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Murillo de Aragão

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A República da atenção

Vivemos um tempo em que ser lembrado pesa mais do que ter razão

Por Murillo de Aragão 12 jun 2026, 06h00 | Atualizado em 12 jun 2026, 10h10
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Vivemos um tempo em que a atenção virou o bem mais valioso. No início do século, dizia-se que a informação era o novo petróleo. Hoje a informação é abundante. O que escasseia é a atenção. Capturá-la, em meio à inundação de dados, tornou-se o que de fato importa. Foi Herbert Simon quem antecipou a equação, ainda nos anos 1970: uma riqueza de informação produz uma pobreza de atenção. Meio século depois, erguemos uma economia inteira sobre essa pobreza. As plataformas não vendem vídeos, notícias ou entretenimento. Vendem minutos do nosso olhar ao maior anunciante. O produto somos nós, distraídos. Cada clique, cada curtida, cada segundo de permanência converte-­se em dado, e cada dado converte-se em valor econômico.

A atenção tornou-se uma moeda. E, como toda moeda, concentra poder. Quem consegue capturá-la passa a influenciar comportamentos, moldar preferências, definir prioridades e estabelecer agendas. O poder contemporâneo já não depende apenas da força, da riqueza ou da autoridade institucional. Depende cada vez mais da capacidade de monopolizar o foco coletivo. Em tempos eleitorais, essa lógica se radicaliza. Vence menos quem tem razão do que quem ocupa a tela. A pauta não é definida pelo que é mais importante, mas pelo que é mais capturável — o escândalo, o corte de quinze segundos, a frase que arde, a indignação instantânea. O candidato disputa, antes do voto, o tempo de atenção do eleitor.

“Nossos candidatos presidenciais não competem prioritariamente por programas de governo, mas por visibilidade”

Nossos políticos já não competem prioritariamente por programas de governo ou visões de país. Competem por visibilidade. Disputam quem consegue ocupar mais espaço mental do eleitor. No Brasil, onde o analfabetismo funcional permanece elevado e os índices de leitura são modestos, a atenção frequentemente favorece o ruído. Como observou Padre Antônio Vieira, quando o argumento é fraco, fala-se mais alto. As redes apenas industrializaram esse princípio. Na economia da atenção, ser lembrado pesa mais do que ter razão, e a origem conta menos do que o alcance.

Guy Debord, em sua análise da sociedade do espetáculo, já percebia que a representação tendia a substituir a realidade. Hoje avançamos um passo além. Vivemos em uma sociedade da interrupção permanente, onde a capacidade de refletir tornou-se menos valiosa do que a capacidade de reagir. A emoção precede a razão. O impulso derrota a ponderação. Daí o paradoxo do título. República supõe cidadãos que dividem um mesmo olhar, referências compartilhadas, um espaço onde se delibera interesses coletivos. Mas a economia da atenção privatiza e fragmenta esse olhar. Cada indivíduo passa a habitar seu próprio fluxo informacional, calibrado por algoritmos que premiam o que provoca indignação, medo ou entusiasmo e punem o que exige tempo, contexto e reflexão.

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O resultado é uma esfera pública cada vez mais atomizada. Erguemos, assim, uma República da Atenção que, ao capturar a atenção de todos, dissolve o solo comum de qualquer República. Nunca estivemos tão conectados. Nunca estivemos tão dispersos. Nunca produzimos tanta informação. Nunca tivemos tanta dificuldade para distinguir o relevante do irrelevante. Resta a saída mais difícil e mais antiga: tratar a atenção como soberania. Talvez a única campanha que realmente importe seja a que travamos contra a captura do próprio olhar. Quem controla a nossa atenção controla, em larga medida, a nossa percepção da realidade. E reparo, não sem ironia, que para dizer isto precisei capturar a sua.

Publicado em VEJA de 12 de junho de 2026, edição nº 2999

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