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É para bater palmas para os EUA?

Os 250 anos da independência acontecem num momento de ebulição

Por Vilma Gryzinski 4 jul 2026, 09h00
É para bater palmas para os EUA? Priorizar nos meus resultados Google

Quem imaginaria um prefeito muçulmano marxista em Nova York? E quem imaginaria o extremismo espantoso dos candidatos que ele apoiou para disputar cadeiras na Câmara dos Deputados — com eleição garantida, devido à maioria que o eleitorado dá ao Partido Democrata. Os três candidatos radicais concorrem pelo partido, mas se declaram socialistas democráticos, algo que parece saído de centros acadêmicos das faculdades mais de esquerda do planeta. A mais radical é Darializa Avila Chevalier, filha de imigrantes dominicanos que já morou na Venezuela e na cidade palestina de Nablus, onde se converteu ao islã. Defende a abolição da polícia, das fronteiras e das prisões. Acha que assassinos condenados devem ser devolvidos à comunidade para “refletir” sobre seus atos. Também é contra namoro de homens não brancos com mulheres brancas, a quem chama de “colonialistas feias”. Normalmente, isso seria colocado na conta das excentricidades que a república americana é capaz de absorver, em geral enfrentadas com doações polpudas de instituições financeiras, habilitadas a cooptar qualquer coisa. Alguém se lembra das radicais do Black Lives Matter? Foram todas cooptadas e hoje moram em casas luxuosas.

“O surto de radicalismo chique coincide com a data e as consequentes reflexões sobre o experimento americano”

O surto de radicalismo chique coincide com os 250 anos da independência americana e as consequentes reflexões sobre a natureza do experimento dos Estados Unidos. A crença nos princípios fundadores da nação sempre foi um dos pontos fortes da superpotência: acreditar em si mesmo já é boa parte do caminho para dar certo. A abertura a todas as ideias, com base no princípio de que é melhor ter os absurdos à la Darializa do que qualquer supressão da liberdade de expressão, faz parte do pacote. Os pais da pátria, venerados como semideuses (ou execrados como escravagistas cruéis, nem precisa dizer por quem), também eram jovens audazes. Thomas Jefferson, o autor do texto histórico, tinha 33 anos (um a mais que Darializa). James Madison, 25. Alexander Hamilton, 21. A abertura da declaração é a parte mais conhecida e merecidamente celebrada: “Consideramos estas verdades como evidentes por si mesmas, de que todos os homens são criados iguais, que são dotados pelo Criador de certos direitos inalienáveis, que entre estes estão a vida, a liberdade e a busca da felicidade” (note-se que, em inglês da época, este último direito seria mais próximo do que hoje entendemos como prosperidade).

Depois encadeiam-se os argumentos para justificar a ruptura: sempre que os direitos inalienáveis forem afrontados por alguma forma de governo, “é direito do povo alterá-la ou aboli-la e instituir novo governo”. Segue-se uma lista interminável de defeitos e malfeitos do rei George III que justificavam a ruptura da colônia com a matriz britânica. Os americanos tendem a não ver a ligação entre os ideais dos independentistas e as ideias iluministas clássicas, em especial de John Locke e Montesquieu. Mas a mistura de furor revolucionário e cabeças voltadas para encontrar a forma menos abusiva de governar os homens (“O governo é, na melhor das hipóteses, um empregado petulante, e, na pior, um senhor tirânico”, alertou George Washington) continua a ser um elemento único, digno de aplausos em todos os cantos do mundo. Ela garante até os surtos dos seguidores do socialismo demencial que desponta em Nova York.

Publicado em VEJA de 3 de julho de 2026, edição nº 3002

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