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Blog do economista Maílson da Nóbrega: política, economia e história

Bancos não gostam de juros altos

Eles tendem a ganhar mais quando as taxas estão baixas

Por Maílson da Nóbrega 4 jul 2026, 08h00
Bancos não gostam de juros altos Priorizar nos meus resultados Google

O senso comum diz que os bancos são os maiores ganhadores dos aumentos da taxa de juros do Banco Central (BC), a Selic. É uma afirmação equivocada. Para desmenti-la, há que entender por que o BC eleva essa taxa, que é o instrumento para assegurar a estabilidade dos preços. O objetivo é encarecer o crédito e assim reduzir a demanda de consumo e de investimento, o que promove a convergência da inflação à meta. Os bancos, ao contrário do que se pensa, preferem taxas de juros baixas.

A missão essencial do BC é cumprir aquela meta, evitando assim os efeitos negativos de uma inflação mais alta para as decisões de investir, para a produtividade, para o desenvolvimento da economia e para os menos favorecidos, os pobres. Estes não dispõem de meios para proteger seus rendimentos contra os efeitos corrosivos da alta dos preços. Assim, ao manejar a Selic, o BC não busca beneficiar bancos, mas exercer uma relevante função econômica e social.

Desconhecendo ou desprezando essa realidade, líderes populistas criticam o BC quando este aumenta a Selic ou quando não a diminui para satisfazer seus interesses. Por isso, o banco precisa de independência operacional para decidir sem temer represálias. Aqui, todavia, há quem se oponha a essa independência. Para um líder do PT, o BC deveria levar em conta quem ganhou as eleições, ou seja, seguir ordens do presidente. Barbaridades como essa se tornaram evidentes nas frequentes pressões de Donald Trump para, sem razão, exigir que o Federal Reserve baixasse a taxa de juros. Chamou de “idiota” o ex-presidente da instituição que não o atendeu.

“Juros baixos estimulam o crédito, promovem novas atividades e diminuem perdas por atrasos”

Aqui, as críticas incluem a pesquisa Focus, realizada semanalmente pelo BC para avaliar as expectativas inflacionárias dos agentes econômicos, a exemplo do que se faz mundo afora. Acontece que a ação sobre as expectativas constitui elemento-chave da política monetária. Quando elas ficam desancoradas, o BC age, via Selic, para ancorá-las. Há quem pense que a resposta à pesquisa é uma forma de os bancos forçarem o Banco Central a elevar os juros. Na verdade, a experiência mostra que os economistas ouvidos costumam subestimar as projeções de inflação.

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Seja como for, vale repetir, os bancos não gostam de taxas altas de juros, pois elas acarretam queda do volume de operações e aumentam os riscos de inadimplência e de perdas. Outros negócios são negativamente afetados, como o de abertura de capital das empresas e os que envolvem diversificação de carteiras. O público tende a deslocar suas aplicações para a renda fixa, reduzindo a demanda por outros produtos financeiros. Enquanto isso, taxas de juros baixas estimulam a demanda por crédito, promovem novas atividades e diminuem perdas por atrasos de pagamento, contribuindo para elevar os lucros.

A educação financeira precisa incluir lições sobre o papel do BC no manejo da taxa de juros, crucial para assegurar o equilíbrio macroeconômico, por seu turno fundamental para o crescimento econômico.

Publicado em VEJA de 3 de julho de 2026, edição nº 3002

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