Como funciona a preparação das goleiras do Bahia
André Cainã explica trabalho além da técnica: envolve leitura, decisão, coragem e análise das adversárias
O Bahia está na semifinal do Brasileirão Feminino e é o primeiro clube nordestino a chegar a essa etapa da competição. Nesta sexta-feira, depois de empatar por 1 a 1 com o Palmeiras no tempo regulamentar, as Mulheres de Aço venceram a disputa por pênaltis por 5 a 4 e avançaram de forma inédita à próxima fase. A goleira Yanne Lopes voltou a ser decisiva: depois de defender a cobrança de Bia Zaneratto no jogo de ida, a goleira parou o pênalti de Tainá Maranhão na decisão em Barueri. O resultado colocou o trabalho da camisa 12 novamente no centro das atenções e evidenciou a importância da preparação para as penalidades.
Para entender melhor como é feito o trabalho com as goleiras do Bahia, a VEJA conversou com André Cainã, preparador de goleiras do clube. Atualmente, o elenco das Mulheres de Aço conta com Yanne Lopes, Isa Cruz, Mary Camilo, Júlia Kerolyn e a Maysa Helena.
Aos 31 anos, o profissional, que também teve carreira como goleiro, explicou a metodologia de treinamento, a preparação para as cobranças de pênaltis, a evolução das goleiras no futebol feminino, a importância da coragem para a posição e o desenvolvimento de Yanne Lopes.
VEJA – Como você começou no futebol e chegou ao trabalho de preparação de goleiras?
André Cainã – Tenho 31 anos, sou formado em Educação Física e tenho pós-graduação em futebol e futsal. Também tenho a licença da CBF Academy de treinamento de goleiros. Eu fui goleiro e parei de jogar em 2014, no São José, e em 2015 já comecei a trabalhar como preparador de goleiros no São Bernardo.
VEJA – Como foi sua trajetória até chegar ao Bahia?
André Cainã – Comecei no São Bernardo, em 2015, depois fui para o Rio Claro, em 2016, Grêmio Mauaense, em 2017, e União Barbarense, em 2018. No fim de 2018, fui para o Corinthians. Meu primeiro contato com o futebol feminino foi em 2021, quando recebi o convite do Edson e da Cris. Trabalhei com a Dani Alves, ganhamos o Sub-16 de forma invicta, a Fernanda foi a goleira menos vazada e depois foi convocada para a Seleção Brasileira. Depois voltei para o futebol masculino. Saí do Corinthians no fim de 2022, passei pelo Audax em 2023 e, em setembro de 2023, fui para o América.
VEJA – E como foi a chegada ao futebol profissional e, depois, ao Bahia?
André Cainã – No (futebol feminino do) América Mineiro, trabalhei no profissional em 2024 e 2025. Em 2026, vim para o Bahia.
VEJA – Sua metodologia de trabalho mudou ao longo dos anos?
André Cainã – Sim. No começo, eu era muito tecnicista, muito analítico em relação à parte física e técnica. Hoje, trabalho muito mais dentro de um modelo de jogo sistêmico e contextual. Eu estudo muito o adversário e tento fragmentar os treinamentos de acordo com as ações que o adversário pode apresentar no jogo.
VEJA – Como você avalia a estrutura do Bahia para o futebol feminino?
André Cainã – O Bahia é muito organizado, tem uma estrutura muito boa e dá muito suporte ao futebol feminino. A gente utiliza a mesma cozinha e a mesma cafeteria do profissional masculino, por exemplo. Os departamentos são separados, mas a estrutura que o Bahia oferece me impressionou bastante.
VEJA – Na sua avaliação, como evoluiu o trabalho com goleiras no futebol feminino?
André Cainã – A evolução vem acontecendo principalmente por causa da profissionalização. Hoje existe muito mais acesso a conteúdo, a informação e a treinamentos mais modernos para goleiras. Também existe uma compreensão maior de que a goleira precisa entender o contexto do jogo e que a atleta precisa ser tratada como pessoa, para além do jogo.
VEJA – O jogo com os pés ganhou uma importância ainda maior para as goleiras?
André Cainã – Com certeza. O trabalho de pés é fundamental. Eu vejo que, no futebol feminino, principalmente na Série A1, a goleira pode participar ainda mais da primeira fase de construção do que no futebol masculino. Isso acaba criando uma vantagem tática para a equipe.
VEJA – Como é o trabalho diário com as goleiras do Bahia?
André Cainã – O trabalho vai muito além do gesto técnico. A gente tenta criar situações caóticas, parecidas com o que acontece no jogo, para que elas tenham que tomar decisões. Trabalhamos em meio campo, com muitas bolas acontecendo ao mesmo tempo, para estimular essa tomada de decisão. Também existe o trabalho de força e potência na academia. Eu auxilio o Felipe (Freitas, treinador do Bahia), estudo muito o jogo, faço análise em vídeo, dou feedback e estudo o adversário, os padrões de jogo e as bolas paradas. Também trabalhamos pênaltis e situações específicas de cada adversário.
