Oferta hexa: Assine por apenas 5,99
Imagem Blog

Murillo de Aragão

Por Murillo de Aragão Materia seguir SEGUIR Seguindo Materia SEGUINDO

Um país em depressão

Quando a política e o estresse psicológico se encontram

Por Murillo de Aragão 29 Maio 2026, 06h00 | Atualizado em 29 Maio 2026, 11h26
Um país em depressão Priorizar nos meus resultados Google

A coincidência cronológica é demasiado precisa para ser fortuita. Em 2013, ano em que as “jornadas de junho” inauguraram o ciclo de polarização permanente no Brasil, a Pesquisa Nacional de Saúde registrava prevalência de 7,6% de depressão diagnosticada entre adultos. Em 2019, o índice foi a 10,2% — 16,3 milhões de pessoas. Em 2022, no inquérito Covitel, da UFPel, chegou a 13,5%. Em seis anos, alta de 34%. Em uma década, quase dobrou. Nesse período, o país atravessou Lava-Jato, impeachment, recessão histórica, eleição de 2018, pandemia, eleição de 2022 e o 8 de Janeiro.

Pode ser coincidência. A hipótese, contudo, merece exame. Há quatro vetores convergentes. O primeiro é institucional. A partir de 2013, a Pentarquia do Poder (Executivo, Congresso, STF, agências e mercado/mídia) deixou de operar em colisão controlada e passou ao conflito aberto, espetacularizado, permanente. A imprevisibilidade institucional, antes restrita a momentos de crise, tornou-se condição normal de funcionamento. O cidadão perdeu a sensação de que as regras do jogo são estáveis. Essa erosão da previsibilidade é, em si, um estressor crônico.

O segundo vetor é econômico. A recessão de 2015-2016 — queda de quase 7% do PIB, a maior da história republicana — produziu desemprego estrutural, endividamento das famílias e queda persistente de renda. A literatura epidemiológica é robusta: desemprego prolongado é preditor confirmado de depressão. A camada pandêmica veio depois, somando-se a tudo. A Organização Mundial da Saúde estimou alta global de 25% na prevalência de ansiedade e depressão apenas no primeiro ano da covid-19.

“A democracia não funciona sem cidadãos psiquicamente disponíveis para o debate”

O terceiro vetor é a insegurança. Não a estatística criminal em si, que recuou em relação ao pico de 2017, mas o medo difuso que se instalou no cotidiano. Segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, o país teve 46 328 mortes violentas intencionais em 2024 — taxa de 21,7 homicídios por 100 000 habitantes —, mantendo o Brasil entre os países mais violentos do mundo fora de zonas de guerra. Em dezembro de 2025, a segurança ultrapassou a economia como a segunda maior preocupação nacional, atrás apenas da saúde. Vive-se em estado de alerta de baixa intensidade, e o organismo paga o preço.

Continua após a publicidade

O quarto vetor é o substrato comum: a arquitetura algorítmica das redes sociais. A exposição contínua à indignação programada (e à circulação de imagens de violência, que amplifica os vetores anteriores) mantém o organismo em estado permanente de defesa, com produção de cortisol e adrenalina. O sistema nervoso não foi desenhado para operar em alerta perpétuo. A implicação política, incontornável: nenhuma democracia funciona sem cidadãos psiquicamente disponíveis para o debate.

A polarização deixou de ser só um problema político. Tornou-se questão de saúde pública. Os quatro vetores convergem sobre o mesmo corpo social, e nele se inscrevem. Quando a Classificação Internacional de Doenças da OMS registra a depressão sob o código F32, e quando 13,5% dos brasileiros nele se enquadram, a fadiga democrática deixa de ser metáfora para ganhar número de catálogo médico. Esse é o ponto em que o sofrimento social difuso vira estatística clínica — e em que a política, queira ou não, terá de responder a ele também como tal.

Publicado em VEJA de 29 de maio de 2026, edição nº 2997

Publicidade

Matéria exclusiva para assinantes. Faça seu login

Este usuário não possui direito de acesso neste conteúdo. Para mudar de conta, faça seu login

Banner com fundo escuro e pontos de luz dourados. À esquerda, um ícone de árvore estilizada e a palavra Abril em dourado. Ao centro, o número 76 em dourado, com efeito tridimensional. À direita, o texto ANOS FAZENDO HISTÓRIA. HOJE, VOCÊ FAZ PARTE DELA. em douradoBanner da Abril comemorando 76 anos. O número 76 dourado e grande à esquerda, com o logo da Abril e a frase ANOS FAZENDO HISTÓRIA. HOJE, VOCÊ FAZ PARTE DELA. À direita, Assine com preço especial de aniversário e um botão dourado ASSINE AGORA, sobreposto a várias capas de revistas como Veja e Superinteressante
ECONOMIZE ATÉ 29% OFF

Revista em Casa + Digital Premium

Receba 4 revistas de Veja no mês, além de todos os benefícios do plano Digital Completo (cada revista sai por menos de R$ 10,00)
De: R$ 55,90/mês
A partir de R$ 39,99/mês

*Acesso ilimitado ao site e edições digitais de todos os títulos Abril, ao acervo completo de Veja e Quatro Rodas e todas as edições dos últimos 7 anos de Claudia, Superinteressante, VC S/A, Você RH e Veja Saúde, incluindo edições especiais e históricas no app.
*Pagamento único anual de R$23,88, equivalente a R$1,99/mês. Após esse período a renovação será de 118,80/ano (proporcional a R$ 9,90/mês).