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Os problemas de saúde que o El Niño pode piorar

Fenômeno climático, que pode ser mais intenso neste ano, está associado a agravamento de alergias e asma

Por Fátima Rodrigues Fernandes* 20 abr 2026, 07h32 | Atualizado em 20 abr 2026, 10h31
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Eventos climáticos como o El Niño não são apenas fenômenos oceânico-atmosféricos distantes: eles têm impacto direto sobre a saúde da população. Ao alterar padrões de temperatura, umidade e regime de chuvas, o El Niño modifica profundamente o ambiente ao qual estamos expostos — e isso se reflete no aumento de sintomas alérgicos e exacerbações de asma.

Um dos principais mecanismos envolve o aumento das temperaturas médias e a maior frequência de eventos extremos. O calor e a instabilidade climática favorecem a formação e dispersão de poluentes atmosféricos, como material particulado e ozônio, que têm efeito inflamatório direto nas vias aéreas. Esses poluentes aumentam a permeabilidade da mucosa respiratória, facilitando a entrada de alérgenos e intensificando a resposta inflamatória.

Além disso, mudanças no regime de chuvas e na umidade influenciam a concentração de aeroalérgenos. Períodos mais quentes e úmidos podem prolongar a estação de polinização e aumentar a carga de pólen no ar. Já chuvas intensas e tempestades podem fragmentar partículas de pólen em frações menores, capazes de penetrar mais profundamente nas vias aéreas — fenômeno associado a crises de asma.

Outro aspecto central — e muitas vezes subestimado — é o impacto das inundações, mais frequentes durante eventos de El Niño. Ambientes alagados e úmidos favorecem a proliferação de fungos e ácaros, dois dos principais gatilhos de doenças alérgicas. Após enchentes, residências frequentemente apresentam aumento significativo de mofo em paredes, móveis e sistemas de ventilação, elevando a exposição a esporos fúngicos inaláveis. Esses microrganismos têm alta capacidade de induzir inflamação das vias aéreas e exacerbar tanto rinite quanto asma.

As inundações também alteram profundamente a microbiota ambiental e humana. A perda de biodiversidade microbiana e a exposição a microrganismos ambientais atípicos favorecem estados de disbiose e desregulação imunológica, com impacto direto na integridade das barreiras epiteliais e na resposta inflamatória. Esse desequilíbrio aumenta a suscetibilidade a doenças alérgicas e pode contribuir para maior gravidade dos quadros clínicos.

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Eventos extremos associados ao El Niño — como ondas de calor, queimadas e secas — também pioram a qualidade do ar. A exposição a esses fatores está relacionada ao aumento de exacerbações de asma, maior uso de medicações de resgate e crescimento das hospitalizações, especialmente em populações vulneráveis, como crianças e idosos.

Por fim, o El Niño atua como um verdadeiro “amplificador” de riscos ambientais. Ele não cria as doenças alérgicas, mas intensifica os fatores que desencadeiam e agravam essas condições: poluição, aeroalérgenos, calor extremo, umidade excessiva e alterações da microbiota. Em um cenário de mudanças climáticas globais, esses eventos tendem a se tornar mais frequentes e intensos.

Compreender essa relação é essencial para antecipar riscos, orientar pacientes — especialmente após períodos de chuva intensa e enchentes — e reforçar medidas de controle ambiental, como ventilação adequada, redução de umidade e manejo de mofo domiciliar. Trata-se de incorporar, definitivamente, a variável climática à prática clínica e à prevenção das doenças alérgicas.

*Fátima Rodrigues Fernandes é pediatra e presidente da Associação Brasileira de Alergia e Imunologia – ASBAI

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