ASSINE VEJA NEGÓCIOS
Imagem Blog

Luiz Gustavo Bichara

Por Luiz Gustavo Bichara Materia seguir SEGUIR Seguindo Materia SEGUINDO
Decifrando o mundo tributário

A interminável saga do imposto seletivo

A morosidade do governo em aprovar a lei que define as alíquotas tem colocado em dúvida quando o novo imposto passará a ser cobrado

Por Luiz Gustavo Bichara 29 jul 2026, 19h10
A interminável saga do imposto seletivo Priorizar nos meus resultados Google

No começo de julho, o Ministro da Fazenda informou que iria se encontrar com representantes dos setores alvo do novo Imposto Seletivo, para discutir a definição das alíquotas do novo tributo. Segundo ele, a intenção é de promover uma “transição suave” entre 2026 e 2027, para que se amadureça o debate sobre a carga tributária para o ano de 2028.

A promessa de manutenção de carga tributária é bem-vinda, por conferir uma mínima garantia de estabilidade, ao menos no curto prazo, a setores que aguardam, desde 2023, a definição sobre o imposto que terão de recolher em decorrência da reforma tributária.

Originalmente, a Reforma propunha o fim do atual Imposto sobre Produtos Industrializados, o IPI, que seria substituído pelo Seletivo. Por pressões ligadas à Zona Franca de Manaus, o IPI foi mantido para alguns produtos, mas estabeleceu-se que não poderia haver incidência simultânea do IPI e do Imposto Seletivo.

Com isso, alguns produtos que, atualmente, são tributados pelo IPI, tal como carros, cigarros, bebidas alcoólicas e refrigerantes, terão esse tributo zerado a partir de 2027. Na teoria, deveriam ser tributados pelo novo Imposto Seletivo, mas a morosidade do governo em aprovar a lei que define as alíquotas do novo imposto tem colocado em dúvida quando o novo imposto passará a ser cobrado.

Continua após a publicidade

A definição dessas alíquotas não é tarefa simples. Apesar do discurso fácil de que a elevada taxação de produtos nocivos à saúde e ao meio ambiente reduziria seu consumo, a realidade não é tão simplista. Aumentar desproporcionalmente o preço dos cigarros e das bebidas alcoólicas, por exemplo, empurra os consumidores para o mercado ilegal – muito mais nocivo. Majorar a tributação de carros e aeronaves não conduzirá, necessariamente à redução da poluição, mas certamente prejudicará o acesso ao transporte. Ainda há o desafio de tributar, com o seletivo, a extração de minério de ferro e de petróleo – uma aberração que não existe em qualquer lugar do mundo – sem prejudicar todas as cadeias produtivas que dependem desses insumos básicos.

Para dificultar ainda mais esse cálculo, a Reforma Tributária estabeleceu regra segundo a qual a arrecadação com os novos tributos deve corresponder à atual arrecadação. Ou seja, a carga tributária dos novos tributos deve se equiparar aos tributos que serão extintos. Esse cálculo é complexo pois, enquanto o Imposto Seletivo é aplicável a um rol reduzido de bens e serviços, a CBS (o novo imposto criado pela Reforma) aplica-se a todos os bens e serviços. Portanto, um Imposto Seletivo reduzido corresponde a um aumento da tributação geral para que se mantenha a arrecadação atual.

Continua após a publicidade

A complexidade desse cálculo não condiz com o atraso do debate do projeto de lei do Imposto Seletivo. O tema, necessariamente, precisa passar pelo Congresso, o que representa uma tarefa inglória para um governo que abusou de medidas tributárias nos últimos anos, especialmente em um ano de eleição.

Por isso, é acertada a posição do representante do governo que, ao invés de buscar um aumento desmedido de arrecadação na tramitação atropelada do projeto de lei do Imposto Seletivo, optará pelo meio termo, com a inicial manutenção da atual carga tributária setorial, antes de avaliar, junto ao Legislativo, a possibilidade de majoração ou redução do tributo sobre os setores tidos como potencialmente nocivos à saúde e ao meio ambiente.

Continua após a publicidade

Um debate democrático desse modelo tributário com Deputados e Senadores permitiria, inclusive, algumas correções a inconsistências do Imposto Seletivo, decorrentes do trâmite açodado dessas discussões no ano passado. Afinal, se há espaço para tributar refrigerantes, certamente há fundamentos mais robustos para tributar, com o imposto seletivo, armas e munições, que causam um dano muito maior à sociedade.

É necessário que o governo e o Congresso retomem discussões mais técnicas e menos emocionais sobre quais bens e serviços devem ser onerados pelo imposto seletivo e qual a carga justa para cada um desses produtos. Uma transição gradual na implementação do novo imposto, com a manutenção inicial da carga atual de IPI para cada setor, parece ser o caminho mais adequado para se chegar a um modelo de imposto que não onere excessivamente setores específicos e viabilize uma tributação seletiva sobre outros itens que merecem esse tipo de desestímulo.

Continua após a publicidade

Publicidade

Matéria exclusiva para assinantes. Faça seu login

Este usuário não possui direito de acesso neste conteúdo. Para mudar de conta, faça seu login

Banner laranja com texto OFERTA RELÂMPAGO em amarelo e branco, ao lado de Você pediu, a gente ouviu! em branco. À direita, capas de revistas e um celular com tela ligada, e um ícone de árvore à esquerda.Banner laranja com texto OFERTA RELÂMPAGO em amarelo neon, acompanhado de um raio. Abaixo, Você pediu, a gente ouviu!. À direita, capas de revistas: SUPER com um copo de milk-shake, VEJA com paisagem e MUNDO ESTRANHO com carros. Um ícone de árvore estilizada no canto superior direito
OFERTA RELÂMPAGO

Digital Premium

O mercado não espera — e você também não pode!
Com a Veja Negócios Digital, você tem acesso imediato às tendências, análises, estratégias e bastidores que movem a economia e os grandes negócios.
De: R$ 24,99/mês Apenas R$ 1,99/mês
ECONOMIZE ATÉ 63% OFF

Revista em Casa + Digital Premium

Veja Negócios impressa todo mês na sua casa, além de todos os benefícios do plano Digital Completo
De: R$ 26,90/mês
A partir de R$ 9,90/mês

*Acesso ilimitado ao site e edições digitais de todos os títulos Abril, ao acervo completo de Veja e Quatro Rodas e todas as edições dos últimos 7 anos de Claudia, Superinteressante, VC S/A, Você RH e Veja Saúde, incluindo edições especiais e históricas no app.
*Pagamento único anual de R$23,88, equivalente a R$1,99/mês. Após esse período a renovação será de 118,80/ano (proporcional a R$ 9,90/mês).