Bondades que saem caro
Medidas do governo para manter a economia aquecida reforçam no mercado a percepção de pressão adicional sobre a inflação e o rumo da Selic
O recente anúncio de um pacote de crédito subsidiado voltado à compra e manutenção de veículos por trabalhadores de aplicativos reacendeu no mercado as críticas que têm acompanhado esse tipo de medida. Em conversas reservadas, os banqueiros dizem que o problema não é o benefício em si, mas a falta de sinais do governo no campo macroeconômico num momento já de pressão sobre a inflação. “O mercado odeia esses pacotes. Essas medidas beneficiam alguns poucos, mas, como consequência, não abrem espaço para uma redução permanente dos juros, prejudicando todo o resto da população”, resume um executivo do setor, traduzindo a leitura predominante entre agentes financeiros.
Num balanço rápido, o programa para os trabalhadores de aplicativos se soma a uma lista cada vez mais extensa de “bondades” do governo, como o Desenrola 2.0, subvenções para conter a alta dos combustíveis, promessa de subsídio ao gás de cozinha, financiamento para reforma de propriedades, ampliação da isenção do Imposto de Renda e iniciativas de crédito favorecido para categorias específicas. No caso mais recente, o governo lançou o Move Aplicativos, com previsão de até R$ 30 bilhões para financiar carros de até R$ 150 mil para motoristas de aplicativos e taxistas, com prazo de 72 meses e juros mensais de 0,99%. Para parte do mercado, essa sucessão de medidas reforça a percepção de uso político do crédito público e de expansão de incentivos concentrados em grupos específicos em pleno ambiente pré-eleitoral.
A preocupação técnica é relativamente simples: quando o governo cria linhas subsidiadas ou incentivos que estimulam a demanda em segmentos escolhidos, ele interfere no canal de transmissão da política monetária. Na prática, sustenta o consumo em nichos específicos, não deixa a economia esfriar como seria recomendável em momentos de alta geral de preços e dificulta o trabalho do Banco Central na administração da taxa de juros. “Para quem toma (o crédito), é até bom. Para o resto, fica a Selic mais alta.” No mercado, também voltou a circular uma frase carregada de memória histórica: “Isto é Guido/Dilma a revanche”, numa alusão ao período em que crédito direcionado, subsídios e contribuições foram feitos convivendo com desequilíbrios maiores.
Essa leitura ganha força porque o debate ocorre num momento em que o Banco Central ainda vê a inflação como problema aberto. Em recente audiência na Comissão de Assuntos Econômicos do Senado, o presidente do BC, Gabriel Galípolo, afirmou que a resposta hoje exigida da autoridade monetária é de “juros mais restritivos”, embora a Selic esteja em patamar já bastante contracionista. Ele também destacou o choque provocado pela guerra entre os Estados Unidos e o Irã, que levou o petróleo a níveis elevados, aumentando a incerteza sobre os preços. Em outras palavras, o cenário externo já complica o trabalho do BC; quando o governo adiciona impulsos internos via crédito favorecido, a margem para cortes de juros fica ainda menor.
É por isso que a inquietação do mercado vai além do pacote do dia e se concentra na trajetória da Selic, na política fiscal e no risco de abertura econômica futura. Se a inflação continuar resistente e as medidas parafiscais seguirem se acumulando, aumenta a chance de a taxa básica ficar estacionada no atual patamar por mais tempo — ou até de voltar a subir, caso o BC conclua que os estímulos e os choques de oferta estão contaminando as expectativas. O resultado, nessa visão, é um paradoxo conhecido: programas desenhados para produção imediata de resultados ajudam a cristalizar um ambiente de juros altos, crédito caro e atividade mais fraca para o conjunto da economia.





