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A superpotência ainda tem gás?

EUA continuam a ter vantagens incomparáveis, mas a guerra é brava

Por Vilma Gryzinski 24 Maio 2026, 08h00

Em 3 de abril de 1973, o engenheiro americano Martin Cooper foi à Sexta Avenida em Nova York, tirou um caderninho de endereços do bolso e fez uma ligação histórica. Chamou seu maior rival, Joel Engel, do Bell Labs da Nokia, para fazer uma provocação: “Estou ligando de um telefone celular. Mas de um telefone celular de verdade, de mão, portátil, pessoal”. Todos sabemos as mudanças que essa ligação desencadeou. O “tijolo”, como os colegas de Cooper chamavam o aparelho de 25 centímetros e 1,1 quilo, merece lugar de honra no grande teatro da inovação, um dos elementos mais fundamentais da transformação dos Estados Unidos na maior superpotência da história.

Com a proximidade dos 250 anos da declaração da independência, aumenta naturalmente o debate sobre o Estado, a sobrevivência e a persistência da hegemonia americana. As críticas não são novidade — aliás, fazem parte do sistema de contestação necessário para manter viva a chama do pensamento livre, outro componente orgânico do projeto desenvolvido por um punhado de peculiares gênios do século XVIII. Enquanto o povão solta fogos no 4 de Julho e hasteia a bandeira no jardim, os comentaristas e intelectuais descem o sarrafo. Muitos exemplos disso foram vistos com a viagem de Donald Trump à China, apresentada como um fracasso humilhante em que não conseguiu resultado algum. Há um certo exagero, alimentado tanto pelo espírito de autoflagelação típico da era woke — não de saudável autocrítica — quanto por resultados realmente fracos. Independentemente das ações do presidente, que tem pela frente apenas mais dois anos e oito meses no poder, os EUA continuam a desfrutar de vantagens incomparáveis, desde a geografia que os contemplou com dois oceanos e recursos naturais luxuriantes, até uma economia de 32 trilhões de dólares, a moeda de troca das transações internacionais, um poderio militar incomparável e uma influência cultural que leva um jovem de um bairro pobre brasileiro a cantar um rap e divulgá-lo através do supercomputador que todos temos hoje ao alcance da mão graças à capacidade de inovação dos americanos. Voltamos assim ao celular, na sua encarnação como smartphone, um dos itens da lista que inclui o próprio telefone, a lâmpada elétrica, o transistor, a internet, o computador pessoal, o caixa eletrônico, o laser e o videogame.

“Com a proximidade dos 250 anos da declaração da independência, aumenta o debate sobre o Estado”

Todos os impérios têm seus ciclos de expansão e declínio, e com os Estados Unidos vai acontecer a mesma coisa, embora de modos difíceis de prognosticar considerando-se o momento revolucionário que vivemos, com a inteligência artificial podendo definir guinadas inimagináveis. Irá a China dar o xeque-mate final? Irão os EUA recuar da posição de hiperpotência global? “A China e os EUA deveriam ser parceiros, em lugar de rivais, ajudando um ao outro a ter sucesso e prosperar juntos”, disse, num discurso que já nasceu histórico, Xi Jinping ao receber Trump. Isso é possível ou ele já tramou tudo para ganhar a batalha da inovação e, um dia, ligar para o presidente americano de plantão para anunciar a vitória, como fez Martin Cooper com o concorrente da Nokia?

Detalhe: aos 97 anos, Cooper atravessou todas as inovações da era high-tech que ajudou a desencadear e construiu uma fortuna de 600 milhões de dólares. Além de trolar a concorrência, ganhar muito dinheiro é o motor da inovação.

Publicado em VEJA de 22 de maio de 2026, edição nº 2996

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