Rogando pragas: alguma dúvida sobre cobertura internacional?
Mais do que divergência ideológica, espírito crítico ou papel de fiscalização do poder, imprensa ignora 57 milhões de votos e cobre posse como tragédia
Deve existir alguma tecla nos computadores de jornalistas estrangeiros pela qual a palavra “Brasil” automaticamente é seguida de “Trump tropical”.
Se o uso de clichês fizesse mal à saúde, haveria uma epidemia de overdose na categoria. Além da repetição interminável, a cobertura dos grandes órgãos de imprensa agora se concentra em destacar tudo que pode – e vai – dar errado no novo governo brasileiro.
Alguns capricham no tom dramático. “Brasil: Jair Bolsonaro, posse sombria”, foi a manchete do Libération.
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Brasileiro é tão bobinho, não? Apesar de todos os horrores descritos pelo jornal francês, para “75% deles, Jair Bolsonaro está no bom caminho”. Ao contrário, obviamente, dos ilustres professores consultados pelo jornal.
Um deles diz que Sérgio Moro, em lugar de provocar um continental suspiro de alívio e de segurança no combate à corrupção, servirá “para dar uma aparência legal a medidas incompatíveis com os direitos humanos”.
No Le Monde, a historiadora Armelle Anders diz que o “Mito” pode se dar mal diante de “realidades como o tamanho do déficit público” e bater de frente com um Congresso muito fragmentado.
São argumentos que até quem nem é historiador consegue captar. A correspondente do Le Monde considera que Bolsonaro “macaqueia a política externa de Trump”.
A posse, diz ela, não é uma “celebração da democracia”, outro clichê imbatível, mas “a vitória da extrema-direita, dos militares, do ceticismo climático e do liberalismo econômico”.
Apesar de todos esses horrores, o novo presidente “é esperado como um messias”. De novo, os brasileiros bobinhos.
Um detalhe: o Le Monde pediu desculpas duas vezes por uma repulsiva capa de sua revista semanal na qual Emmanuel Macron é retratado com tipologia, cores e estilo evocando à Alemanha hitlerista.
O jornal fez muito bem em se desculpar pelo absurdo, embora a certa altura tenha tentado empurrar a culpa para o construtivismo russo.
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Mais ou menos da mesma linha de esquerda, o El País também está desolado: “Nem as ameaças de reduzir ao mínimo os direitos trabalhistas, ignorar a mudança climática, limitar os investimentos em cultura e deixar o país nas mãos do conservadorismo religioso frearam a vitória de Bolsonaro”.
Será que alguns brasileiros votaram nele exatamente por isso? O jornal espanhol não entra nesse campo. Mas chama Bolsonaro, entre outras coisas, de “encantador de serpentes”.
O jornal também acredita que o presidente encena gestos populistas, como comer pão com leite condensado. Será que, secretamente, Bolsonaro degusta trufas da Toscana, usa robe de chambre de seda e lê Joyce (James, não a deputada)?
O correspondente do El País, Tom Avendaño, voltou a Madri, depois de dois anos de uma cobertura crescentemente chocada (“As mulheres também votaram em Bolsonaro, apesar da rejeição feminista” e “Casamentos homossexuais como forma de resistência”).
Deixou uma mensagem encantadora para o colega Juan Arias. “Este país marciano, Juan, vai ficar nas minhas veias por muito tempo, porque aqui desconstruíram tudo o que eu dava por certo e voltaram a me construir, talvez melhor”.
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Que bom seria se a vontade de entender e a capacidade de se espantar com as contradições brasileiras se estendessem à cobertura internacional, arrancando correspondentes dos nichos onde se trancam.
Ou, pelo menos, que aparecesse mais o senso de humor usado pela revista The Economist ao comentar que sua capa sobre a “ameaça Bolsonaro” ficou em primeiro lugar na lista das dez mais lidas do ano.
Nela, a revista instava os eleitores a resistir a Bolsonaro, “mas os brasileiros não deram ouvidos”.
E isso tudo antes de Michelle Bolsonaro usar na posse um vestido de ombros metade de fora, muito parecido com o Carolina Herrera que Meghan Markle usou ao estrear como duquesa de Sussex na sacada do palácio de Buckingham.
Ambas estavam lindas, mas adivinhem quem não vai gostar?







