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APURAÇÃO DAS ELEIÇÕES 2026

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Murillo de Aragão

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Brasília: nada de novo no front

Vivemos uma guerra de trincheiras, entre gases tóxicos e artilharia

Por Murillo de Aragão 4 set 2026, 06h00 | Atualizado em 4 set 2026, 09h40
Brasília: nada de novo no front Priorize VEJA no Google

O que há em comum entre as guerras na Ucrânia e no Irã e a crise institucional de Brasília? O fato de que ninguém sabe como e quando vão terminar. Vivemos uma guerra de trincheiras na qual os soldados vão e voltam entre gases tóxicos e fogo de artilharia, como na I Guerra Mundial. Os avanços são medidos em escassos metros, mas o tiroteio é intenso.

Voltando à nossa novela, no fim de agosto a questão de Lulinha e Roberta Luchsinger dominou a pauta. Já na abertura de setembro, a suspensão do sigilo dos diálogos de Daniel Vorcaro desestabilizou uma Brasília já desestabilizada. Nem vale a pena citar rumores e boatos, já que, em tempos de crise, a verdade sempre anda escoltada por muitas mentiras, como disse certa vez Winston Churchill.

No campo de batalha, há muitos lados em disputa, e todos perseguem o mesmo objetivo: amenizar sobre si os efeitos dos escândalos do Banco Master e do INSS. Nessa lógica, os fatos a serem vazados ou divulgados podem ser selecionados com o timing adequado, e a forma de divulgação, cuidadosamente preparada.

“O cidadão que conclui que todos são iguais se torna cínico. E o cinismo é o adubo dos aventureiros”

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Sem sair condenando a torto e a direito, é claro que existem atitudes de autoridades inaceitáveis sob qualquer ângulo. Mas o cerne da questão não está em esconder ou mostrar. Está em investigar e trazer a público o que importa. Os movimentos oficiais não batem com o que emerge na imprensa porque existe um jogo de sombras em curso. Quando todos têm o que esconder, ninguém tem interesse na luz plena.

O peculiar é que nunca, verdadeiramente nunca, um escândalo atingiu todos os recantos institucionais e políticos do país. Não há pilar poupado nesta República tropical. Num salve-se quem puder, o governo Lula procura se afastar do STF em gesto de profunda ingratidão: sem a Suprema Corte, muitas de suas medidas, algumas até arbitrárias, não teriam vingado. As patas do Master estão solidamente pousadas sobre o PT da Bahia, sobre setores do Centrão e, de quebra, sobre o bolsonarismo com a questão do filme Dark Horse. E o Judiciário, em crise sobre o que e quem julgar.

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As consequências eleitorais já se desenham: a eleição está indefinida. O favoritismo de Lula escorre por suas mãos: a desaprovação do governo, segundo a AtlasIntel, beira 53%. As peripécias de Lulinha o atingem em profundidade e são inaceitáveis até para os petistas mais empedernidos. Flávio Bolsonaro luta com um tema menor para o bolsonarismo, mas potencialmente fatal junto aos indecisos. Com os dois polos contaminados, abre-se espaço para o imprevisível.

Candidaturas antissistema ganham oxigênio, a abstenção tende a crescer e o voto de protesto pode arbitrar 2026. Um pleito decidido pelo ressentimento, e não pelo projeto, produz mandatos fracos e governabilidade precária. Cada capítulo do escândalo corrói ainda mais a confiança nas instituições e na própria política. O cidadão que conclui que todos são iguais não se torna exigente: se torna cínico. E o cinismo é o adubo dos aventureiros. A normalização do escândalo é a antessala da apatia democrática. A cidadania atônita espera que a lavagem das escadarias do poder não demore décadas. No Bonfim, a purificação é anual. Na República, ainda não há data marcada.

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Publicado em VEJA de 4 de setembro de 2026, edição nº 3011

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