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Quando a comunicação adoece a decisão em saúde

Entre ruído e desinformação, pacientes passam a hesitar vacinas, adotar terapias sem evidência e postergar cuidados essenciais

Por Luana Araújo 29 abr 2026, 14h19 | Atualizado em 29 abr 2026, 19h08
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Toda prática médica começa — e depende — de uma conversa. A relação entre médico e paciente sempre foi, antes de tudo, um exercício de tradução: transformar evidência científica em orientação compreensível e sintomas em narrativa clínica. Dessa troca nasce o diagnóstico, o plano terapêutico e, sobretudo, a adesão. Quando essa comunicação funciona, ela não apenas informa — ela protege e promove saúde.

Entretanto, essa relação, historicamente ancorada na confiança e na clareza, hoje cede espaço a um ambiente informacional caótico. O paciente já não chega ao consultório apenas com sintomas, mas com versões conflitantes sobre sua própria condição, frequentemente construídas fora do sistema de saúde. E isso muda tudo. A decisão clínica deixa de ser apenas técnica e passa a ser também uma negociação com crenças multidimensionais moldadas por informações de qualidade desigual.

A comunicação ineficaz — seja por falhas em formar profissionais capazes de tornar a informação acessível, seja pela incapacidade do sistema em dialogar com a realidade das pessoas — tem consequências diretas: menor adesão a tratamentos, abandono de terapias eficazes, sedução por intervenções incoerentes e de alto risco, resistência à vacinação e atrasos na busca por atendimento. O que antes se via pontualmente, no entanto, hoje afeta gravemente o coletivo.

Isso acontece porque a maior parte das decisões em saúde não ocorre no consultório — e, pior, pressiona o que acontece dentro dele. Elas são moldadas fora dali, em redes sociais, aplicativos, grupos de mensagens e buscas online. Nesse ambiente, a qualidade da informação varia enormemente, e a capacidade de interpretá-la — a chamada literacia em saúde — torna-se um fator decisivo. Quando essa capacidade é baixa, a vulnerabilidade a conteúdos enganosos, simplificações perigosas e promessas irreais aumenta exponencialmente.

A percepção de risco sofre distorções profundas. Pessoas passam a temer eventos raros e negligenciar ameaças óbvias e relevantes. Vacinas são vistas como perigosas, enquanto doenças evitáveis e historicamente perversas são banalizadas. Sintomas graves são subestimados; intervenções sem eficácia comprovada ganham credibilidade. Esse desalinhamento entre risco real e comportamento individual tem efeitos acumulativos — e essa mudança do vetor da confiança, em saúde pública, nunca é neutra.

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A tecnologia tem amplificado esse cenário. Plataformas digitais e algoritmos não foram desenhados para promover informação de qualidade, mas para maximizar atenção e engajamento. Comunicar deixa de ser sobre veracidade de conteúdo, mas sobre desenvoltura e exploração emocional. A inteligência artificial, ao reduzir drasticamente o custo de produção de conteúdos convincentes, acelera o processo e tende a reforçar iniquidades. O resultado é um ambiente em que a desinformação não é mais exceção, mas parte estrutural do sistema.

Esse quadro tem implicações especialmente graves para riscos infecciosos. Doenças transmissíveis dependem de comportamentos coletivos: vacinação, isolamento quando necessário, adesão a medidas preventivas. Quando a comunicação falha, esses comportamentos se fragmentam: a hesitação vacinal se expande, a adesão a tratamentos diminui e a resposta a emergências sanitárias se torna descoordenada. Em um mundo interconectado, isso cria as condições ideais para a reemergência de doenças controladas e para o surgimento de novas ameaças.

Diante disso, a resposta deve ser unificada. Indivíduos precisam ser apoiados para desenvolver capacidade crítica e navegar melhor a informação em saúde. Profissionais e instituições científicas devem comunicar com mais clareza, integridade, transparência e empatia, reconhecendo que evidência só produz impacto quando é confiável e compreendida. O setor de tecnologia precisa assumir responsabilidade sobre os efeitos de seus modelos de negócio e incorporar mecanismos que priorizem qualidade e segurança da informação. E gestores públicos e legisladores devem tratar a informação em saúde como infraestrutura essencial, investindo em educação, regulação e estratégias que alcancem a população onde ela está.

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No fim, ironia do destino, tudo retorna ao ponto de partida: todos os atores precisam se comunicar. Aquela conversa inicial, entre médico e paciente, continua sendo o núcleo do cuidado. Mas, hoje, ela não está mais isolada. Está inserida em um ecossistema informacional complexo, que pode reforçar ou corroer tudo o que se constrói ali. Proteger essa comunicação é, cada vez mais, proteger a saúde coletiva – é uma tarefa de todos nós.

Luana Araújo é infectologista, membro e presidente do comitê científico de saúde única da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI) 

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