VEJA – Quais ferramentas você utiliza para analisar os adversários?
André Cainã – Uso o Wyscout para buscar material e o Sports Coder, que tem uma parceria com o Grupo City e com o Randle, para fazer os cortes de vídeo e os desenhos. Também utilizo as animações.
VEJA – Qual é a principal característica mental que você procura desenvolver em uma goleira?
André Cainã – Coragem. Eu tento potencializar muito isso, principalmente na Yanne. A goleira precisa ter coragem para controlar a profundidade, para jogar para frente. Quando elas erram, a responsabilidade é minha. Eu tento dar essa segurança para elas. O gesto técnico você consegue ensinar. A coragem é um desafio muito maior.
VEJA – Como você trabalha com goleiras de idades e experiências diferentes?
André Cainã – Costumamos dizer que as mais novas chegam com o copo vazio, então é mais fácil inserir informações. A Mary Camilo, que tem 29 anos e vai fazer 30, traz a experiência de Corinthians, Botafogo, Cruzeiro e Libertadores. As mais novas têm muita vontade de aprender. A gente vê exemplos de goleiras mais velhas e também de goleiras que começaram muito novas, como a Tainá, que começou com 17 anos. O objetivo é estimular, dar minutos e desenvolver essas atletas para o Bahia ou para futuros clubes.
VEJA – Como funciona a preparação específica para as cobranças de pênaltis?
André Cainã – A gente treina pênaltis com frequência desde o começo do ano. Existem especialistas e a leitura é fundamental. Eu diria que 95% a 99% das ações da goleira começam pela leitura. Eu dou alguns gatilhos, mas a decisão final é delas. A gente observa os padrões das cobranças. Nas últimas 12, por exemplo, seis foram cruzadas, quatro foram abertas e duas foram no meio. A gente analisa o contexto, mas não impõe uma direção.
VEJA – Como você avalia a atuação da Yanne nos pênaltis e, principalmente, o momento que ela vive?
André Cainã – É muito fácil falar da Yanne. Eu converso com todas as goleiras sobre os objetivos delas e sobre o que elas querem. A Yanne é muito aberta aos feedbacks. O grupo é muito unido. A Mary Camilo e a Isa Cruz comemoram as defesas dela. A Yanne representa todo o grupo. A defesa do pênalti contra a Bia Zaneratto é um reflexo de todo o trabalho e de tudo que é feito diariamente. O protagonismo dela não é por acaso. É um talento que é potencializado todos os dias.
VEJA – Você acredita que a Yanne pode receber uma convocação para a Seleção Brasileira?
André Cainã – Particularmente, a minha expectativa existe não por ser a goleira que trabalha comigo, mas por tudo que a Yanne entrega hoje. Eu vejo algumas características que a Yanne tem que são compatíveis com o modelo que a Seleção Brasileira tem atualmente.
O controle de profundidade agressivo dela. Hoje, ela é a goleira com mais coberturas fora da área que nós temos na Série A1 do futebol brasileiro. E a Yanne, se eu não estiver muito enganado, tem 38 coberturas até agora na competição (antes do jogo de volta contra o Palmeiras). É muita cobertura.
É a goleira que mais participa do jogo com os pés, na construção da primeira fase. Seja em uma circulação sem pressão, seja em uma circulação sob pressão, é algo que nós estimulamos muito: que ela tenha coragem para jogar o jogo curto, porque vamos ter vantagem a partir daí.
É uma goleira que faz defesas decisivas. Então, é uma goleira que eu entendo que, pelo comportamento dela, se comunica bem com o grupo e é benquista por todos.
Ela tem, eu acredito, todos os pré-requisitos que a credenciariam a ter uma convocação e mostrar, de fato, para a comissão, in loco, se realmente faz sentido ou não. Acho que oportunizar é um ponto que ela vem construindo não só neste ano, mas desde o ano passado. Ela já vem nesse processo de construção.
E eu converso muito com ela sobre isso, sobre ter a cabeça boa. Hoje, a comissão da Seleção Brasileira tem as suas convicções. Tem boas goleiras, sim, que servem à Seleção, e a gente não pode deixar de enaltecer isso. Nós estamos bem servidos, mas eu acredito que ela pode potencializar isso também.
VEJA – Que conselho você daria para quem quer trabalhar como preparador (a) de goleiras?
André Cainã – Buscar conhecimento constantemente, entender o jogo e criar estímulos para a tomada de decisão. Também é preciso saber gerir pessoas, entender que existem diferenças biológicas e de personalidade entre as atletas. Antes de serem atletas, elas são seres humanos. Você precisa saber como elas estão, inclusive pelo olhar. A gestão talvez seja mais importante do que o próprio treinamento. Os preparadores de goleiras geralmente falam pouco (risos) e é importante que as pessoas saibam o que a gente faz.






