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Por que o câncer se transformou em doença crônica

Novas terapias aumentam sobrevida, melhoram a qualidade de vida e já permitem falar em cura em parte dos casos

Por Paulo Hoff 8 abr 2026, 09h56
Por que o câncer se transformou em doença crônica Priorizar nos meus resultados Google

Para qualquer pessoa, saber que está com um câncer metastático é impactante. Afinal, num passado recente, esse diagnóstico era considerado uma sentença de morte — poucos indivíduos sobreviviam mais do que cinco anos após a descoberta da doença. No entanto, nas últimas duas décadas, essa realidade mudou. O avanço nos tratamentos contribuiu para aumentar o tempo e a qualidade de vida de muitos pacientes vivendo com metástase.

O arsenal terapêutico ganhou estratégias diferentes para abordar a doença. A começar pelo tratamento sistêmico, que deu um grande salto com a incorporação de medicamentos sofisticados, como os anticorpos monoclonais, as drogas-alvo, os anticorpos associados à quimioterapia e, mais recentemente, a imunoterapia.

Mesmo quando é difícil ressecar o tumor e as metástases, essas novas classes de medicamentos oferecem a possibilidade de controlar a enfermidade de maneira eficaz por um longo período. Em muitos casos, viabilizam até a cura.

O câncer de pulmão metastático é um exemplo. A doença é considerada difícil de tratar, mas, se o paciente tiver alterações moleculares específicas, como a mutação no gene EGFR, basta tomar uma pílula periodicamente para manter a neoplasia sob controle por muitos anos.

Os tratamentos locais também receberam um impulso adicional. A situação mais emblemática é a do câncer de cólon com metástase no fígado. Há 30 anos, essa neoplasia era considerada incurável, e os pacientes tinham uma sobrevida muito curta — no máximo, um ano.

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Hoje, se a doença estiver sob controle com o tratamento sistêmico, é possível remover o tumor e as metástases, abrindo uma perspectiva de cura para muitos pacientes. Estamos avançando a tal ponto que, em alguns países, o transplante de fígado é oferecido para pessoas com a doença controlada por quimioterapia que não têm a possibilidade de ressecção. Essa oferta já ocorre na França, na Noruega e nos Estados Unidos.

O Instituto Nacional do Câncer de Rockville, nos Estados Unidos, estima que o contingente de pessoas com a doença metastática vem crescendo. Em 2018, havia 623.405 norte-americanos com câncer avançado de mama, próstata, pulmão, colorretal, bexiga e pele (melanoma). Esses são os seis tumores mais comuns naquele país. Em 2025, esse número saltou para 693.452 indivíduos.

Os pesquisadores do instituto estimaram que quase 30% das pessoas diagnosticadas com melanoma metastático e um quinto daquelas com diagnóstico de câncer colorretal e de mama metastáticos viveram dez anos ou mais com essa condição.

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Outro dado interessante é a queda da mortalidade por câncer, que, nos últimos 30 anos, está por volta de 2% a 3% ao ano. É certo que o declínio está associado ao diagnóstico precoce, que melhora o prognóstico. Mas também está ligado ao aumento da sobrevida por meio do tratamento sistêmico e à possibilidade de cura dos pacientes com metástase — algo muito raro até pouco tempo. O fato é que a promessa de cronificação do câncer metastático é hoje uma realidade e que, num futuro próximo, teremos cada vez mais casos de cura da doença.

Paulo Hoff é médico oncologista, presidente da Oncologia D’Or, professor titular da Disciplina de Oncologia Clínica do Departamento de Radiologia e Oncologia da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP) e membro pregresso do Conselho Diretor da ASCO

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