Os números que não alcançamos
Fracasso na matemática mantém o Brasil fora da corrida produtiva
“Não tenho tempo”, anotou Évariste Galois às margens das páginas que escrevia freneticamente antes de enfrentar, no fatídico 31 de maio de 1832, um destino que já parecia escrito. Aos 20 anos, bateu-se em duelo com um atirador renomado, noivo de uma jovem por quem o precoce matemático francês havia se enrabichado. Morreu com um tiro na barriga, deixando como legado a Teoria de Galois e a Teoria dos Grupos, que revolucionaram a álgebra abstrata e influenciaram o mundo dos computadores, que ainda estavam num futuro distante. Virou uma espécie de protótipo do matemático romântico, com equações demais na cabeça e pouco preparo para a vida corriqueira.
A ideia de que lhe faltava tempo se expande para incluir o desempenho lamentável do Brasil na avaliação de matemática do PISA deste ano. Enquanto sentimos vontade de arrancar os cabelos pelos escárnios à nação que emanam de Brasília, os resultados do PISA também são de chorar: o Brasil marcou 377 pontos, ficando no 71º lugar. É uma garantia de que teremos uma força de trabalho despreparada para atender as necessidades do universo produtivo. Note-se que os melhores resultados do PISA de matemática foram obtidos por países que há poucas décadas estavam destruídos por guerras, conflitos civis, atraso e até bombas atômicas, como no caso do Japão, quinto colocado no ranking.
“Os resultados do PISA são de chorar: o país marcou 377 pontos, ficando no 71 º lugar”
Os quatro primeiros todos têm populações chinesas. São eles: China (especificamente as províncias de Pequim, Xangai, Jiangsu, Zhejiang), com 612 pontos; Singapura, com 563 pontos; Macau, 549; Taiwan, 546. Todos fizeram um esforço dirigido para melhorar o ensino, entendido como um motor sem o qual a economia não se desenvolveria. Na China continental, ainda foi necessário enfrentar a insanidade do ensino ideologizado pelo maoísmo, para o qual a matemática teórica era “burguesa”. A favor desses países, pesou o ambiente cultural e tradições milenares de valorização da educação. A China fez o primeiro concurso público da história, há 1 300 anos, criando uma via para a ascensão social por meio do estudo e da meritocracia, em contraposição aos privilégios de berço da aristocracia. Os Exames Imperiais eram dificílimos. A partir de uma certa fase, os candidatos passaram a ser isolados em pequenas celas. A burocracia formada pelos funcionários públicos criou sua própria estrutura de poder — surpresa, surpresa —, encimada pelos mandarins, palavra portuguesa adaptada para identificar os mais influentes.
Os extraordinários avanços da China e das comunidades chinesas não significam preponderância em matemática, ainda vastamente detida pelos EUA. Matemáticos americanos com estudos de destaque somam 1 386 (na França são 232; Alemanha, 224; Reino Unido, 215; China, 162). O Brasil, que tem tradição no ramo, não está mal, com a 19ª posição, num total de 30. O problema é o ensino nas escolas, insuficiente para formar jovens que puxariam o desenvolvimento. “Até quando os pobres jovens serão obrigados a ouvir ou repetir o dia inteiro? Quando terão tempo para refletir sobre essa acumulação de conhecimento?”, perguntou Galois, preocupado com o ensino repetitivo do século XIX. Para nós, o tempo da revolução pacífica do conhecimento de matemática pelo menos básica vai ficando cada vez mais escasso.
Publicado em VEJA de 25 de setembro de 2026, edição nº 3014






