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A morte cerebral das instituições

A dúvida é se ressuscitarão melhores ou piores do que são hoje

Por Murillo de Aragão 8 Maio 2026, 06h00 | Atualizado em 8 Maio 2026, 09h23

Não há dúvida de que vivemos tempos estranhos. Mas tampouco existe dúvida de que tudo o que está acontecendo — por mais extravagante que pareça — era mais do que previsível. É a crônica da morte institucional do país. Só que, diferentemente das mortes “morridas”, a morte institucional traz a promessa de uma ressurreição. A dúvida é se as instituições ressuscitarão melhores ou piores do que são hoje.

A extravagância dos acontecimentos se revela não apenas no tamanho dos escândalos, mas na desconfiança que predomina na cena brasiliense. Ninguém confia em ninguém e, ao mesmo tempo, alianças inusitadas se formam em torno de pautas pontuais. Foi o que se viu na derrocada da indicação de Jorge Messias ao STF, episódio que reuniu ministros do Judiciário, oposição e setores da própria base governista. Coalizões assim já não exprimem convicção: exprimem sobrevivência.

A morte institucional se assemelha à morte cerebral. O corpo permanece vivo, mas o cérebro deixou de operar. As decisões já não obedecem a uma racionalidade voltada ao interesse público; são ditadas pelo instinto de sobrevivência. O que resta é reflexo medular: ação reativa, sem deliberação. Os aparelhos seguem ligados, os sinais vitais oscilam nos monitores, mas a vontade soberana já não habita o organismo.

“As decisões já não obedecem à racionalidade do interesse público, mas ao instinto de sobrevivência”

A certeza é de que tudo caminha para piorar. Sem a menor dúvida, o Senado avançará sobre o impeachment de ministros do STF no ano que vem; e a Suprema Corte reagirá com interpretações esotéricas para impedir o processo. Vale lembrar que essas mesmas regras — validadas, à época, pelo próprio STF — sustentaram o impeachment de Dilma Rous­seff. A Corte se vê diante de uma armadilha de sua própria jurisprudência: rejeitar hoje o que ontem reconheceu como legítimo seria assumir a perda de coerência que sempre negou em discurso.

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As dúvidas residem no paradoxo de que a morte cerebral resultará em ressurreição. O Congresso de amanhã será diferente. A Presidência, mesmo com a eventual reeleição de Lula, também. E o STF, igualmente. Não sabemos se serão melhores ou piores. Toda crise constitucional é, em última instância, crise de legitimidade — e só se resolve pela refundação simbólica do pacto.

Nesse contexto, as eleições de 2026 prometem ser tumultuadas. As pesquisas indicam disputa apertada. O quase empate técnico entre Lula e Flávio Bolsonaro transfere o peso da decisão para variáveis exógenas ao jogo eleitoral. Em disputas assim, o resultado raramente é definido pelos programas; é definido pelos acidentes e pelos detalhes. Como se sabe, Deus mora nos detalhes.

E acidentes não faltarão. Sobretudo porque , em ano eleitoral, a delação premiada deixa de ser instrumento processual e se converte em variável estratégica: quem fala, quando fala e o que fala podem reorganizar, da noite para o dia, o tabuleiro das instituições. O caso Master tem, em escala e ramificações, potencial para funcionar como o evento desestabilizador que falta para precipitar o desfecho. Ou melhor, definir o desfecho da disputa. Nesse ambiente, o eleitor decide menos pelo cálculo retrospectivo e mais pela lógica da indignação — num país cujas instituições já não dispõem do crédito necessário para arbitrar o conflito que elas próprias ajudaram a produzir.

Publicado em VEJA de 8 de maio de 2026, edição nº 2994

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