Juiz sem acento, juízes com acento: a regra que a Copa pôs em evidência
Entenda a norma do hiato que explica essa diferença e veja como ela aparece em outras palavras do português
Fala, pessoas!
O Brasil está fora da Copa do Mundo de Futebol de 2026, mas eu aqui continuo na labuta para trazer nossa amada língua portuguesa em todos os assuntos do nosso dia a dia. Hoje quero falar de uma palavra que estamos utilizando muito nessa Copa: juiz.
Durante os jogos da Copa, o juiz é sempre protagonista silencioso, seja para o bem ou para o mal. Apita faltas, confere o VAR, decide pênaltis. Mas repare: escrevemos “o juiz apitou a partida” sem acento, e “os juízes internacionais estão reunidos para a Copa” com acento no í. Duas palavras, a mesma raiz, dois comportamentos ortográficos diferentes. Existe uma explicação para isso e ela não tem nada de arbitrária (esse trocadilho ficou bom demais para não usar).
A regra por trás do acento: o hiato
Em português, hiato é o encontro de duas vogais na mesma palavra que pertencem a sílabas diferentes, cada uma pronunciada separadamente, sem se fundir num só som. Em “ju-iz”, por exemplo, o U e o I estão juntos na palavra, porém em sílabas distintas.
A regra da acentuação de hiatos diz o seguinte: quando a segunda vogal do hiato for I ou U tônica (a que recebe a força da pronúncia), forma hiato com a vogal anterior e recebe acento se estiver sozinha na sílaba ou acompanhada apenas da letra S.
É aqui que “juiz” e “juízes” se separam.
Por que “juiz” não tem acento
Divida a palavra em sílabas: ju-iz. O I é a segunda vogal do hiato e é, de fato, a vogal tônica. Só que ele não está sozinho na sílaba: divide a sílaba com a consoante Z, formando “iz”. Como a regra exige que o I esteja isolado, ou seguido só de S, para ganhar acento, a acentuação não se aplica. Por isso, escrevemos juiz, sem acento algum.
Por que “juízes” tem acento
Agora divida “juízes”: ju-í-zes. O panorama muda. A letra I, que continua sendo a vogal tônica do hiato, agora forma sozinho a sua própria sílaba: “í”. Não há mais nenhuma consoante grudada nele dentro da mesma sílaba. Sozinho, isolado, ele se enquadra exatamente na regra: hiato + I tônico sozinho na sílaba = acento obrigatório. Por isso, juízes, com acento no í.
O plural muda a divisão silábica, e a divisão silábica muda a regra de acentuação. É simples assim, mas é justamente esse tipo de detalhe que gera dúvida na hora de escrever.
Essa regra não é exclusiva do universo jurídico ou esportivo. Ela se repete em várias palavras do português, e conhecer os exemplos ajuda a fixar de vez o raciocínio:
Raiz → raízes. Exatamente o mesmo padrão de juiz → juízes. Ra-iz (sem acento, porque o I divide sílaba com Z) e ra-í-zes (com acento, porque o Í fica sozinho na sílaba).
País → países. Aqui o padrão já nasce diferente: pa-ís, o Í já vem sozinho na sílaba desde o singular (seguido só de S), por isso já tinha acento; no plural, pa-í-ses, continua sozinho, continua acentuado.
Baú → baús. O Ú fica sozinho na sílaba tanto no singular quanto no plural, por isso mantém o acento nos dois casos.
Perceba o padrão: a regra do hiato não olha para o significado da palavra, olha para a estrutura silábica. Muda a sílaba, muda o acento.
Por que isso confunde tanta gente?
Porque, no dia a dia, a gente escreve de acordo com o que ouvimos e o ouvido não separa sílabas, ele só reconhece o som da palavra inteira. “Juiz” e “juízes” soam parecidos, então o cérebro tende a tratá-los como se seguissem a mesma regra. Mas a ortografia trabalha com sílabas, não com semelhança sonora entre singular e plural. É um lembrete de que, para acentuar corretamente, o caminho mais seguro é sempre separar a palavra em sílabas antes de decidir.
O que isso tem a ver com a Copa do Mundo?
Tudo. Durante o Mundial, a palavra “juiz” nunca esteve tão em pauta. Cada partida tem um juiz principal, dois assistentes de linha, um quarto árbitro e toda uma equipe de arbitragem de vídeo por trás do VAR, ou seja, vários juízes trabalhando ao mesmo tempo para garantir que a regra do jogo seja cumprida à risca.
Tem uma ironia bonita nisso: assim como o juiz de campo aplica regras precisas para decidir cada lance, a língua portuguesa também tem sua própria arbitragem; as regras de acentuação. Nenhuma das duas é arbitrária, mesmo que pareça. Ambas seguem critérios claros, é só saber onde consultar.
Da próxima vez que você ouvir o locutor falar em “reunião de juízes” para revisar um lance no VAR, já vai saber exatamente por que aquele acento está ali e por que ele desaparece quando falamos de um juiz, no singular, apitando sozinho o jogo.
Agora que você aprendeu mais uma curiosidade linguística relacionada à Copa, que tal aproveitar para explorar a história e a cultura dos países participantes? Você encontra tudo isso no meu projeto “Na Trilha dos Craques”: https://youtu.be/RlEEsd3KgXY?si=tUJBeqboo7IHtllh
Nos vemos na próxima coluna!
Até mais!
Professor Noslen Borges www.professornoslen.com.br
Revisão textual: Profª. Ma. Glaucia Dissenha
EM UM SÓ LUGAR






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