,90
Imagem Blog

Letra de Médico

Materia seguir SEGUIR Seguindo Materia SEGUINDO
Orientações médicas e textos de saúde assinados por profissionais de primeira linha do Brasil

O elevado preço da jornada de trabalho para o corpo e a saúde

Em 2025, Brasil registrou 4,1 milhões de concessões de benefícios por incapacidade temporária; adoecimento mental e dores na coluna lideram

Por Guilherme Henrique Porceban* 26 mar 2026, 08h00
O elevado preço da jornada de trabalho para o corpo e a saúde Priorizar nos meus resultados Google

A discussão sobre a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 8/2025, que propõe o fim da escala 6×1, costuma ser intencionalmente reduzida a impactos econômicos, ocultando seu efeito devastador sobre a saúde. Sob a ótica clínica e biomecânica, o modelo de seis dias de trabalho para um de descanso é anatomicamente insustentável. Essa jornada atua como um vetor de desgaste físico e mental, roubando anos de vida com qualidade justamente da parcela mais vulnerável da população.

Os indicadores de 2025 refletem o colapso físico da força de trabalho. O Brasil registrou 4,1 milhões de concessões de benefícios por incapacidade temporária, um crescimento de 18% em relação a 2024 e mais de 100% em relação a 2020. Desse total, a dorsalgia (dor na região da coluna) gerou mais de 237 mil afastamentos prolongados, hérnias de disco 208 mil afastamentos, enquanto o adoecimento mental explodiu para mais de 534 mil casos.

Essa sobreposição é mutuamente agravante, pois a dor crônica reduz a mobilidade, compromete o sono e cria um ciclo de incapacidade que frequentemente evolui para ansiedade e depressão severa.

A explicação para isso é fisiológica. O disco intervertebral, maior estrutura sem vasos sanguíneos do corpo, exige repouso e alívio de carga para se recuperar. Ao submeter o trabalhador a seis dias ininterruptos de compressão, com uma única folga que frequentemente consumida pelo trabalho doméstico, impede-se a recuperação dessa estrutura.

Continua após a publicidade

Como consequência, disco desidrata, o anel fibroso se rompe, levando a formação da hérnia de disco e, consequentemente da dor. Em paralelo, a privação de descanso mantém o organismo sob níveis tóxicos de cortisol, provocando aumento do estresse e sintomas depressivos, fazendo com que a pessoa perca o prazer de viver e passe a operar no piloto automático.

Como se não bastasse, depois de adoecer, o trabalhador ainda ouve que precisa melhorar o estilo de vida, descansar mais e fazer atividade física. Tecnicamente correto, socialmente alienado.

Continua após a publicidade

Discutir prevenção sem considerar a jornada que produz o adoecimento faz a orientação médica soar como cinismo social. O médico sabe o que ajudaria, mas esbarra na realidade concreta de uma população sem tempo, sem energia e sem margem de escolha.

O custo imediato do fim desse modelo vai muito além dos valores expressos em planilhas patronais, considerando que a existência desta jornada sequestra anos de vida saudável da população trabalhadora. E não é exagero retórico. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), a dor lombar é uma das principais causas de perda de anos de vida saudável no Brasil, medida pelo indicador DALY.

Continua após a publicidade

Em termos simples, um DALY equivale a um ano de vida saudável perdido. O DALY de uma determinada doença em uma população é a soma do tempo perdido por todos que a possuem naquela população, ou seja, no caso do Brasil, 210 milhões de pessoas. Assim, as dores na coluna e hérnias roubam da população até 2,5 milhões de anos de vida saudável todo ano. Na prática, isso equivale a dizer que 2,5 milhões de pessoas passaram um ano inteiro sofrendo com dor e limitações; ou então que 5 milhões de pessoas passaram seis meses nessa situação de incapacidade e assim por diante.

É óbvio que nem toda dor lombar vem da escala 6×1. Mas também é óbvio que essa jornada exaustiva contribui muito para prevalência dessa patologia. Se cerca de um terço da população trabalhadora está submetida a essa jornada, é perfeitamente razoável estimar, de forma conservadora, que 1 milhão de DALYs por ano tenha relação direta com esse modelo.

Continua após a publicidade

Se cada trabalhador gera, em média, algo em torno de R$ 100 mil por ano em produtividade, estamos falando de uma perda potencial de R$ 100 bilhões anuais só em produtividade desperdiçada por adoecimento ligado ao trabalho. Isso sem contar custos diretos, com o Sistema Único de Saúde (SUS), previdência, reabilitação, medicação e afastamentos prolongados.

O setor produtivo argumenta que o fim da escala custaria R$ 122 bilhões, mas ignora o custo sanitário e o desperdício de impor uma rotina biologicamente impraticável. Até porque esse custo irá impactar o bolso patronal, enquanto que os prejuízos da existência dessa jornada é rateado por toda sociedade.

Continua após a publicidade

Defender a aprovação da PEC 8/2025 não é uma questão ideológica, mas um avanço civilizatório e suprapartidário. Tratar o corpo humano como peça descartável e depois fingir surpresa com o colapso é irracional. Por isso, é preciso atenção àqueles que rotulam a mudança como inviável ou se posicionam contra ela, já que essa postura revela como enxergam a vida de quem sustenta a economia do país.

*Guilherme Henrique Porceban é médico ortopedista graduado pela USP, com especialização em cirurgia da coluna e mestrado em Cirurgia Translacional pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Faz parte do corpo clínico do Einstein Hospital Israelita Albert e do HCor

Publicidade

Matéria exclusiva para assinantes. Faça seu login

Este usuário não possui direito de acesso neste conteúdo. Para mudar de conta, faça seu login

Banner laranja com texto OFERTA RELÂMPAGO em amarelo e branco, ao lado de Você pediu, a gente ouviu! em branco. À direita, capas de revistas e um celular com tela ligada, e um ícone de árvore à esquerda.Banner laranja com texto OFERTA RELÂMPAGO em amarelo neon, acompanhado de um raio. Abaixo, Você pediu, a gente ouviu!. À direita, capas de revistas: SUPER com um copo de milk-shake, VEJA com paisagem e MUNDO ESTRANHO com carros. Um ícone de árvore estilizada no canto superior direito
OFERTA RELÂMPAGO

Digital Básico

A notícia em tempo real na palma da sua mão!
Chega de esperar! Informação quente, direto da fonte, onde você estiver.
De: R$ 14,99/mês Apenas R$ 2,99/mês
OFERTA RELÂMPAGO

Revista em Casa + Digital Premium

Receba 4 revistas de Veja no mês, além de todos os benefícios do plano Digital Completo (cada revista sai por menos de R$ 10,00)
De: R$ 59,99/mês
A partir de R$ 29,90/mês

*Acesso ilimitado ao site e edições digitais de todos os títulos Abril, ao acervo completo de Veja e Quatro Rodas e todas as edições dos últimos 7 anos de Claudia, Superinteressante, VC S/A, Você RH e Veja Saúde, incluindo edições especiais e históricas no app.
*Pagamento único anual de R$23,88, equivalente a R$1,99/mês. Após esse período a renovação será de 118,80/ano (proporcional a R$ 9,90/mês).