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A expulsão do capital produtivo

Software institucional do país favorece o rentismo e cria paradoxo

Por Murillo de Aragão 26 jun 2026, 06h00 | Atualizado em 26 jun 2026, 10h43
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O Brasil vive um paradoxo. Em 2025, consolidou-se como o terceiro maior receptor mundial de investimento estrangeiro direto, com 77 bilhões de dólares, alta de 23% sobre o ano anterior. A participação estrangeira na B3 alcançou níveis recordes. À primeira vista, são indicadores de uma economia atrativa. Ao mesmo tempo, mais de duzentas empresas levaram parte de sua produção para o Paraguai — 70% das maquiladoras paraguaias pertencem a brasileiros. Têxteis, calçados, autopeças, metalurgia, plásticos, eletrônicos e, mais recentemente, a agroindústria passaram a produzir do outro lado da fronteira. O investimento produtivo sai; os produtos retornam.

São dois efeitos do mesmo ambiente institucional. O capital financeiro é atraído pelos juros reais elevados e por ativos únicos, como petróleo, mineração, agronegócio e um grande mercado consumidor. Já a indústria, que pode escolher onde produzir, busca países com menor custo operacional. O diferencial paraguaio é conhecido: tributação simples, estabilidade regulatória, energia barata, encargos trabalhistas significativamente menores e incentivos garantidos por longo prazo. A pergunta correta, portanto, não é por que tantas empresas estão migrando, mas por que tantas ainda seguem no Brasil.

“A pergunta não é por que empresas estão migrando para o Paraguai, mas por que tantas seguem no Brasil”

A resposta está em um software institucional construído em décadas. Não se trata de conspiração, mas da combinação de políticas que favorecem o rentismo e desestimulam o investimento produtivo. O primeiro componente são juros reais persistentemente elevados, consequência da fragilidade fiscal. Emprestar ao governo tornou-se mais rentável e menos arriscado do que investir em produção. O segundo é a complexidade tributária. Embora necessária, a reforma do consumo conviverá até 2033 com dois sistemas simultâneos, prolongando a incerteza justamente quando países concorrentes oferecem regras simples e estáveis. O terceiro é a insegurança jurídica. O Brasil possui mais de 80 milhões de ações judiciais. Todo esforço da Justiça em criar precedentes e até mesmo mudanças modernizadoras de legislação é, em grande parte, ignorado nas instâncias superiores. Além do mais, o investidor é vítima de mudanças frequentes de interpretação tributária, decisões judiciais oscilantes e instabilidade regulatória.

Somam-se a isso encargos trabalhistas elevados, energia cara para um país de vocação hidrelétrica, infraestrutura logística deficiente e um Judiciário lento. Quando esses fatores operam em conjunto, o resultado é um ambiente em que o investidor financeiro prospera, o exportador de commodities mantém competitividade, mas o empreendedor industrial conclui que produzir no Paraguai tornou-se mais racional que investir no Brasil.

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A indústria de pequeno e médio porte sempre foi um dos pilares da classe média produtiva. Quando ela migra, encolhe também a base social que sustenta a estabilidade democrática, ampliando a distância entre uma economia cada vez mais financeirizada e uma sociedade mais dependente do Estado. A frase do senador Flávio Bolsonaro, de que o Brasil teria “o melhor ministro da Fazenda do Paraguai”, é injusta com Fernando Haddad, mas aponta para um problema estrutural. O desafio não pertence a um governo. É resultado de um modelo institucional que atravessa diferentes gestões. Ainda há tempo para reescrever esse software.

Publicado em VEJA de 26 de junho de 2026, edição nº 3001

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